Inquérito à mobilidade dos portugueses quer ajudar a travar pandemia

Projeto liderado por investigador da Universidade de Lisboa está a desenvolver um sistema online de apoio à decisão para diminuir os contágios.

São muitas as perguntas - e complexas. Mas todas elas vão dar a duas essenciais. A primeira é esta: de que forma está a mobilidade da população diretamente relacionada com os padrões de contágio da pandemia em Portugal? E a segunda parte daí: conhecendo essa dinâmica, como se pode intervir de forma precisa e cirúrgica para reduzir os contágios e ajudar a controlar a propagação da covid-19?

Para lá chegar, uma equipa científica que inclui investigadores de várias faculdades e centros de investigação das universidades de Lisboa e Nova de Lisboa lançou há cerca de duas semanas um inquérito online sobre a mobilidade no contexto da covid-19, e convida os portugueses a responder-lhe.

A partir do conjunto das respostas, cujo anonimato está garantido, a ideia é caracterizar os atuais padrões de mobilidade nas diferentes regiões do país.

O objetivo final, que a equipa liderada por Nuno Marques da Costa, professor e investigador do IGOT-Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, da Universidade de Lisboa (UL), quer ter concluído até ao fim do ano, é disponibilizar depois essa informação aos decisores e à comunidade, de forma que as medidas de intervenção no terreno possam ser dirigidas aos alvos certos e localmente eficazes, para travar a progressão das infeções.

O projeto, designado Compri-MOV, recebeu financiamento (40 mil euros) no segundo concurso de projetos de investigação científica para a área da covid-19 da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), e conta com a parceria das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto e dos operadores de transportes, entre outras instituições.

"Estamos a desenvolver um sistema para monitorizar e simular a propagação do vírus, tendo por base o conhecimento sobre a mobilidade da população, que é um fator determinante no processo de expansão da doença", diz Nuno Marques da Costa. E explica: "Esse sistema de informação permitirá perceber muito rapidamente onde os contágios estão a crescer mais para se poder intervir de forma mais atempada."

Ou seja, perante um qualquer surto localizado, o conhecimento sobre os padrões de mobilidade que lhe estão associados poderão dar rapidamente as pistas certas para ajudar a interromper a cadeia dos contágios. Daí o convite à população para que participe no estudo, respondendo ao inquérito.

"Todas as pessoas podem participar, quer vivam ou não em áreas metropolitanas", assegura o coordenador do estudo. "As repostas ajudar-nos-ão a conhecer os padrões de mobilidade nas diferentes regiões, e a perceber também de que forma eles foram alterados pela própria pandemia."

Desde que o inquérito está online, quase mil pessoas já responderam, mas "ainda é pouco", estima Nuno Marques da Costa. Para se obterem dados robustos será preciso quadruplicar, pelo menos, este número de respostas. "É muito importante para o resultado final perceber o que mudou na mobilidade das pessoas com a pandemia", assegura o professor e investigador do IGOT.

Confinamento, reabertura e mais casos

Que houve mudanças com o surgimento da covid-19 na forma como as pessoas se deslocam para os seus afazeres diários dentro das cidades, ou entre concelhos, isso é visível a olho nu.

Depois do confinamento de março e abril, em que quase tudo parou, a reabertura a partir de maio trouxe de novo a população para a rua, para aos poucos regressar aos locais de trabalho, ao lazer ao ar livre e, agora também, às escolas, após o verão e as férias.

Com essa retoma, mesmo condicionada nos espaços fechados, as pessoas voltaram a deslocar-se - mas há diferenças visíveis na forma como agora o fazem.

É muito clara, por exemplo, uma quebra na utilização dos transportes públicos, enquanto quem se desloca diariamente de automóvel, sobretudo nas grandes áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, se vê agora confrontado com mais filas e mais períodos de trânsito compacto. Mas para além desta tendência geral, a equipa de Nuno Marques da Costa quer conhecer em detalhe o que está acontecer - e porquê.

Antes das consequências da pandemia na mobilidade das pessoas, já tinha havido uma alteração importante na utilização dos transportes públicos, com a criação do novo passe social nas áreas metropolitanas. "Depois disso, a sua utilização cresceu significativamente", adianta o coordenador do projeto Compri-MOV.

Os dados mostram que esse aumento foi de 29,8% até janeiro de 2020. Só que, em março, surgiu a pandemia e tudo mudou.

"Sabemos que por causa da covid-19 as pessoas reduziram muito a utilização dos transportes públicos, houve uma quebra muito grande, mas não conseguimos ainda quantificá-la, estamos agora a trabalhar os dados dos operadores, que também são nossos parceiros no projeto", adianta Nuno Marques da Costa.

Risco nos transportes públicos?

A mobilidade e a forma como ela molda a vida das populações e os territórios, enquanto vetor de difusão cultural e de ideias, mas também de doenças e epidemias, é uma das áreas a que Nuno Marques da Costa tem dado especial atenção no seu percurso de investigador.

Em 2011, a sua equipa no IGOT fez um primeiro estudo para caracterizar essa realidade no território nacional. E em 2017 debruçou-se mais detalhadamente sobre as áreas metropolitanas do país, fazendo um retrato de trajetos, modos de transporte, tempos de deslocação e por aí fora.

Quando a pandemia surgiu, Nuno Marques da Costa percebeu de imediato que seria preciso estudar a mobilidade associada à expansão da covid-19. "Os primeiros infetados em Portugal ficaram justamente a dever-se à mobilidade, foram casos importados de Itália, e depois de Espanha", lembra.

Por isso participou logo num dos primeiros projetos ResearchCovid, lançados pela FCT em abril. O estudo Comprime (de Conhecer Mais Para Intervir Melhor), coordenado por Paulo Sousa, da Escola Nacional de Saúde Pública, da Universidade Nova de Lisboa, caracterizou a dinâmica da expansão da covid-19 a partir dos perfis demográficos, socioeconómicos e territoriais, à escala do concelho, para todo o país.

Os resultados puseram em evidência a forma diferenciada, e sobretudo desigual, como a doença se propaga, tendo em conta justamente aqueles fatores sociodemográficos.

"As conclusões do projeto, que já terminou, põem em destaque as diferenças demográficas, socioeconómicas e etárias face a esta pandemia", resume Nuno Marques da Costa. "As pessoas que não puderam parar as suas atividades profissionais ou que não puderam ficar em teletrabalho, por exemplo, estiveram mais expostas ao contágio", explica.

Isto para já não falar das famílias com rendimentos mais baixos ou trabalhos mais precários e com más condições de habitação, como acontece muito na população imigrante, que em muitos casos não puderam sequer fazer quarentenas nas próprias casas, quando isso se tornou necessário.

O Comprime criou também um sistema de informação online, em que estão todos os dados tratados em gráficos interativos, que contam a história da pandemia no país, e que continuam diariamente a ser atualizados, agora no âmbito do projeto coordenado por Nuno Marques da Costa.

Os resultados apontam já uma direção muito clara: um dos fatores que agravam a expansão da covid-19 e expõem mais as pessoas aos riscos de contágios são as deslocações para fora do concelho de residência, já que os contactos se multiplicam com a maior distância da deslocação. E não é necessariamente pelo uso dos transportes públicos.

Isso é de resto muito visível para a região metropolitana de Lisboa, onde o número de casos se manteve desde o início sistematicamente em níveis relativamente elevados de contágio, ao contrário do que aconteceu em todas as outras regiões do país, como mostra o gráfico da história da pandemia.

Mas qual é afinal o papel dos transportes públicos na propagação da covid-19? Serão eles um fator de risco acrescido, como defendem alguns especialistas, ou nem por isso, como outros argumentam?

"Não há neste momento dados científicos que fundamentem uma resposta definitiva", resume Nuno Marques da Costa. "Claro que nos picos de maior procura haverá maior risco de contágio. Desde que haja mais do que um certo número de pessoas por metro quadrado, o risco aumenta, mas ainda não existe uma evidência científica definitiva de que o transporte público é um fator de propagação."

O certo é que, apesar de os transportes públicos continuarem a registar uma grande quebra de utilização, os contágios estão agora a subir em flecha por todo o país, o que resultará, sobretudo, da reabertura social, estima Nuno Marques da Costa.

"O que está em causa são sobretudo as deslocações e a multiplicação dos contactos, não necessariamente o uso dos transportes públicos, mas o nosso projeto contempla esta questão e contamos ter uma resposta para ela o mais brevemente possível", conclui.

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