Rute Agulhas

Opinião

Pais que receiam ser acusados de abuso sexual

Em contexto de conflito parental, muitos pais antecipam uma possível acusação de abuso sexual em relação aos filhos e, por isso mesmo, evitam manter determinados comportamentos. Recusam-se a brincar "às cócegas", ajudar as crianças mais novas a limpar-se depois de irem à casa de banho ou, ainda, a sentar os filhos no colo. Outros pedem testemunhas na hora do banho ou de trocar a fralda ao bebé, pedem ajuda à vizinha (mesmo a meio da noite) para colocar a pomada que evite as assaduras nas zonas genitais ou trancam a porta da casa de banho, com receio de que a criança entre sem avisar. Outros ainda equacionam instalar câmaras de vigilância em casa, numa busca desesperada por provas que os ajudem a defender-se, caso sejam acusados. Estes pais, não raras vezes, enfrentaram já outras acusações prévias. De violência doméstica, maus tratos físicos ou consumo de álcool e drogas. E quando os processos de avaliação, que se sucedem uns atrás dos outros, tantas vezes ao longo de anos a fio, revelam a ausência de indicadores neste sentido, o medo das acusações de abuso sexual ganha forma. Para estes pais que, como medida preventiva, decidem inibir-se na expressão afectiva e mesmo na prestação de alguns cuidados físicos aos seus filhos, o dia-a-dia é vivido com angústia e apreensão. E se algum comportamento é mal interpretado? Até onde posso ir e o que devo ou não devo fazer para que não seja injustamente acusado? Por sua vez, estas crianças veem-se privadas de pais espontâneos e capazes de expressar os seus afectos também de um modo físico. E por mais que a verbalização dos afectos seja importante, a verdade é que as crianças (e todos nós, se pensarmos bem) também precisam de toque e proximidade física, de serem inundadas de beijos e "espremidas" de tantos abraços. Falar desta realidade não equivale, naturalmente, a ignorar uma outra - a dos abusos sexuais reais. Sabemos que o abuso sexual existe, é prevalente e tem um claro impacto negativo na criança vítima, na sua família e na comunidade em seu redor. Os adultos devem estar atentos a eventuais sinais de alerta, ainda que estes possam ser subtis, ouvir a criança e pedir ajuda às entidades competentes face a uma suspeita ou revelação. Mas as falsas acusações de abuso sexual também existem, motivadas por erros de interpretação da realidade ou desejo de vingança e retaliação em relação ao progenitor acusado que se quer, por via da acusação, banir da vida dos filhos. E, neste contexto, sujeitam-se as crianças a avaliações sucessivas (por vezes bastante intrusivas), ao mesmo tempo que as privam de um direito fundamental - o direito a poder conviver com ambos os pais, de forma salutar e descontraída.

Opinião

A que sabe a lua?

Vivemos formatados por uma forma de pensar racional e convencional e acabamos, sem nos dar conta, por perder a capacidade fantástica que só as crianças têm de pensar "fora da caixa". Ao crescer, deixamos de fazer perguntas estapafúrdias, de questionar aquilo que parece inquestionável, de rir só porque sim e de fazer o pino para tentar olhar as situações de um outro prisma. Temos de admitir. Quem de nós pensou ultimamente sobre qual seria o sabor da lua? Ou o som do chocolate? E a que cheira a luz? O que sente uma flor? Perguntas sem nexo... ou talvez não. Para as crianças, a realidade é vista de uma outra forma. Por um lado temos as crianças mais pequenas que, com o seu pensamento concreto, questionam aquilo que para os adultos parece tão óbvio. Uma criança a quem os pais separados diziam que existia a «roupa da casa da mãe» e a «roupa da casa do pai» perguntou: "mas os móveis vestem a minha roupa? Nunca vi as cadeiras com as minhas calças...". As crianças mais velhas, por seu turno, imbuídas já de um pensamento mais abstracto, enfrentam a realidade de uma forma que nos desarma. Uma criança vítima de maus tratos emocionais dizia, "já que os meus pais não conseguem ser adultos, tenho de ser eu a encontrar formas de resolver isto... aprendi a ignorar o que me dizem, a fazer-de-conta que me dizem coisas diferentes, imagino outras conversas, diferentes daquelas que existem".

Opinião

Sexo no comboio, discriminação da mulher e educação sexual

O vídeo viral sobre três jovens (ou jovens adultos) a manter comportamentos sexuais explícitos durante uma viagem de comboio tem sido sobejamente falado e dispensa quaisquer apresentações. Muitos viram até ao fim, outros tantos ficaram a meio e outros, ainda, denunciaram o vídeo. Alguns partilharam com amigos e não amigos. E depois existe aquela franja de pessoas que não se limitou a ver, apagar, denunciar ou partilhar. Tinham que fazer comentários depreciativos.

Rute Agulhas

"Pai/mãe, não quero que namores!"

Após uma separação ou divórcio, é natural que os pais encontrem outras pessoas com quem se sentem felizes e com quem se imaginam a manter um relacionamento afectivo. O que é diferente de «refazer» a sua vida pois, ao dizê-lo desta forma, estão a assumir que, até então, a sua vida estava «desfeita». Não, não estava. Apenas não mantinham um relacionamento afectivo. E saber estar só, sem sentir solidão, é algo fantástico que poucas pessoas conseguem experienciar.