Um crocodilo no Douro? "À partida teria de ser o animal exótico de alguém"

O fim de semana na zona do rio Douro em Pesquerela, Espanha, foi passado à procura de um crocodilo-do-nilo com cerca de 250 quilos. Agora, avança-se a hipótese de ter sido um engano e de o crocodilo ser apenas uma lontra. Até pode ser, mas para Ana Daniela Soares, jornalista e autora do livro Cobras, Lagartos e Baratas, e para o biólogo marinho Élio Vicente, um crocodilo-do-nilo no Douro não seria impossível. Seria o resultado da criação ilegal de animais exóticos. E seria um perigo.

Desde sábado que estão no terreno operacionais do Serviço de Proteção da Natureza da Guarda Civil Espanhola, biólogos e a polícia local, com drones, na zona de Pesqueruela, em Espanha, em busca de um crocodilo-do-nilo com cerca de 250 quilos, avistado nas margens do rio Douro na sexta-feira por dois rapazes que alertaram as autoridades.

O alerta foi levado a sério, os meios foram mobilizados e as notícias davam conta não só da confirmação do avistamento pelas autoridade como da descoberta de dois ninhos e da possibilidade de o animal ter sido libertado por um residente da zona.

Ontem, avançou-se a hipótese de o crocodilo ser afinal uma lontra. Mas não é a primeira vez que crocodilos aparecem em rios nacionais. Há uns anos, garante Ana Daniela Soares, jornalista e autora do livro Cobras, Lagartos e Baratas, o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas apanhou três crocodilos do nilo na barragem de Castelo de Bode, que foram abatidos a tiro. "Não é mito", diz, acabada de sair, com Élio Vicente, biólogo marinho e diretor do centro de Centro de Reabilitação de Animais Marinhos, no Zoomarine, de uma apresentação do seu livro, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Ontem, o jornal espanhol El Pais colocava a hipótese de afinal não ser um crocodilo, mas sim uma espécie de lontra. É possível confundir os dois animais?
Élio Vicente (EV) -
Possível é se as pessoas que estão a acompanhar as buscas não tiverem a mínima ideia do que estão a ver, mas quero acreditar que as pegadas que se noticiou terem sido detetadas e analisadas por especialistas não foram confundidas. No entanto, sem saber o que foi usado para identificar o animal não posso garantir nada.

Tendo em conta os meios mobilizados para encontrar o animal, supor-se-ia alguma certeza.
EV -
Talvez não. Neste caso, o princípio da precaução exigiria que as autoridades responsáveis levassem uma denúncia destas a sério. Muitas vezes é preferível pecar por excesso e depois verificar-se que não havia necessidade do que correr o risco de uma tragédia. Eu gostaria de pensar que as autoridades estão a ser cautelosas.

Tendo em conta a informação que chegou, e eu tenho-a como fidedigna, é muito difícil confundir o rasto de um jacaré e de um crocodilo com o de outras espécies. O rasto de um crocodilo não mostra só as patas e a composição dos dedos, mas também a cauda. Mas sem saber quem está a conduzir as operações, quais os protocolos de segurança e quem são os especialistas chamados, é difícil dizer o que quer que seja com certeza.

Seja como for, como é que um crocodilo-do-nilo, com cerca de 250 quilos, que era o que as primeiras notícias indicavam, pode aparecer num rio como o Douro?
Ana Daniela Soares (ADS) -
À partida este crocodilo seria o animal de estimação de alguém e, das duas uma, ou conseguiu fugir do sítio onde estava ou então o próprio tutor resolveu largá-lo no rio porque já não conseguia tê-lo em casa e alimentá-lo. Concordas, Élio?

EV - Em absoluto. Não existe, pelo menos que saibamos, uma quinta de produção desta espécie naquela região, portanto para um indivíduo solitário ser encontrado é porque fugiu ou foi abandonado. E é como a Ana Daniela diz e muito bem: estes animais são abandonados ou porque constituem um risco para a segurança do seu tutor, da família deste ou de outros animais de estimação, como por exemplo cães e gatos, ou então porque a sua alimentação e manutenção se tornaram muito dispendiosas. Muitas vezes as pessoas compram ou é-lhes oferecido um animal exótico em pequenino e não têm a noção de como ele vai crescer.

Como se mantém um crocodilo desta dimensão em casa?
EV -
Muito mal. Esse é um dos problemas que temos vindo a verificar ao longo dos últimos anos, com esta moda de ter animais exóticos em casa, é que muitas vezes são mantidos em muito más condições e essa é uma das questões abordada e bem no livro da Ana Daniela, que acabámos de apresentar. Animais que não têm nem de perto nem de longe uma área mínima para se exercitarem, não têm condições para terem comportamentos de alimentação normais nem convívio com outros animais. Não é o caso dos répteis, e em particular dos crocodilos, que não são sociais. Podem viver em grandes grupos mas não criam laços nem se relacionam uns com os outros, portanto, por aí não é um problema de maior, mas em termos de espaço, de alimentação e de maneio, muitos destes animais são mantidos em condições muito más. A vantagem, ou desvantagem é que os crocodilos e jacarés são animais muito antigos, muito resistentes, e é muito difícil levar um animal destes à morte, tanto mais que sendo répteis podem passar dias, semanas e até meses sem se alimentarem.

Um crocodilo com um metro e meio já tem muita força, pode nadar a mais de 30 quilómetros por hora e pode atacar uma criança ou até um adulto. Animais deste tamanho podem capturar presas com o dobro do seu tamanho.

Mas é legal ter um crocodilo ou um jacaré em casa?
EV -
Em Portugal é ilegal e por isso não temos acesso aos sítios onde eles estão, não sabemos que existem, não sabemos em que condições são mantidos, a não ser quando um deles foge ou é abandonado e aparece num rio, como pode ter acontecido agora no Douro, em Espanha.

ADS - E como já aconteceu em Portugal. Há uns anos, o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) foi capturar crocodilos à barragem de Castelo de Bode., como foi contado pelo biólogo João Loureiro. Não é um mito. É mesmo verdade. Noutro ano, houve um falso alarme e era um peixe-gato. Ou seja, os crocodilos são animais que é ilegal ter em Portugal, como animal de estimação, mas a legislação varia de país para país e, em condições normais, com fronteiras abertas, é fácil estes animais viajarem pela Europa. Obviamente, quem os tem sabe que é proibido tê-los e o ICNF só tem acesso a eles quando recebe uma denúncia e consegue investigar, mas chegar aos animais é um processo às vezes longo e nada fácil.

Que perigo constitui um animal destes com fome?
ADS -
Pode atacar a primeira presa que lhe aparecer e dependendo da sua dimensão pode atacar humanos. Aliás, em África, de onde é originário, é responsável por muitas mortes de pessoas. Podemos pensar que é mais ou menos lento, mas é extremamente rápido no ataque e na surpresa do ataque. Pode pôr em risco vidas humanas. Na Florida, por exemplo, há um certo orgulho de os jacarés andarem perto das habitações, mas quando atingem determinadas dimensões as autoridades retiram-nos e colocam-nos noutros locais para não representarem um perigo para as pessoas.

Qual é a diferença entre um crocodilo e um jacaré?
EV -
São animais do mesmo grupo, mas do ponto de vista anatómico, fisiológico e comportamental e geográfico são diferentes. Na Florida existem muitos jacarés. Neste caso, estamos a falar de crocodilos que vêm de África e, respondendo à pergunta anterior, podem ser um risco. Um animal destes com um metro e meio já tem muita força, pode nadar a mais de 30 quilómetros por hora e num rio a deslocação é rápida. Não nos esqueçamos que o calor já chegou, há muitas pessoas que usam rios e ribeiras para nadar, nomeadamente crianças, e poderá haver uma tentativa de captura de uma criança ou até de um adulto. Animais deste tamanho podem capturar presas com o dobro do seu tamanho.

O facto de ter sido criado por humanos não os torna menos perigosos?
EV -
Não, pelo contrário. Poderá estar dessensibilizado à presença de humanos e não ter medo. No meio selvagem estes animais são tímidos, tendem a fugir, mas se teve contacto com humanos poderá ser um risco acrescido porque poderá não sentir a necessidade de se afastar da potencial ameaça que representa a presença de um humano. Se fosse um animal adulto, seria muito mais perigoso. Esta espécie pode chegar a mais de seis metros de comprimento, for um macho adulto, e pesar mais de mil quilos, o que faz dele um dos grandes predadores da natureza. Um crocodilo, quando ataca, agarra a presa, leva-a para o fundo do rio e entala-a em ramos ou pedras, para que a carne comece a apodrecer, porque é assim que ele se alimenta. O risco é de ser apanhado e afogado, o que pode tornar mais difícil detetar a vítima.

Como se consegue apanhar um bicho destes à solta num rio como o Douro?
EV -
Há várias opções. A mais imediata e direta, e contrária ao interesse do animal que não tem culpa nenhuma, é levar um tiro. Este animal tem escamas e placas ósseas muito fortes que são uma autêntica armadura e portanto o único ponto vulnerável são os dois olhos. O mais fácil, ao longe, é abater o animal com um tiro. Mas há outras opções, se soubermos a área onde está mais ou menos confinado, que passam por atraí-lo com comida morta para dentro de armadilhas, redes ou jaulas.

É um animal que está mais tempo submerso ou está mais à superfície, podendo ser mais facilmente detetável?
EV -
Nos rios, é razoavelmente fácil de detetar porque como são águas tranquilas eles podem ser avistados à superfície, mas só se vê os olhos e as narinas, pouco mais. No entanto, os crocodilos precisam muito de apanhar sol. São animais de sangue frio, portanto o seu metabolismo depende da temperatura ambiente e passam muito tempo fora de água, principalmente nesta altura, para apanhar sol. Nesta época do ano, passaria muito tempo nas margens, daí não ser disparatada a possibilidade se ter sido avistado e terem sido encontradas as pegadas. É mais provável que seja visto nas margens do rio do que dentro de água, mas não nos esqueçamos também que são animais que podem estar mais de meia hora ou até duas horas sem vir à superfície. Portanto, pode estar perto de nós sem que nos apercebamos sobretudo se a água for turva e não permitir boa visibilidade.

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