Ruy Castro

Ruy Castro

Ficção sobre cascas de banana

O novo romance de Mario Vargas Llosa, Tempos Duros, traz mais uma contribuição à coleção de disparates em torno de Carmen Miranda. A querida Carmen, brasileira de Várzea de Ovelha, freguesia de São Martinho da Aliviada, concelho de Marco de Canaveses, distrito do Porto e palcos do Rio de Janeiro, continua sujeita a delírios biográficos. É como se a sua exuberância como artista e como pessoa autorizasse os escritores a criar fantasias à sua volta, sem nenhuma comprovação factual. Sei disso porque, nos cinco anos que lhe dediquei para escrever meu livro Carmen - Uma Biografia, publicado em 2005, o maior trabalho foi para desbastar as invencionices e lendas que investigadores imaginativos teceram sobre ela. A de Vargas Llosa é apenas a mais recente, e não das mais brilhantes.

Ruy Castro

O Brasil de Cafuringa, Fumanchu e Odvan

Um jovem guarda-redes revelado pelo Flamengo, Hugo, está dividindo a crónica desportiva do Brasil. Alguns jornalistas referem-se a ele como Hugo Souza, seu nome de registo. Outros preferem chamá-lo de Neneca, uma alcunha de infância. E uma terceira fação, na qual me incluo, prefere que ele atenda apenas por Hugo, simplesmente Hugo, já que não há outros Hugos importantes no atual futebol brasileiro e, se houver, nenhum deles é guarda-redes. Seria uma maneira de evitar essa mania pedante, atualmente em voga no Brasil, de chamar os jogadores pelo nome completo, como num cartão-de -visita, e ao mesmo tempo impedir que um grande jogador em potencial, de 21 anos, seja reduzido a um tratamento bobo, quase infantil, como Neneca - corruptela carinhosa de neném, o equivalente brasileiro de bebé.

Ruy Castro

Elza indestrutível

Elza Soares, a cantora brasileira, fez 90 anos no dia 23 de junho. Em celebração da data, os jornais a entrevistaram, enfatizaram sua condição de heroína negra do Brasil e falaram de suas últimas gravações - sim, ela continua no ativa e, até pouco antes da pandemia, ainda se apresentava regularmente. Uma cirurgia na coluna em 2014 limitou seus movimentos e obrigou-a a, desde então, cantar sentada. Ela não se altera: "Canto sentada, mas meto bronca do mesmo jeito" - ou seja, joga-se à música como se fosse a Elza que, em 1999, foi eleita pela BBC de Londres a "cantora do milénio", cantou o hino nacional brasileiro a capella na abertura dos Jogos Pan-Americanos do Rio, no Maracanã, em 2007, e se apresentou no Central Park, em Nova Iorque, em 2017. Sentada ou em pé, Elza fez, nos últimos anos, dezenas de shows longe de Copacabana, onde mora, sujeitando-se à maratona de aeroportos, aviões e hotéis. Encontrei-a várias vezes nesses aeroportos e sempre me espantei com sua disposição para viajar.

Ruy Castro

Uma tragicomédia de hora em hora

O leitor português já se cansou de ouvir falar das grosserias do presidente brasileiro Jair Bolsonaro e de como, num dia normal de 24 horas, ele viola duas ou três vezes a Constituição, estupra as instituições, acusa inimigos sem provas, joga o povo contra o Congresso, apoia fechar o Supremo Tribunal Federal, compromete as Forças Armadas, bota os órgãos do Estado ao serviço de seus interesses, encobre as sujeiras dos filhos, mente compulsivamente e, como se não houvesse uma pandemia, circula pelo país sem máscara, cavoucando o nariz e trocando perdigotos com as pessoas que abraça.