Ruy Castro

Ruy Castro

Ficção sobre cascas de banana

O novo romance de Mario Vargas Llosa, Tempos Duros, traz mais uma contribuição à coleção de disparates em torno de Carmen Miranda. A querida Carmen, brasileira de Várzea de Ovelha, freguesia de São Martinho da Aliviada, concelho de Marco de Canaveses, distrito do Porto e palcos do Rio de Janeiro, continua sujeita a delírios biográficos. É como se a sua exuberância como artista e como pessoa autorizasse os escritores a criar fantasias à sua volta, sem nenhuma comprovação factual. Sei disso porque, nos cinco anos que lhe dediquei para escrever meu livro Carmen - Uma Biografia, publicado em 2005, o maior trabalho foi para desbastar as invencionices e lendas que investigadores imaginativos teceram sobre ela. A de Vargas Llosa é apenas a mais recente, e não das mais brilhantes.

Ruy Castro

Um maravilhoso português do Brasil

Era como se, nas mãos deles, a música sempre voltasse ao primeiro dia da Criação. Uma das coisas que o Brasil legou de melhor ao século XX foi a sua escola de violonistas modernos - homens não apenas capazes de dar uma roupagem nova ao repertório clássico do samba e do choro, mas que se especializaram, desde 1940, em propor ousadas novidades técnicas, harmónicas e rítmicas. E que, para surpresa geral, não só conheceram o sucesso comercial como tiveram até presença internacional.

Ruy Castro

Alcoolismo na pandemia

Amigos me ligam para dizer que, trancados em casa por causa da pandemia, temem estar bebendo além da conta. Tenho certa experiência no assunto e sei que nenhum bebedor, seja ele problemático ou recreativo, fala a verdade a respeito de quanto bebe. Alguns, para se gabar, gostam de exagerar o consumo da noite anterior. Outros, ao se sentirem cobrados pelo que beberam nessa mesma noite, tendem a diminuir o número de doses que mandaram para dentro. Mas, quando alguém admite que teme estar bebendo além da conta, não há mais nada a temer - ele já está bebendo além da conta.

Opinião

Perfeitos (ou não) para o papel

Há dias morreu no Brasil, aos 96 anos, um grande ator: Leonardo Vilar. Os portugueses não o conheceram, exceto os que, um dia, assistiram a O Pagador de Promessas, de 1962, que levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes naquele ano. O filme se baseava numa peça de Dias Gomes, mais famoso no futuro como o principal autor de novelas da Globo, entre as quais Roque Santeiro. Era dirigido por Anselmo Duarte, que não fazia parte da turma de jovens cineastas comandados por Glauber Rocha e, por isso, eles o consideravam antiquado e desprezível. Pois imagine a surpresa que tiveram ao saber que O Pagador de Promessas acabara de ganhar o grande prémio em Cannes - e num ano em que concorriam O Eclipse, de Antonioni, O Anjo Exterminador, de Buñuel, Duas Horas na Vida de Uma Mulher, de Agnès Varda, Os Inocentes, de Jack Clayton, Divórcio à Italiana, de Pietro Germi, Tempestade sobre Washington, de Otto Preminger, e O Processo de Joana d'Arc, de Robert Bresson! Era como se uma modesta equipa brasileira de futebol de praia, o Lá Vai Bola, concorresse e vencesse a Champions League!

Ruy Castro

Filmes a levar na mala

Se alguém perguntasse ao pesquisador brasileiro Saulo Pereira de Mello que filmes ele levaria para uma ilha deserta, a resposta seria: "Só um. Limite." E mostraria sob sua cama as doze latas da única cópia do filme, que guardava com sua própria vida - se o nitrato pegasse fogo, Saulo e o filme iriam embora em chamas. Limite é um filme de 1931, por um ardente cineasta amador chamado Mario Peixoto, de 21 anos. Nunca foi exibido comercialmente. Na verdade, só se sabe de uma única projeção, às dez horas de uma manhã de domingo, num cinema do Rio que seu diretor conseguiu alugar e só para convidados. E, mesmo assim, o dono do cinema o fez assinar um termo de responsabilidade no caso de a plateia quebrar as cadeiras ou atirar objetos à tela. E porquê essa possibilidade de fúria? Porque Limite não contava uma história.