Viriato Soromenho Marques

Viriato Soromenho Marques

A espada que fere a luz

Os ataques mais corrosivos à credibilidade da ciência não nasceram com a pandemia de covid-19. Há três anos, a federação das academias europeias de ciência, ALLEA, debateu a complexidade do problema, que está longe de ser redutível à dicotomia positivista entre verdade e ignorância. Numa sociedade onde "a mentira organizada" é um ramo de negócio - como escreveu Hannah Arendt em 1967 -, muitas campanhas para descreditar os esforços científicos sérios são efetuadas através de uma malévola manipulação, que, por exemplo, visa desmobilizar a opinião pública e os Parlamentos contra ameaças à saúde pública causadas por atividades industriais.

Viriato Soromenho Marques

Confinamento e normalidade com Pascal

Blaise Pascal (1623-1662) faz parte de uma pequeníssima seleção histórica de génios que parece ter sido dotada de uma fibra superior aos próprios limites da condição humana. Morreu com apenas 39 anos e 2 meses deixando uma obra vastíssima e diversificada em tantos domínios que, apesar de centenas de académicos terem dedicado a sua vida ao estudo da sua obra, não se encontrará um apenas que consiga tratar com igual profundidade os resultados da sua prodigiosa inteligência, seja na física (teoria do vácuo e dinâmica de fluidos), na geometria, na matemática (máquina de calcular, cálculo das probabilidades), como também na teologia (foi um jansenista fervoroso), na filosofia, na teoria moral.

Viriato Soromenho Marques

Na vertigem da desrazão

Escrevo na pior fase, até agora, da crise pandémica mundial. Portugal é agora um trágico campeão. A contar, não a partir de cima, do sítio onde se vislumbra o céu, mas a partir do fundo, do temível lugar de baixo onde todas as culturas milenares situam o inferno. Nos próximos 40 dias poderemos perder tanta gente para a covid-19 como o número de soldados que morreram em 13 anos de guerras ultramarinas. Afinal, este "vírus bonzinho" continua a semear morte e miséria e a deixar muitos líderes políticos, que julgavam ter o assunto resolvido com as vacinas e a propaganda, a fazer pagar aos seus povos o preço da tóxica combinação de ignorância com arrogância.

Viriato Soromenho Marques

Duas tragédias da informação

No dia 8 de janeiro de 1815, as tropas britânicas que investiam contra Nova Orleães sofreram a sua mais pesada derrota nessa segunda guerra entre os EUA e a sua antiga potência imperial. Um conflito que os historiadores norte-americanos designam como a "Guerra de 1812". Embora seja sempre discutível, filosoficamente, falar na utilidade das guerras, a verdade é que nessa batalha os milhares de vidas perdidas ou mutiladas foram-no em vão. No dia 24 de dezembro de 1814, na cidade de Gante, a delegação de diplomatas enviada por Washington à Europa, em que pontificava o futuro presidente John Quincy Adams (1767-1848), conseguira chegar a um tratado de paz com os seus homólogos britânicos. Na altura, a informação viajava à velocidade do cavalo e do veleiro. A notícia de que a guerra havia terminado só chegou depois do fútil sacrifício no Louisiana.

Viriato Soromenho Marques

A bondade no mundo

No início deste século, o pensador canadiano Thomas Homer-Dixon (1956) cunhou uma expressão que me parece captar com subtileza os males fundamentais da nossa época, a todos os níveis e escalas: a "lacuna de criatividade" (ingenuity gap). Por outras palavras, se colocássemos numa pista de atletismo, como se fossem dois corredores, os problemas que se colocam à humanidade, competindo contra as soluções disponíveis, só os distraídos ou os vendedores de ilusões seriam capazes de negar que cada vez mais os problemas parecem tomar a dianteira sobre as soluções no caminho para uma inquietante meta. As "soluções" não só surgem, invariavelmente, depois dos prejuízos, como tendem, pelo seu desajustamento, a tornar tudo ainda mais complicado e retorcido.

Viriato Soromenho Marques

A grandeza perdida dos EUA

Mesmo que a hipótese catastrófica de reeleição de Trump não aconteça, tanto o futuro democrático e federal dos EUA, como o seu lugar no sistema internacional continuam sob forte ameaça. Washington continua a ser a maior potência militar do planeta, mas está longe, quer de recuperar das feridas do clima de pré-guerra civil incentivado pela tóxica presidência-Trump, quer de retomar uma posição na cena global à altura do seu passado e das suas responsabilidades no futuro mundial. Os EUA perderam, manifestamente, a chave da grandeza política: os países só são grandes quando conseguem aliar o mais elevado grau de conhecimento objectivo da realidade à eficiência imparcial das instituições, articuladas pela decência moral dos actores políticos. Só essa trilogia, permite antecipar os desafios do futuro e as respectivas respostas, condição essencial para a liderança da comunidade internacional.

Viriato Soromenho Marques

Mereceremos Samuel Paty?

"Um país incapaz de transcender o seu passado, deprime". Esta sentença, aplicada à França, foi escrita por Régis Debray numa altura em que estava em causa o uso do véu islâmico por estudantes em estabelecimentos de ensino público (Ce que nous voile le voile, Gallimard, 2004). Nos últimos 15 anos tudo piorou exponencialmente. Se somarmos todos os atentados terroristas de fundamentalistas sunitas, a França apresenta já uma lista de centenas de mortos, ou milhares de vítimas, se incluirmos os feridos no corpo e no espírito. Contudo, o assassínio no passado dia 16 de Samuel Paty, um professor do ensino secundário, de 47 anos, decapitado por um refugiado checheno de 18 anos, constitui um salto qualitativo que não pode ser subestimado.

Viriato Soromenho Marques

Bater no fundo

Faltou a bola vermelha no canto superior direito na transmissão do debate presidencial entre Trump e Biden. Aquele deplorável choque de anciãos, marcando pontos num pugilato verbal de mentira, ignorância e desprezo por quem se deu ao trabalho de os ver e escutar, merecia ter um aviso desaconselhando os jovens e as almas mais frágeis. Quase duas horas a escutar aqueles improváveis campeões da política de Washington podem levar muitos a perder o pouco de confiança que ainda possa restar na humanidade. Trump foi igual a si próprio, um vulcão de descabelado narcisismo, ancorado numa autoconfiança postiça, que indicia uma tortuosa história clínica para biógrafos e outros curiosos. Biden fez a prova de vida que muitos duvidavam ser possível.

Viriato Soromenho Marques

Uma lição de 1892 para a segunda vaga

Quando a pandemia de codiv-19 começou a percorrer o planeta, a The New York Review of Books (NYRB) republicou uma série de textos de edições anteriores sobre diferentes respostas a surtos epidémicos em diferentes períodos da história. É uma leitura reveladora de como, sem o cultivar disciplinado da memória crítica, as gerações correm o risco de repetir os erros do passado, causando, com isso, muito sofrimento inútil. No sábado passado, uma bizarra multidão percorreu Berlim em protesto contra as medidas sanitárias que o governo Merkel levou a cabo para proteger a população. Tratou-se de uma espécie de Torre de Babel em movimento, incluindo seitas religiosas, inimigos das vacinas, anarquistas que protestam contra o uso de máscaras de proteção. Mas, no meio dessa gente à deriva, lá estavam os amigos de Adolf Hitler, que sabem muito bem para onde querem ir. Os jornais alemães relatam que foram apenas três os bravos polícias que impediram os nazis de pilharem o Bundestag.

Viriato Soromenho Marques

América desencantada

As próximas eleições dos EUA não mobilizam nenhuma paixão positiva fora dos EUA, e os ânimos que despertam entre os eleitores do país são ardentemente sombrios. Até os mais distraídos já perceberam que Trump - o mais perigoso presidente a sentar-se na Sala Oval e uma criatura paupérrima em decência humana - é uma consequência e não a causa da profundíssima degradação da sociedade e do sistema democrático-federal norte-americano. Uma corrosão que não só ecoa, mas sobretudo antecipa o que está a ocorrer e a expandir-se em muitas democracias pelo mundo fora, sem excluir alguns dos Estados membros da União Europeia. Por seu turno, Joe Biden é o candidato do resto do mundo, mesmo sem suscitar esperança ou entusiasmo. Desejamos que vença Biden, do mesmo modo como quereríamos ter um saco de areia por perto, em caso de bombardeamento, para nos protegermos dos estilhaços. Biden não irá, certamente, resolver nada, mas, pelo menos, promete uma pausa no ativismo maligno que tem transformado a presidência dos EUA numa ameaça para a própria integridade nacional, assim como num contumaz obstáculo a todas as iniciativas que ajudariam a sobreviver aos numerosos e complicadíssimos desafios existenciais da humanidade.