Já imaginaram esta situação sem internet?

Em vários países as quarentenas fizeram crescer até 40% o acesso à net. Por cá, desde sexta-feira, o aumento foi de 20%, relacionado sobretudo com o entretenimento. Se nos EUA já há quebras de fornecimento, especialistas garantem que o sistema português é dos melhores e vai aguentar sem problemas.

"Se for decretado um estado de emergência, é muito importante ter conectividade. Porque só isso combate o isolamento, e o isolamento é um fator de enfraquecimento da resiliência. A internet é um serviço essencial."

A opinião é do deputado socialista José Magalhães, um dos políticos portugueses mais ligados ao digital. Mas crê que a alteração do uso da internet que uma situação como a presente implica não trará problemas de maior: "A existir uma sobrecarga ocorrerá nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, onde há muita cobertura de fibra ótica, que tem grande capacidade."

A perspetiva é partilhada por um especialista da área, o CEO da tecnológica Bright Pixel, Celso Martinho. "Portugal está particularmente bem servido em termos de infra-estrutruras de telecomunicações, mais que muitos outros países europeus. E nunca estivemos, no mundo, tão bem preparados do ponto de vista tecnológico para passar por uma situação destas."

Porém nos EUA, de acordo com um artigo publicado esta segunda-feira no New York Times , o incremento no acesso à net a partir de casa, quer pelo teletrabalho quer pela presença de jovens e crianças em casa está a causar quebras de fornecimento, com as operadoras a anunciar que vão oferecer upgrades aos utilizadores para terem mais largura de banda e mais velocidade e prevendo aumentar a capacidade das redes, se necessário.

Será que em Portugal pode suceder algo semelhante? Celso Martinho acha que não. "As plataformas portuguesas estão relativamente bem preparadas para suportarem picos de tráfego - um jogo de futebol ou um acontecimento mais mediático até consomem mais. E tanto quanto consigo apurar a maior parte do país já fez a mudança para casa, para o teletrabalho. Obviamente ainda estamos no início do confinamento e a alteração de comportamentos total ainda não se deu, mas não me parece que a taxa de crescimento vá muito além disto."

E isto, estima, serão taxas de crescimento no acesso à net de 30% no máximo: "Não vai duplicar."

"Pode haver lentidão se for tudo para a Netflix à mesma hora"

Para já, o consumo subiu cerca de 20% no fim de semana em relação ao anterior, com grande relevo para o serviço de streaming (Netflix e afins) e as gravações automáticas, e também no serviço de vídeo on demand, que cresceu muito mas ainda assim com pouca expressão face ao streaming.

São as informações fornecidas ao DN pelo engenheiro de rede José Pedro Nascimento, da MEO-Altice, a operadora líder do mercado. "Nesta segunda-feira e na terça as pessoas estão já sobretudo no teletrabalho e isso puxa menos pela rede."

Já a rede móvel, na qual desde terça-feira as três operadoras portuguesas estão a oferecer 10 GB de dados grátis, ficou, diz este técnico, "igual, até houve uma ligeira descida em relação ao habitual no fim de semana." O que se explica pelo facto de as pessoas terem de um modo geral ficado em casa, ligadas à respetiva rede de wifi.

O que releva face ao tráfego de há 15 dias, então, é mesmo o maior consumo doméstico durante o dia todo. Algo que tem sido verificado noutros países e, como já referido, está a criar problemas pelo menos nos EUA. Por cá, admite o engenheiro da MEO, "pode haver fases de lentidão, se por exemplo toda a gente for à Netflix à mesma hora, porque a rede não está dimensionada para isso."

Um analista de redes que prefere não ser identificado admite também que "pode haver momentos em que determinada área tenha menos desempenho e seja preciso desligar e ligar o modem", mas assegura: "Todas as operadoras estão a fazer o mesmo e estão focadas em segurar o país, conscientes de que têm uma missão muito crítica em mãos. E não vejo que haja facilidade em haver falhas. Nos EUA pode ser que isso suceda mas em Portugal temos três redes top de uma dimensão brutal."

O dito "segurar do país", explica o analista, passa por aumentar a capacidade de rede e a sua resiliência à medida que a situação evolua. O modelo ainda não está fechado porque ainda não se sabe exatamente qual vai ser o comportamento, passou muito pouco tempo."

Mas pode acontecer que as pessoas sintam que a net está melhor: "Fiz testes na minha rede de casa e tenho muito mais velocidade." Isso pode dever-se, explica, a haver menos consumo na sua área geográfica. "Em situação normal as operadoras sabem que existem zonas - por exemplo onde há grandes empresas com muita gente ligada - com maior intensidade de uso, e agora há uma deslocalização, com as pessoas a trabalhar de casa. As redes estão afinadas para determinado tipo de tráfego em certas áreas, e é preciso agora perceber o que mudou para robustecer noutras zonas, redirecionar. Não há ainda dados com relevância estatística para perceber como está a ser o consumo."

"Parece um episódio de Black Mirror"

Mas já há dados de outros países, com relevo para a Itália, onde a partir de 9 de março, dia em que o governo presidido por Giuseppe Conte impôs quarentena nacional, o tráfego de internet cresceu entre 20 e 40%..

Na China, o Internet Exchange Point (IEP) de Hong Kong sofreu um assinalável incremento de atividade a partir de 23 de janeiro, quando foi imposta a quarentena da província de Hubei, em cuja capital, Wuhan, foi registado o início da epidemia do Covid-19; os IEP de Amesterdão, Londres e Frankfurt registaram também aumentos de 10 a 20% a partir de 9 de março. Já na Coreia do Sul a diferença registada foi de apenas mais 5%.

Estes números foram publicados pela empresa Cloudfare, uma tecnológica americana que opera em mais de 200 cidades em todo o mundo e que, embora considere difícil quantificar com exatidão o aumento global de procura, diz numa publicação desta terça-feira estar a observar, dependendo da região e do tipo de ação governamental, subidas de 10 a 40%.

"Tráfego relacionado com videoconferências, serviços de streaming e de notícias e sites de comércio digital subiu. Registámos um aumento de tráfego nas redes de banda larga residenciais e uma diminuição no de empresas e universidades", lê-se no site da tecnológica. "A internet tornou-se, para muitos, a principal forma de se manterem em contacto com amigos e família. E é um motor essencial da economia global quando muitas empresas têm os funcionários a trabalhar a partir de casa."

Tendo como referência as alterações registadas no norte de Itália, onde se deu o início da epidemia no país, com o tráfego a aumentar cerca de 30% na segunda semana de março, foi no uso dos sistemas de chat online que se verifica a maior subida, que chega ao triplo do normal. A seguir vêm as plataformas de streaming, que duplicam o acesso, e em terceiro a procura de sites de notícias e de informação, com mais 30 a 60%; o jogo online aumenta 20%.

É a primeira vez que confinamento e distanciamento social permitem que tanta gente, trabalhadores e estudantes, possa continuar a funcionar de casa; nunca se viu uma quarentena tão conectada e gregária como esta, na qual o isolado pode passar o dia a falar com centenas ou mesmo milhares de pessoas, num continuum de comunicação

"É difícil imaginar esta situação sem internet", comenta Celso Martinho. Dir-se-ia até uma experiência, o ensaio geral de uma nova forma de organização social e laboral. Que, de resto, o CEO da Bright Pixel crê que vai mesmo suceder: "O teletrabalho pode ter um empurrãocom isto. A pandemia pode estar a obrigar algumas empresas e instituições a acelerar o que para algumas era já óbvio e para outras não."

Pode um vírus funcionar como meio de transição entre visões do mundo? Ou, pelo contrário, vai mostrar-nos aquilo que estávamos a perder? Num momento em que quando estávamos fisicamente com os outros tendíamos a passar o tempo mergulhados em smartphones e iPads, interagindo nas redes em vez de atentarmos a quem ali estava, fecharem-nos com os ecrãs e proibirem-nos o convívio presencial é uma bela partida. "Parece um episódio do Black Mirror", resume Martinho, referindo a série britânica de ficção científica conhecida pelos seus argumentos arrevesados e sarcásticos. Se parece.

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