As questões que a ciência deve responder para enfrentar uma segunda vaga

Como melhorar a ventilação em ambientes fechados ou qual o papel das crianças no transmissão do vírus são alguns dos problemas que a Universidade Johns Hopkins considera que os cientistas deviam trabalhar para o mundo ter melhor resposta à pandemia.

A ciência tem dado resposta, na medida do possível, a muitos dos problemas causados pela covid-19. Mas permanecem muitas dúvidas, em diversos níveis, que podem eventualmente ser desfeitas. A pensar nisso, a Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos, cujos estudos e especialistas têm sido referência ao longo da pandemia, publicou um documento em que são enumeradas seis questões que devem ser resolvidas para enfrentar a segunda vaga. Os autores falam em problemas como as formas de contágio, a importância da ventilação em espaços fechados ou o papel das crianças, mais ainda quando as escolas vão reabrir.

O trabalho, assinado entre outros pela epidemiologista Caitlin Rivers e pelo diretor do Centro Johns Hopkins de Segurança Sanitária, Tom Inglesby, tem como objetivo preparar a resposta dos EUA à segunda vaga: "É um desafio que vai muito além do que qualquer Estado, território ou comunidade pode enfrentar sozinho. Apenas a nossa ação coletiva vai gerar a mudança necessária para retomar o controlo". Ficam os principais pontos em que o relatório diz que a ciência pode trabalhar em melhores respostas.

Sistemas de ventilação

Pelos dados dos últimos meses, verifica-se que o contágio proporciona-se mais facilmente em ambientes fechados do que ao ar livre. Sabe-se que a diferença pode ser quase 20 vezes maior. Por isso, os autores do relatório questionam: "Existem soluções de engenharia para melhorar os sistemas de ventilação em edifícios que podem ser feitas de forma rápida e barata?"

Os especialistas recomendam que o lazer, o trabalho e a aprendizagem sejam transferidos para o exterior: "Se as atividades que normalmente seriam realizadas em ambientes fechados pudessem ser deslocadas para fora, isso permitiria continuar com maior segurança". Especialistas em qualidade do ar têm exigido que seja enfatizada a importância da ventilação constante em ambientes fechados, pois tem sido observado que o fluxo de ar externo pelas janelas e portas, ou bons sistemas que renovam o ar são medidas essenciais para evitar que partículas contendo vírus flutuem até infetarem alguém. Mas ainda há questões não resolvidas em relação aos equipamentos de filtragem de ar e outros sistemas que podem ser úteis onde a ventilação não é possível.

Formas de contágio

O perigo de contágio dos aerossóis, as minúsculas partículas que escapam da boca ao tossir e falar e permanecem em suspensão, é cada vez mais relevante. "Qual é a contribuição relativa da transmissão de aerossóis e fómites [contacto direto com objetos contaminados] e como nossas práticas de mitigação deveriam ser modificadas para lidar com essas descobertas?", questionam os especialistas. A questão é muito relevante neste momento, depois de a Organização Mundial da Saúde reconhecer que os aerossóis podem ser uma via de contágio.

Observações de cenários supercontagiosos em ambientes fechados, onde um número significativo de pessoas contraem a doença sem entrar em contacto direto com o paciente zero, levam alguns cientistas a pensar que o papel dos aerossóis é muito maior do que o do contacto com as superfícies. Um novo estudo divulgado recentemente mostra que o vírus permanece no ar de uma sala, com capacidade de infetar, a mais do que os dois metros de distanciamento recomendados.

Uso de máscaras

"Como os comportamentos no uso de máscara podem ser melhorados e expandidos?", pergunta o trabalho da Johns Hopkins, sugerindo a intervenção de especialistas em comunicação e persuasão da ciência. É necessário aumentar o conhecimento real da utilidade da máscara: por exemplo, não é só para conter a tosse, os aerossóis também escapam ao falar, gritar ou cantar.

Além disso, o relatório questiona se "as coberturas faciais podem ser melhoradas para torná-las mais confortáveis ​​e com melhor filtragem".

Comunicação para mudar comportamentos

"Como as comunicações públicas sobre a redução do risco de transmissão podem ser melhoradas e como essas mensagens podem ser adaptadas aos grupos de maior risco?" Em vários países há pessoas que começam a mostrar-se cansadas com as restrições e nem todos os grupos se comportam da mesma forma: os mais velhos ficam mais cuidadosos e permanecem em casa, enquanto os jovens aproveitam a abertura de espaços de diversão. O contágio em pessoas com menos de 30 anos de idade tem aumentado.

"A consistência das mensagens desempenhará um papel importante na superação de desinformação e diferenças ideológicas que contribuem para a baixa adesão às diretrizes de saúde pública", afirma o relatório. Além disso, aponta que os líderes políticos e cientistas devem trabalhar juntos no desenvolvimento de políticas e na comunicação ao público. "A orientação deve refletir a experiência de cientistas sociais, que podem aconselhar sobre como se envolver de forma significativa com indivíduos e comunidades, particularmente comunidades marginalizadas e carenciadas que são desproporcionalmente afetadas pela pandemia", aponta o relatório.

O papel das crianças

A grande questão, que está sem solução desde o início da pandemia, e que vai desde os que as consideram supercontagiosas sem evidências até aos que argumentam que mal podem infetar: ​​"Qual é o papel das crianças, especialmente as crianças assintomáticas, na transmissão? As crianças transmitem o vírus em taxas semelhantes às dos adultos?" Consoante as medidas de confinamento foram mitigadas, os cientistas puderam observar situações naturais em que os menores desempenham um papel nos eventos de contágio, mas a sua importância relativa permanece obscura.

O regresso da escola

Com a aproximar de setembro, a pressão para resolver o problema de abertura de escolas é maior. "As escolas, que podem ser consideradas multidões em recinto fechado, distinguem-se pelo seu importante papel na comunidade e pela epidemiologia única das crianças. As decisões sobre como e quando reabrir escolas são complexas e requerem a consideração de muitos fatores e a implementação de medidas de mitigação cuidadosas," reconhecem os autores.

"O que as famílias e as comunidades escolares precisam para facilitar a aprendizagem segura e eficaz, seja pessoalmente ou remotamente, e como podemos garantir que as crianças e famílias vulneráveis ​​sejam apoiadas?" O relatório também se refere ao que fazer para melhorar o ensino à distância, um problema que pode ser um fardo insuperável para famílias sem recursos.

"Quanto mais soubermos sobre esse vírus, mais bem informadas serão as nossas decisões. E podemos ter certeza de que haverá muito mais decisões difíceis, inclusive nas escolas, até que encontremos uma vacina segura e eficaz que seja acessível a todos", alerta a autora Caitlin Rivers. É hora de a ciência continuar o trabalho e dar novas respostas.

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