Viriato Soromenho Marques

Viriato Soromenho Marques

Para onde olha o anjo da história?

Um dos paradoxos do nosso tempo é a contradição entre a acumulação de desafios com impacto global, atual ou futurível, e a ausência ou ingenuidade das meditações acerca do seu diagnóstico e dos meios de os enfrentar. Uma das perdas irreparáveis causadas pelo nazismo foi o desaparecimento da derradeira linhagem de pensadores europeus - grande parte deles judeus completamente integrados na cultura e cidadania germânicas -, que se concentrava na construção de "visões do mundo" (Weltanschauungen), e que quando olhava para o futuro, pensava-o a partir de filosofias integrativas da história. Hoje temos especialistas em desafios titânicos, com risco ontológico planetário, como sejam a aceleração da crise ambiental e climática; a ameaça de grandes catástrofes com raiz nas novas tecnologias, como as nanotecnologias e as biotecnologias; o perigo de nos submetermos à ditadura digital de um sistema unificado de inteligência artificial; ou, ainda, de tropeçarmos no arsenal das armas de destruição maciça, porque elegemos ou consentirmos políticos iliteratos e moralmente grotescos para decidir sobre o seu uso. Mas faltava-nos a capacidade de pensar e dar sentido a tudo isso em conjunto.

Viriato Soromenho Marques

Os disfarces das pulsões de morte

O que me parece mais admirável em Sigmund Freud (1856-1939) é a sua transgressão da regra entrópica do envelhecimento intelectual. Em Freud, ao contrário da maioria dos grandes autores, os escritos da fase final da vida são mais profundos, mais imaginativos, com uma ourivesaria literária mais apurada, e - suprema das vantagens - mais incapazes de serem aprisionados dentro de um sistema fechado. O que é um pesadelo para a maioria dos psicanalistas profissionais é uma alegria para os leitores independentes desse genial hebreu de Viena! Em 1920, no surpreendente ensaio Para além do Princípio do Prazer, Freud desarrumou décadas de trabalho anterior para propor uma nova teoria das pulsões, fundada no par antitético: "pulsões de morte" (Todestriebe) versus "pulsões de vida" (Lebenstriebe). Enquanto as pulsões vitais, também designadas como Eros, buscam manter, alargar, complexificar a existência, muito para além da vulgata sexual, as pulsões de morte são destrutivas, dotadas de inumeráveis mecanismos de disfarce e mimetismo. O que elas visam - tanto dentro dos indivíduos como fora deles - é a redução da complexidade, a substituição da diversidade pela mesmidade, e no limite, fazer com que o orgânico regresse ao seu mortal ponto de partida: a natureza inorgânica.

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Viriato Soromenho Marques

Desvendar o paradoxo de Fermi

Que relação pode existir entre Donald Trump e Enrico Fermi (1901-1954) prémio Nobel da Física de 1938, e um dos maiores génios de sempre? Talvez Trump nos ajude a desvendar uma pergunta formulada por Fermi, que passou a ser designada entre os físicos como o "paradoxo de Fermi". De acordo com os relatos, em 1950, Enrico Fermi estaria num restaurante do Laboratório de Los Alamos, na fila para o almoço, numa conversa descontraída com outros cientistas célebres, entre os quais Edward Teller, tendo colocado, de modo interrogativo ("Afinal onde estão eles?"), a hipótese de não existência de vida extraterrestre suficientemente inteligente para produzir uma tecnologia capaz de conduzir à exploração do espaço exterior. Em 1950, a imprensa pululava com relatos fantasiosos de avistamentos de OVNI. Para Fermi, o paradoxo residiria no contraste entre a quase infinita probabilidade dessa existência de vida tecnologicamente exuberante, dada a imensa escala do universo, e a nulidade de provas empíricas da sua realidade. Fermi não deu grande importância a esta conversa, mas o seu impacto foi imenso. Carl Sagan e outros físicos defendiam a tese de que seria preciso refinar a procura por sinais de vida inteligente. Nesse sentido, a NASA criou o programa de pesquisa SETI, descontinuado em 1993, mas que ainda sobrevive de modo algo fragmentar e com financiamento de mecenato.

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Viriato Soromenho Marques

O mal moral em horário nobre

Uma das coisas mais perturbantes e universais na preparação militar em tempo de guerra é a "lavagem ao cérebro" que permite transformar civis, educados para comportamentos pacíficos e respeitadores da lei e da ordem, em guerreiros prontos a matar. Todas as guerras, justas e injustas, defensivas ou ofensivas, não dispensam a construção da imagem do "inimigo", para educar a agressividade que reside bem no miolo mais primitivo do repertório genético da nossa espécie.

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Diplomacia de terra queimada

A vertigem de declarações políticas insensatas em torno da Amazónia revela a fragilidade do sistema internacional. Sobre a conduta errática e irracional de Bolsonaro e dos seus adjuntos em Brasília já tudo foi dito. Contudo, o G7, dominado pelo habitual e nem sempre esclarecido ativismo de Macron, também deixou muito a desejar. Não só pelo que foi dito, mas pelo que foi sugerido. O mundo está demasiado perigoso para nos darmos ao luxo da falta de rigor diplomático. A questão principal parece-me ser esta: dado o interesse extraordinário da Amazónia para o equilíbrio do ambiente e do clima planetários, faria algum sentido criar um estatuto especial de tutela internacional sobre a Amazónia? A resposta parece-me ser totalmente negativa. A ideia de territórios que são "património comum da humanidade" encontra-se sugerida no Tratado da Antártida (1959), que até 2041 permite aos países signatários a presença pacífica, sobretudo para fins científicos, nesse território ainda sem soberanias nacionais. Já a categoria de "fundos marinhos", da Convenção das Nações Unidas para o Direito do Mar (1982) é identificada ostensivamente como "património comum da humanidade".

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Quanta vida poderemos esperar?

Nunca tivemos tanto dados, mas escasseia a capacidade de os pensar articulada e sistemicamente, produzindo conhecimento relevante. Um bom exemplo disso confirma-se no confronto entre duas séries temporais, distintas mas associadas, que se prendem, respetivamente, com a cronologia da Terra e a longevidade humana. A Terra foi até ao século XVIII, dominantemente, considerada como um planeta jovem. O diretor da classe de Matemáticas da Academia de Ciências de Berlim, o francês Alphonse de Vignolles (1649-1744), depois de uma vida de pesquisa matemática em torno dos livros do Antigo Testamento, calculava que, no máximo, desde o momento do Genesis (que formara a Terra e o resto o universo) não teriam decorrido mais de 6984 anos (a sua obra Cronologia da História Santa foi publicada em 1738). Contudo, seja com o conde de Buffon (1707-1788), seja com Kant (1724-1804), a Terra rapidamente ganhou um imenso passado. Buffon, modestamente, não arriscou, por escrito, mais de 74 000 anos. Kant, na sua obra Teoria do Céu (1755), na altura pouco influente, rompe com a clausura bíblica falando de uma Terra como parte de um cosmos potencialmente infinito no espaço e no tempo.

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Viriato Soromenho Marques

Rumo a Vénus

Na altura em que escrevo, a Europa já foi atingida desde final de junho por duas ondas de calor, que quebraram recordes de registos meteorológicos da França à Noruega. Depois de décadas de negação ou mera preocupação retórica, pelo menos na Europa ninguém se atreve a negar a óbvia realidade do aquecimento global. Contudo, seria preciso ser muito ingénuo para acreditar que os mesmos atores políticos que continuam a dar generosos subsídios públicos ao uso de carvão, petróleo e gás natural, e que negociaram moratórias - atrasando a transição energética para fontes renováveis - com as grandes empresas emissoras de gases de efeito estufa, das petrolíferas ao setor automóvel, passando pelas cimenteiras e pela aviação, se tornem agora os paladinos de uma efetiva mudança.

Viriato Soromenho Marques

Esta geringonça enrolada no futuro

O que pensariam Locke ou Montesquieu do "sistema de eleição" dos "lugares de topo" da União Europeia, se tivessem tido oportunidade de vislumbrar a sua crueza rudimentar, que ficou à vista num Conselho Europeu (doravante, Conselho) pleno de insónias e malabarismos? Um dos ativos que o constitucionalismo moderno nos trouxe foi a restauração das noções de ordem e regularidade de procedimentos - como condição da sua legitimidade - que as democracias gregas e a república romana foram pioneiras a instaurar, apesar de todas as suas imperfeições. Para aqueles que tinham a ilusão de que a UE estaria a caminho duma transformação mais democrática, a vaporização dos candidatos propostas pelo Parlamento Europeu antes das eleições de maio, revela como o Conselho continua a mandar na UE. A teoria da separação de poderes é demasiado sofisticada para espelhar a fusão de poderes elásticos que se concentra no Conselho. Como uma espécie de "motor imóvel" é neste órgão intergovernamental - uma nova "balança da Europa" onde a contagem do PIB substituiu a das espingardas - que os chefes de Estado ou de governo decidem o rumo político a seguir. Dizer que a Comissão Europeia é um órgão quase executivo, ou que o Parlamento Europeu e o Conselho da União Europeia (o ex-Conselho de Ministros) partilham o poder legislativo, só pode ser afirmado, sem descaramento, por quem tenha esquecido que a crise europeia desde 2008 é marcada pela sucessão de dramáticas cimeiras do Conselho, que silenciaram o Parlamento e acorrentaram a Comissão aos seus imperativos.

Viriato Soromenho Marques

Uma perigosa dança de cadeiras

No rescaldo destas eleições europeias é impossível não detetar um sinal de alívio. As constelações partidárias do "centrão" europeu, assustado e imobilista, foram justamente punidas, deixando de valer mais de metade dos deputados no Parlamento Europeu (PE). Na altura em que escrevo, o Partido Popular Europeu perdeu, em reação a 2014, 38 deputados. Os Socialistas & Democratas caíram 35 deputados. Contudo, o corretivo, ao contrário do que muitos temiam, não se traduziu numa transferência de lugares para os nacionalistas-populistas. Estes tiveram vitórias esperadas na Itália (a maior), em França (a mais minguada) e no Reino Unido (que parece agora mais próximo de encontrar legitimidade para um segundo referendo do que antes). A subida dos Verdes (17) e dos Liberais (37) obriga a alterar as grelhas de leitura. A subida do número de eleitores (8% em relação a 2014), a primeira em 20 anos, também tem nota positiva. O descontentamento dos europeus deixou de estar monopolizado pelo ressentimento daqueles que buscam em passados imaginários e na recusa do pluralismo e do respeito pelas diferenças, uma alternativa ao impasse europeu. A maioria dos europeus contam com a escala de uma União Europeia reformada para combater as grandes ameaças existenciais para o nosso futuro comum, de onde sobressai a crise ontológica das alterações climáticas.