Rute Agulhas

Rute Agulhas

Pedir ajuda psicológica não é sinal de fraqueza

Iniciamos esta sexta-feira um novo período de confinamento, no contexto de um claro agravamento da situação pandémica no nosso país. Poderá durar até quatro semanas... quem sabe ao certo? Deparamo-nos, mais uma vez, com a incerteza e a imprevisibilidade, o isolamento, o medo de contágio, a ansiedade associada à possível perda de emprego e de rendimentos, a morte. Falamos de perdas. Perdas diversas, sucessivas e que, naturalmente, têm um impacto negativo na nossa saúde. E quando falamos de saúde, falamos de saúde física e psicológica, indissociáveis para uma sensação plena de bem-estar.

Opinião

Os funcionários que contactam com crianças também precisam de formação

No contexto de uma justiça amiga das crianças, é imprescindível investir em formação especializada junto de todos os intervenientes nos processos judiciais. Falamos, habitualmente, dos magistrados judiciais, advogados, psicólogos, dos assistentes sociais, dos médicos e demais técnicos que interagem, de alguma forma, com as crianças e adolescentes. Seja no âmbito de processos crime, processos de promoção e proteção, processos tutelares educativos, processos de adoção ou processos de regulação do exercício das responsabilidades parentais.

Opinião

Quem disse que os adolescentes andam a dormir?

Pensamos muitas vezes no adolescentes de hoje como sendo desinteressados, pouco autónomos e alheados daquilo que se passa à sua volta. Como se fossem um pouco zombies, de cara enfiada nos telemóveis e nas redes sociais, a contarem os likes e os seguidores, totalmente imersos nesse mundo virtual. Gostamos também de os comparar com os adolescentes de antigamente, aqueles do nosso tempo. Melhor dizendo, connosco próprios, há algumas décadas atrás. Mas será que assim é? Os adolescentes podem parecer estar desinteressados de algumas coisas, mas na realidade não estão. Vejamos, por exemplo, as recentes eleições norte americanas. Muitos adolescentes portugueses acompanharam de perto esse processo que, como sabemos, durou dias a fio, ansiosos e expectantes pelo resultado final. E essa expectativa relaciona-se com o facto de compreenderem o impacto gigante destas eleições na política americana e mundial. No final de contas, o impacto destes resultados na sua vida quotidiana e na vida de milhões de pessoas. Pensemos agora no ambiente. Quem, mais ainda do que muitos de nós, se tem mobilizado de forma activa na defesa do planeta? Quem obriga os pais a reciclar e critica alguns hábitos menos saudáveis? Os adolescentes, pois claro. Na escola, e apesar do contexto adverso e totalmente imprevisível em que temos vivido, tentam encontrar ferramentas para melhor lidar com tantos desafios. Usam a máscara e adoptam medidas de segurança de forma muito mais correcta e continuada do que muitos adultos. Mestres no domínio das diversas tecnologias, têm sabido gerir a distância física mantendo, ainda assim, a proximidade social e afectiva. E o que dizer das dinâmicas familiares? Os adolescentes parecem muitas vezes distantes, passando grande parte do tempo a ver séries de phones enfiados nos ouvidos... mas a verdade é que estão muito atentos. Relatam-nos de forma detalhada as conversas que ouvem, as discussões que testemunham (sim, aquelas que os pais juram a pés juntos que ocorreram à porta fechada e em voz baixa), aquilo que observam e as conclusões que daí retiram. Contrariamente à ideia de que os nossos adolescentes são imaturos, irresponsáveis e supérfluos, estes dão provas diárias exactamente do contrário. Tantas e tantas vezes, apresentam mesmo maior maturidade e discernimento do que os adultos. Possamos nós aprender alguma coisa com eles...

Opinião

A que sabe a lua?

Vivemos formatados por uma forma de pensar racional e convencional e acabamos, sem nos dar conta, por perder a capacidade fantástica que só as crianças têm de pensar "fora da caixa". Ao crescer, deixamos de fazer perguntas estapafúrdias, de questionar aquilo que parece inquestionável, de rir só porque sim e de fazer o pino para tentar olhar as situações de um outro prisma. Temos de admitir. Quem de nós pensou ultimamente sobre qual seria o sabor da lua? Ou o som do chocolate? E a que cheira a luz? O que sente uma flor? Perguntas sem nexo... ou talvez não. Para as crianças, a realidade é vista de uma outra forma. Por um lado temos as crianças mais pequenas que, com o seu pensamento concreto, questionam aquilo que para os adultos parece tão óbvio. Uma criança a quem os pais separados diziam que existia a «roupa da casa da mãe» e a «roupa da casa do pai» perguntou: "mas os móveis vestem a minha roupa? Nunca vi as cadeiras com as minhas calças...". As crianças mais velhas, por seu turno, imbuídas já de um pensamento mais abstracto, enfrentam a realidade de uma forma que nos desarma. Uma criança vítima de maus tratos emocionais dizia, "já que os meus pais não conseguem ser adultos, tenho de ser eu a encontrar formas de resolver isto... aprendi a ignorar o que me dizem, a fazer-de-conta que me dizem coisas diferentes, imagino outras conversas, diferentes daquelas que existem".