Viriato Soromenho Marques

Viriato Soromenho Marques

Babuínos como nós

O grande filósofo grego Epitecto, escravizado e agredido pelo seu proprietário romano, secretário de Nero, lembra-nos como na humanidade o desprezo e o domínio dos outros não precisou do racismo para existir. Ao longo da história, diferentes e muitas vezes convergentes são as formas de xenofobia, de opressão e exclusão do Outro. Apenas a superioridade na componente militar de cada cultura é o fator decisivo que separa vencedores e vencidos. No dealbar do século XVI, os astecas tinham água canalizada na sua capital, mas Cortés tinha armas de fogo. A lança mais comprida é também inseparável da moderna hegemonia planetária do Ocidente.

Opinião

O Portugal de Orlando Ribeiro tem gente dentro

Nos escritos e declarações sobre a estratégia de recuperação de Portugal, nota-se uma profunda ausência não só das ciências ambientais modernas como dos contributos fundamentais da geografia clássica, para saber do que se fala quando se escreve o nome de Portugal. A visão mais integradora da geografia portuguesa, entendida na sua multiplicidade de aspetos, do relevo à biogeografia, passando pela caracterização cultural das suas populações, está hoje acessível nas obras de grandes mestres, de entre os quais sobressai Orlando Ribeiro (1911-1997) e a sua obra-prima Portugal. O Mediterrâneo e o Atlântico (1945), sobre o território continental português.

Viriato Soromenho Marques

A pandemia da economia viral

John Bolton não resistiu à oportunidade de fazer um sucesso editorial com um livro contando a sua passagem pela Administração Trump (The Room Where it Happened. A White House Memoir, Simon Schuster, 2020) povoado de pequenas anedotas fastidiosas, em que se destaca, permanentemente, o deslumbramento do autor consigo próprio, contrastando com a tontice e a impreparação do presidente. Em Washington não há períodos de nojo e a noção de reserva ou honra há muito desapareceu de um pessoal político que está no mercado para fazer lucro, ou como dizia o falecido filósofo John Rawls a propósito do Congresso dos EUA, para "vender e comprar leis", como num leilão onde há muito se perdeu o sentido da decência. Num certo sentido, Bolton e todos os outros que não hesitaram em ir comer à mão de Trump são moralmente piores do que ele. Quem come à mesa do monstro, quem aceita os seus convites, as suas nomeações, quem bate palmas às enormidades que o atual inquilino da Casa Branca profere todos os dias, quem se manteve calado perante a corrosão das instituições republicanas do federalismo norte-americano, torna-se cúmplice dos atos presidenciais.

Viriato Soromenho Marques

Nuno Vieira Matias

Quem quiser ter uma visão, onde a brevidade não hostiliza o rigor, sobre a vida e as obras do almirante Nuno Viera Matias (1939-2020), falecido no passado sábado, deverá ler um artigo publicado na Revista Nova Cidadania (n.º 70, março-junho 2020), da autoria de um camarada de armas mais jovem, o almirante Alexandre da Fonseca. Aí se encontra um registo do incansável percurso de serviço público prestado por este militar de carreira. Desde os tempos em que, como jovem comandante de um destacamento de fuzileiros especiais (DFE n.º 13) na Guiné, arriscou a vida em 32 situações de combate (lembro-me como, comovidamente, sabia os nomes dos militares que sob o seu comando tinham caído).

Viriato Soromenho Marques

Hamilton ainda não se avista

A nossa insaciável necessidade de boas notícias, perante o espetáculo de uma União Europeia (UE) que se arrasta à beira de uma crise em aceleração, levou algumas boas almas por essa Europa fora a saudar o projeto de um fundo de recuperação, apresentado em videoconferência pela chanceler Angela Merkel e pelo presidente Emmanuel Macron, a 18 de maio, como sendo um "momento Hamilton" europeu, uma quebra por Merkel do seu tabu contra uma "união de transferência".

Viriato Soromenho Marques

A guerra está longe de ser vencida

O confinamento deixa marcas, nos corpos e nas mentes. Por isso é tão importante manter a cabeça lúcida e a narrativa coerente. Não uma coerência com os preconceitos e os dogmas do umbigo. Precisamos, sim, de uma coerência com o mundo exterior, com os factos e os acontecimentos, que nos permita agir e sobreviver, como indivíduos e sociedade. Quero falar do que correu bem até aqui. E depois do que está a começar a correr mal e deve ser contrariado. O que correu bem está à vista de todos e tem merecido nota positiva também por observadores internacionais. Na altura em que escrevo, usando um indicador amplo (o número de mortos por milhão de habitantes), nos principais países afetados por covid-19, só a Alemanha está ligeiramente melhor do que nós (61 contra 75). A Suécia já vai em 175, Reino Unido (255), Holanda (229), Bélgica (540), França (319), Itália (408), Espanha (464) e EUA (137).

Viriato Soromenho Marques

Voltámos a ser mortais

Nunca é de mais repeti-lo. Sobre o futuro não é sensato dizermos muitas coisas. Nem com todo o poder computacional do mundo estaríamos isentos de erro, pois a realidade é infinitamente mais complexa do que a nossa capacidade de a representar. Mas temos o passado. Como o anjo da história, que Walter Benjamin julgou perceber num quadro de Paul Klee (meu artigo DN, 18-1-2020), somos obrigados à procura de um sentido - a partir da leitura das ruínas, sofrimentos, esquecimentos, ilusões e injustiças do passado - que nos ajude a explicar como chegámos até aqui. Sem sentido ficaremos paralisados. Somos criaturas, como nos ensinou Viktor Frankl (1905-1997), sábio sobrevivente do Holocausto, que precisam da semântica tanto como do pão para a boca. Neste confinamento planetário, seguindo a progressão do covid-19 como quem lê o boletim de baixas de uma guerra, aprendemos que a "normalidade" para onde os mais distraídos querem regressar de armas e bagagens foi uma longa embriaguez.

Viriato Soromenho Marques

A União Europeia nos cuidados intensivos

A OMS anunciou o óbvio. A Europa transformou-se hoje na maior ameaça sanitária mundial. O que nos está a acontecer com a progressão exponencial de covid-19 na Europa, e a partir dela para África, só deve permitir-nos palavras que tenham passado o filtro da meditação e o teste do silêncio. A pandemia desperta reações febris, para além daquelas que são mensuráveis pelo termómetro. Como um buraco negro, ela tudo atrai e tritura na fornalha do seu núcleo de dor e nulificação. A primeira lição que devemos resgatar deste pesadelo é a de que ele tem de ser vivido frontalmente. Não podemos fechar os olhos e acordar no final, como quem desperta de uma anestesia. Comecei a escrever depois da tardia declaração do estado de emergência. Já nada parece poder impedir que no final de março, no nosso país, os infetados sejam dezenas de milhares, enquanto os mortos se contem por muitas centenas.

Viriato Soromenho Marques

Médicos e doentes

Não, este não é um artigo sobre a despenalização da eutanásia, mas pode ajudar no lento processo de reflexão a montante, imprescindível para formar uma opinião madura sobre qualquer assunto. Por convite do médico José Poças e do bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, tive a missão de apresentar em Setúbal um livro coordenado pelo primeiro: A Relação Médico-Doente: Um Contributo da Ordem dos Médicos, Lisboa, By the Book, 2019, 755 pp. Trata-se de uma obra muito extensa, rica na diversidade do seu conteúdo - basta referir que para ele contribuíram 81 autores, alguns deles fora do campo médico - e orientada para um alvo concreto: a OM mobilizou-se para uma tarefa visionária iniciada em Espanha, a saber, apresentar à UNESCO uma candidatura da Relação Médico-Doente como Património Imaterial da Humanidade! Mesmo que este objetivo, requerendo uma grande coligação internacional de associações e personalidades, não venha a ser atingido, este livro é um bem em si próprio pelas muitas janelas que abre para o mundo intenso, doloroso e comovente dos laços que a doença cria entre quem precisa de ser cuidado e quem presta esse socorro.

Viriato Soromenho Marques

Quem salvará Sodoma?

O cinema é a arte filosófica por excelência. Uma espécie de estética total, que permite visualizar e dramatizar conceitos e ideias, fazer a razão e o entendimento ganharem rosto, voz e movimento. Quatro filmes recentes atingem o centro nevrálgico da angústia ética da nossa contemporaneidade: O Caso de Richard Jewell, de Clint Eastwood; Dark Waters, de Todd Haynes; Uma Vida Escondida, de Terrence Malick; J'Accuse, de Roman Polanski. O fio que entrelaça esses filmes, pensados e produzidos quase em simultâneo, é o de todos eles celebrarem exemplos reais de grandeza e coragem moral. O advogado Watson Bryant, erguendo-se em defesa de um pobre segurança que estava a ser imolado pela máquinas policial e mediática como bode expiatório do atentado terrorista nos Jogos Olímpicos de Atlanta (1996). O causídico Robert Bilott, que arrisca tudo para defender as vítimas de um gigantesco crime ambiental, dolosamente cometido e prolongado pela inimputável empresa química DuPont. Franz Jägerstätter, um anónimo camponês austríaco, que se recusa a prestar o juramento de fidelidade a Hitler, pagando com a vida, em 1943, por esse ato que já lhe mereceu a beatificação pela Igreja Católica (2007). O major Marie-Georges Picquart, que ao assumir o comando de um serviço militar de informações se apercebe da conspiração antijudaica no seio das altas patentes militares, no famoso caso Dreyfus (1894-1906). Intimado a calar-se, Picquart, com imensa bravura, tudo faz até conseguir resgatar a vítima inocente da sua agonia perpétua na Guiana Francesa.

Viriato Soromenho Marques

Para onde olha o anjo da história?

Um dos paradoxos do nosso tempo é a contradição entre a acumulação de desafios com impacto global, atual ou futurível, e a ausência ou ingenuidade das meditações acerca do seu diagnóstico e dos meios de os enfrentar. Uma das perdas irreparáveis causadas pelo nazismo foi o desaparecimento da derradeira linhagem de pensadores europeus - grande parte deles judeus completamente integrados na cultura e cidadania germânicas -, que se concentrava na construção de "visões do mundo" (Weltanschauungen), e que quando olhava para o futuro, pensava-o a partir de filosofias integrativas da história. Hoje temos especialistas em desafios titânicos, com risco ontológico planetário, como sejam a aceleração da crise ambiental e climática; a ameaça de grandes catástrofes com raiz nas novas tecnologias, como as nanotecnologias e as biotecnologias; o perigo de nos submetermos à ditadura digital de um sistema unificado de inteligência artificial; ou, ainda, de tropeçarmos no arsenal das armas de destruição maciça, porque elegemos ou consentirmos políticos iliteratos e moralmente grotescos para decidir sobre o seu uso. Mas faltava-nos a capacidade de pensar e dar sentido a tudo isso em conjunto.

Viriato Soromenho Marques

Se até um povo de demónios...

A Cimeira climática de Madrid (COP 25) terminou com dois dias de atraso, e sem resultados. Só em 2020 é que existe a expectativa de uma nova e mais ambiciosa proposta de metas nacionais de mitigação. Por isso, quando mesmo sem grandes expectativas a má vontade é exposta na praça pública, isso mostra que a possibilidade de se obter uma resposta eficaz ao perigo colossal das alterações climáticas, através deste método, deverá ser nula, ou próxima disso.