Sebastião Bugalho

Sebastião Bugalho

Peras, pranchas e petições

No Confissões de Agostinho de Hipona, livro menos conhecido mas não menos belo do que a sua Cidade de Deus, o santo narra a fábula de um furto de peras para descrever o modo como foi, na sua juventude, atraído pelo pecado. Era o roubo do fruto, e não o consumo do mesmo, que motivava e atraía o jovem Agostinho, antes de ser cristão, bispo e mais tarde santo. No livro, cuja definição de maldade fica assim resumida, também o amor (ou a consumação do desejo) merece a literatura deste ocidental, comparando o sentimento da paixão a "morrer sem perder a vida" e "enlouquecer sem perder o juízo". Ora, entre as peras, as paixões e a humanidade de Santo Agostinho, foi nas suas Confissões que achei gancho para olhar esta semana, de evidente protagonista e desconhecido desfecho.

Pedro Soares Martinez (1925-2021)

O antimoderno

Na Rua de São Bento, dava-se um almoço anual. Numa morada apalaçada, adquirida decadente mas feita bonita pelo anfitrião, reuniam-se o professor e respetivos assistentes. No repasto, de data certa no dia do santo que partilhava o nome com o decano, Pedro Soares Martinez cultivava a relação com os seus discípulos do Direito. Deles, há três impressões que prevalecem após o seu desaparecimento, aos 95 anos, há escassos dias. A primeira, a perseverança das suas convicções, mesmo que ultrapassadas pelo tempo e pelo regime em vigor. A segunda, o seu sentido de humor, provocador e, por vezes, até autodepreciativo. A terceira, uma tentação algo cruel no que a avaliações diz respeito. "Deu-me cabo da média" é, eventualmente, o comentário mais repetido; a maioria, com um sorriso amargo, mas órfão de rancor.

Sebastião Bugalho

Costa vs. Costa

O rei fez xeque ao príncipe, mas não houve vencedores ou vencidos na partida desta semana. O tabuleiro girou e a disposição das peças evidenciou-se, mas quem presume um confronto aberto entre Presidente e primeiro-ministro desconhece a natureza de ambos. Este é um jogo sem cronómetro num xadrez em que, invariavelmente, a cor das figuras se confunde. A adivinha do movimento adversário é um atributo dos dois protagonistas, ainda que nenhum seja imune à incerteza da pandemia ou à imprevisibilidade da política. Costa e Marcelo, Marcelo e Costa, nós e eles, eles e nós. Será uma década disto e é além dos seus idos que vamos.

Sebastião Bugalho

Xexão (1937-2021)

A noite ainda não denunciava a chegada de primavera quando, entre o mato junto a Caxias, um punhado de próximos e amigos procurava distingui-la entre as grades do cárcere. Em 1974, a três semanas do 25 de Abril, Maria da Conceição Moita, presa política, celebrou o seu aniversário à distância e através de um sinal. De acordo com o que já se pode chamar lenda, empunhou um roupão vermelho (uns dizem cachecol, outros uma manta, todos recordam a cor), como que saudando aqueles que, lá ao fundo, escondidos nas árvores, a esperavam a ela e à liberdade.

Sebastião Bugalho

Os idos de Levine (1943-2021)

No elogio fúnebre de Júlio César, quarenta e quatro anos antes de Cristo, Marco António, seu amigo, proclama na peça que o eternizou: "O mal que os homens fazem vive depois deles. O bom é quase sempre enterrado com os seus ossos. Assim seja com César." Nestes idos de março, os olhos da história voltaram a lembrar o assassinato do ditador romano e, ao mesmo tempo, a perda de um vulto mais contemporâneo, igualmente trágico e eventualmente imortal.

Sebastião Bugalho

A vacina portuguesa contra a covid-19

Talvez nenhum episódio tenha antecipado o momento nacional que vivemos como o da greve dos motoristas das matérias perigosas, no final do verão de 2019. Se recuarmos e lhe oferecermos a devida atenção, facilmente o reconhecemos. Ver o governo do Partido Socialista, sustentado ainda em toda a esquerda, vergar um sindicato com a ajuda das Forças Armadas foi uma irónica vénia de António Costa a um certo ator de Hollywood, cuja carreira terminou na Casa Branca. Igualmente cómico é recordar o desnorte do governo, perante um país em risco de ficar sem combustível nas gasolineiras, admitindo não ter dado pelo e-mail onde constava o aviso de greve na mesma semana em que inaugurava a Agência Portuguesa do Espaço, o que terá tornado Portugal a primeira potência espacial no planeta com problemas em abrir o correio eletrónico.

Sebastião Bugalho

O teste de paternidade

A vida da esquerda portuguesa parece, por vezes, começar e acabar na direita portuguesa. O modo como olha para as origens e efeitos do Chega é a prova mais recente disso. Primeiro, o surgimento do partido de André Ventura foi culpa de Pedro Passos Coelho, por não lhe retirar apoio nas autárquicas de 2017, supostamente legitimando assim uma candidatura populista com o selo do seu partido. Lembro-me bem de ouvir Ana Catarina Mendes fazer um esforço enorme por colar Passos, logo ele, a acusações de racismo e tudo mais. A tese era tonta, mas o facto é que correu, e houve muita gente a analisar o fenómeno sem se rir, clamando que um movimento populista que vale hoje meio milhão de votos se deve ao apoio ou não apoio do PSD a uma candidatura a Loures que ficou, na altura, em terceiro lugar. Volvidos quatro anos, o terceiro lugar mantém-se, a reação do PS também, mas a dimensão de Ventura é outra. Nacionalizou-se.

Sebastião Bugalho

É hora de ir embora, amigo

No dia 23 de agosto de 2016, o Francisco Rodrigues dos Santos deu a sua primeira entrevista. Por coincidência, foi também a primeira vez que entrevistei um político. Simpatizámos. Como qualquer pessoa que o conheça sabe, é um indivíduo socialmente encantador. No dia 23 de janeiro de 2019, três anos mais tarde, a Assunção Cristas convidou-me para beber café. Direta ao assunto, sentou-se e disse-me que queria que fosse deputado do CDS. Com a jovialidade de um miúdo de 23 anos, respondi-lhe: "Tava a ver que não convidava." Ela riu-se e passámos a tratarmo-nos por tu. No dia 22 de maio, no último comício das eleições europeias, fora já anunciado como candidato independente e a Juventude Popular, presidida por Rodrigues dos Santos, viera já manifestar-se contra o meu nome. À saída do evento, Paulo Portas viu-nos e brincou: "Vá, vão lá fazer as pazes."