Rogério Casanova

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Rogério Casanova

Diego Maradona (1960-2020)

Homens a tentar falar e a não conseguir, homens a chorar convulsivamente, homens a mastigar segundos inteiros de silêncio em directo: foi este o tema dominante da semana televisiva, pelo menos para quem tentou sintonizar canais argentinos. Noutros países, a coisa procedeu de maneiras menos operáticas, mas igualmente reverentes, com procissões de convidados a chegar aos estúdios munidos da matéria-prima dos obituários, prontos para explicar porque é que alguém que deixou de estar vivo na verdade não morreu. Muitos destes comentários incluíram a palavra "Deus".

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O que os noivos não sabem

Por volta de 1351 a.C., o faraó do Egipto Amenófis IV escreveu ao rei da Babilónia pedindo-lhe se podia, por obséquio, enviar-lhe uma das suas filhas como presente. O rei respondeu indignadamente que era um grande descaramento pedir-lhe uma filha, quando a sua irmã fora enviada alguns anos antes para o Egipto nessas mesmas condições. "E até hoje não sabemos nada dela", concluía a carta. É possível que Amenófis não se lembrasse do facto quando enviou o pedido.

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Fauna, Flora, Moita e Flores

E o Partido Comunista?" Homens de boina, curvados conspiratoriamente sobre mesas. Fado. Fumo de cigarro. "É um partido sem rumo desde que o Gonçalves foi desterrado para o Tarrafal." "Oh... Dizem o mesmo dos anarco-sindicalistas." Mais fumo. Imenso fumo. "Ninguém se mexe! Isto é uma RUSGA!" Francisco Moita Flores regressou novamente ao passado, com a sua máquina de escrever, a sua máquina de nevoeiro, e a sua fiel colecção de polícias. Em O Atentado (quatro episódios já disponíveis na RTP Play), os polícias não investigam o Estripador de Lisboa, nem elites pedófilas, mas sim o atentado falhado contra Salazar em 1937. Porque se trata de uma "ficção histórica", o primeiro episódio não tem outro remédio senão abrir com um baile. A cerimónia em questão é um casamento. A noiva, filha de um polícia, dança com o seu marido, que também é polícia. São observados por vários polícias, que conversam com outros polícias sobre assuntos policiais. Tratam-se invariavelmente pelo nome completo e dizem uns aos outros aquilo que invariavelmente já sabem. "Caríssimo Baleizão do Passo... então não deixou saudades lá na Polícia Política". "Não... Mandei-os à fava e regressei à PSP." Noutro canto da sala, um polícia de uma das polícias critica a política de convites a polícias de outras polícias. "Tens aqui uma bela festa", diz ao pai da noiva, "mas podias não ter convidado o Baleizão do Passo. Como sabes, ele não deixou saudades". Como sabemos, a maioria das personagens introduz as suas observações com a frase "como sabes"; como também não esquecemos, o resto das personagens responde com frases que começam por "não te esqueças": "Não se esqueça, chefe, que o Agostinho Lourenço é o homem mais poderoso do país, a seguir ao Professor Salazar." O pai da noiva interrompe a música para fazer um discurso. O discurso consiste inteiramente na apresentação das personagens principais, com nome e cargo. "Quero agradecer a presença do Comandante X, do Sargento Y, e também do Capitão Z, que, apesar de ser da outra polícia, é um amigo de longa data." Todas as grandes figuras do regime estão presentes, menos uma. Como dramatizar essa ausência através de diálogo? "Se tivesse outra fillha para casar, podia convidar o Professor Oliveira Salazar." "O... o Presidente do Conselho?" "Sim. Ele não iria recusar um convite de um chefe de brigada da sua polícia preferida." A única dúvida de recursos humanos ainda por esclarecer ao fim de cinco minutos é a que polícia pertence o polícia que acabou de casar com a filha do polícia. "O que é que faz o noivo?" "É nosso colega" "Nosso colega... ponto e vírgula. Ele não trabalha na Polícia de Vigilância e Defesa do Estado. "Pois não. Trabalha na Polícia de Investigação Criminal." Entretanto, noutro lado da cidade, alguns gatunos tentam aproveitar o facto de todos os polícias do país estarem reunidos no mesmo salão de baile para roubarem automóveis. Um deles hesita. Outro motiva-o. "Tem de ser, Vaz. Sem estes carros, não vamos conseguir matar o Salazar!" Apesar desta motivação, o golpe corre mal. Um homem leva um tiro e reage da única maneira possível: "Ai! Deste-me um tiro, cabrão!" Os planos dos bandidos estão constantemente a correr mal, o que os obriga a encontrarem-se em sucessivos cafés, para conspirarem à meia-luz enquanto incendeiam centenas de cigarros. "A Rua Barbosa du Bocage... a missa de Domingo... a bomba!" Alguém com a alcunha Espeto de Pau é preso por polícias, que o espancam com um espeto de pau. Os conspiradores tentam a todo o custo encontrar outros conspiradores que ainda não saibam o que aconteceu ao Espeto de Pau, mas sem sucesso. "Prenderam o Espeto de Pau!" "Sim, eu sei." O resto da série vai demonstrando que, ao contrário dos bandidos, nem todos os polícias são iguais. Há polícias maus e há polícias bons. Os polícias bons (da PIC) reúnem-se todos no mesmo gabinete. Um deles tem como principal característica ser esperto ("Tu és esperto", informa-o o superior hierárquico). Outro chama-se Arengas, e é engatatão: a primeira cena mostra-o a engatar uma engatada, engatatonamente. O terceiro membro da brigada está permanentemente sentado atrás de uma secretária, e a sua única função é não perceber o que se passa, fazendo perguntas específicas que permitam aos colegas explicar o guião em voz alta ou, em alternativa, não explicar o guião em voz alta ("Não vou discutir este caso contigo. Primeiro, porque não tenho tempo. Segundo, porque tenho mais que fazer"). Os polícias maus (da PVDE) passam o tempo a interrogar prisioneiros recorrendo à técnica oficial dos polícias em séries sobre polícias: gritar muito alto com enunciação perfeita. "FALAS OU NÃO FALAS?" "Eu não sei nada, juro!" "FALA! FALA! ONDE É QUE ESTÁ A BOMBA?" Os oficiais superiores falam mais baixo, devido à pressão exercida nas cordas vocais pela força com que franzem a testa e cerram os maxilares. António Pedro Cerdeira reproduz o seu velho truque assimétrico de franzir apenas um lado da testa, enquanto cerra o maxilar do lado oposto, simbolizando assim a dualidade do Homem. "Obriga-o a falar. Depressa." Fazendo as contas ao número de episódios, este "depressa" deve acontecer lá para o fim do mês. Apesar de toda a urgência artificial, se há coisa que nunca falta aos polícias nas séries sobre polícias é tempo. O mesmo não se pode dizer do planeta, segundo o mais recente documentário de David Attenborough (A Life on Our Planet, Netflix). "Tenho 93 anos", garante Attenborough, embora a afirmação careça de fact-checking (é possível que tenha pelo menos o dobro), "e este é o meu testemunho". As primeiras imagens mostram a cidade de Pripyat: ruínas invadidas por vegetação, edifícios desabitados percorridos por lobos, muitos deles com o número regulamentar de patas. A ideia é partir de um exemplo do potencial humano para o acidente catastrófico e aumentar a escala. O documentário serve também como semi-retrospectiva da sua carreira e dos acidentes de outra ordem (históricos, cronológicos) que a possibilitaram. Imagens de arquivo mostram um jovem Attenborough - talvez com apenas 140 anos - a abraçar gorilas ou a percorrer as florestas da Papua-Nova Guiné. Muitas destas possibilidades de aventura, sugere, estão hoje esgotadas ou pelo menos drasticamente abreviadas. Contadores numéricos (população mundial, níveis de CO2 na atmosfera, etc.) estabelecem uma espécie de cronómetro informal para contar o tempo que resta às espécies ameaçadas, à floresta tropical, à moita, às flores. "Não nos limitámos a arruinar o planeta. Estamos a destruí-lo." Depois de uma carreira a fazer de polícia bom do mundo natural, Attenborough parece agora empenhado em assumir o papel de polícia mau. Uma ou outra sequência evoca o tipo de esplendor visual em que se especializou (um pássaro que parece ter sido construído pela Lockheed Martin e ter um nome de código, e que emite um som semelhante ao disco dos telefones analógicos quando se marcava o 9); outras recuperam o seu talento para a montagem antropomorfizante: um comentário sobre a deflorestação no Bornéu é ilustrado com um orangotango a trepar a uma árvore solitária e raquítica, antes de observar a clareira à sua volta. A cara do orangotango é automaticamente dotada de emoções tão humanas como se falasse com a voz de Canto e Castro, ou estivesse a ser interrogado por polícias: "Eu não sei nada, juro." Escreve de acordo com a antiga ortografia

Rogério Casanova

O treinador português a gostar de si próprio

O documentário All or Nothing: Tottenham (cujos primeiros seis episódios estão disponíveis na Amazon Prime) começa verdadeiramente ao minuto 25. Os 24 minutos anteriores são o que se poderia esperar, tanto de um documentário desta natureza como das circunstâncias do clube no início da época 2019-20: narração solene sobre glórias antigas, imagens de arquivo, sucessão de maus resultados, e um treinador - Pocchetino - que sabe ter os dias contados. Perante um clarão de flashes e repórteres ofegantes, José Mourinho entra em cena, e começa a esvaziar caixotes no seu novo gabinete: dossiês volumosos, uma fotografia autografada por Vinnie Jones ("Be good, José!"), recortes de jornais sobre conquistas passadas, e inúmeros retratos de si próprio (presumivelmente também autografados). Um televisor transmite opiniões cépticas sobre a sua contratação. "Fuck off", esclarece Mourinho, desligando o ecrã.

Rogério Casanova

O homem que não gostava de orgias

Calvino incluiu na sua definição de "clássico" a ideia de obras que não se podem "ler", apenas "reler" - não como medida da sua complexidade, mas pelo modo como nos chegam quase sempre em segunda mão. A maioria dos clássicos são textos sociais, no sentido em que muitos dos seus elementos já foram colectivamente absorvidos e distribuídos antes de lermos uma palavra. Mesmo a "segunda mão" já transmite uma ideia redutora do processo: uma cena "famosa" de Robinson Crusoe, digamos, pode ser encontrada na forma de um meme na internet, por sua vez inspirado num sketch do Family Guy, que por sua vez satirizava aquilo que já era uma modernização (o filme Cast Away) "inspirada" pelo clássico em questão. Na impossibilidade de forjar uma relação individual com o clássico, a calibração da surpresa na primeira leitura é sempre distorcida: nenhum leitor fica surpreendido ao encontrar os moinhos no Quixote; por outro lado, é possível que alguns sintam um choque genuíno ao descobrirem que Orgulho e Preconceito, por exemplo, é um repositório de clichés da comédia romântica (clichés que fixou antes de o serem). E inúmeras pessoas que nunca leram Kafka ou Orwell transportam consigo um significado provisório dos adjectivos kafkiano e orwelliano, mesmo que esses significados se refiram apenas a filas na repartição de finanças ou câmaras de vigilância no posto dos CTT. As duas distopias literárias centrais do séc. XX - 1984 e Admirável Mundo Novo - são vítimas especiais desta semidebilidade cultural, não apenas porque influenciaram, consciente e inconscientemente, o tom e o aspecto de quase todas as distopias cinemáticas ou televisivas que existem, mas porque também influenciaram hábitos discursivos simplificados para enquadrar e debater a nossa irritação mais recente, sejam espasmos consumistas ou iniciativas governamentais. É uma debilidade de que Brave New World, a mais recente adaptação da obra de Huxley (os nove episódios estão disponíveis na HBO Portugal) se mostra impotentemente consciente. A dada altura, uma das personagens, cuja actividade no mundo da série é produzir curtas-metragens sensacionalistas, queixa-se de dificuldades para imaginar a sequela do seu último êxito, "A Bomba de Prazer". "Eles querem mais!", lamenta, falando sobre o público. "E eu não sei mais!" Num episódio posterior, outra personagem elabora o dilema: "Eles querem uma novidade, porque cada novidade pode ser a melhor de todas. Portanto, nós damos-lhes a novidade. Maior, mais ruidosa, mais exuberante. Porque se não o fizermos, corremos o risco de eles perceberem que a novidade afinal não é novidade: é apenas o antigo, em maior quantidade. E se é antigo, é aborrecido, e se for aborrecido, eles desligam." É um desabafo interessantíssimo para enfiar na quinta hora de uma série de televisão que não apresenta uma única novidade, mas sim várias antiguidades - maiores, mais ruidosas e mais exuberantes. Novidade há uma, aliás: a corajosa decisão de transformar a sátira de Huxley na história comovente de um homem que comparece a sucessivas orgias e sente tristeza com o que vê. O enredo, apesar de tudo, preserva os rudimentos do livro. Um mundo no futuro distante onde uma noção limitada mas real de "felicidade" é prevalente. Contratempos do passado como a doença, a pobreza, a fome e a ansiedade foram banidos (bem como as suas causas: nomeadamente a procriação ex vitro, e as chatices da vida familiar). A sociedade, tal como no livro, aplica os princípios da mecanização e produção em massa à biologia e à psicologia: há uma hierarquia de cinco castas, todas elas condicionadas desde a infância a aceitarem as suas funções específicas: desde os Alphas e Betas, que se encarregam das tarefas intelectuais e administrativas, aos Epsilon, que basicamente andam de esfregona na mão a limpar o que está sujo. A única anomalia neste novo mundo é uma reserva natural conhecida como "Terra Selvagem", uma Comporta que as castas superiores podem visitar como um parque temático, e onde os habitantes primitivos encenam algumas tradições distorcidas do séc. XX, como a cerimónia de casamento e a corrida aos saldos. A série nunca percebe muito bem o que fazer com este material e depressa se reduz a variações pedestres sobre o apelo do fruto proibido, dramatizando as condições necessárias para as personagens principais descobrirem os impulsos que suprimiram. Num mundo onde a promiscuidade é a norma, a monogamia adquiriu uma aura de transgressão, e uma cena no segundo episódio (quando o espectador, tal como um dos protagonistas, já assistiu à segunda de meia dúzia de longas orgias) mostra um casal improvisado a interromper subitamente um enrolanço: "E se... e se esperarmos? Podia ser... podia ser como uma... noite de núpcias!" Ao contrário do livro, composto quase exclusivamente de diálogo e exposição, a série arranja espaço para alguns tiroteios, perseguições de carro, e até para uma fugaz aparição de Demi Moore, que, entre camisas de noite e frascos de bagaço, desenrasca uma homenagem inadvertida ao papel de Elizabeth Taylor em Quem Tem Medo de Virginia Woolf? O terceiro episódio traz um dos "selvagens" para o novo mundo, onde começa por introduzir uma promissora nota de dissidência, mas rapidamente se transforma noutro homem francamente repugnado pela ideia de orgias. O selvagem do livro aprendeu tudo o que sabe nas obras completas de Shakespeare; o da série tem um walkman com uma cassete de Neil Young. Quanto à ideia central de Huxley - a de que o admirável mundo novo se autoperpetua sem líderes ou vilões - é aqui reduzida à influência despótica de um computador mau, que na sua forma humana ganha o hábito de sobressaltar personagens em corredores escuros. A escolha entre prazer e autenticidade perde grande parte do significado se o papão estiver ao virar da esquina, pronto a punir a escolha errada. "1984 ou Admirável Mundo Novo?" é um exercício intelectual jogado com frequência pelo menos desde os anos 80. Qual a distopia mais plausível, qual a mais relevante? (Na verdade, o jogo começou muito mais cedo, na correspondência privada entre Huxley e Orwell, na qual cada um defendia a superioridade profética da sua própria obra). Como muitos desses exercícios, a escolha é uma espécie de teste de Rorschach invertido, em que deixamos a distopia seleccionada dar nome e forma às vagas silhuetas das nossas ansiedades particulares. Ambos os livros são sobre o terror do conformismo forçado; a diferença crucial é não apenas a intensidade da coerção, mas aquilo que os conformados são obrigados a aceitar. É inteiramente compreensível que um mundo sem fome nem doença e com orgias diárias não pareça um pesadelo intolerável, comparado com guerra incessante, polícias secretas e jantares de couve cozida. Mas qualquer distopia é menos sobre o medo da mudança do que sobre o medo que a mudança deixe de ser possível: de que a mudança deixe de acontecer no momento errado, consolidando algumas patologias específicas do presente e deixando-nos paralisados numa ordem imutável. No longo diálogo que termina o livro, o momento central não é quando o Selvagem reclama sentimentalmente "o direito a ser infeliz" ("a envelhecer, a ficar feio e impotente, a sofrer sífilis e cancro, a não ter o suficiente para comer, o direito a viver num constante estado de alarme por não saber o que vai acontecer amanhã"), mas o momento em que pergunta a um dos Controladores do Novo Mundo qual a necessidade de uma hierarquia estratificada, uma vez que a tecnologia existente permitiria poupar toda a gente a tarefas físicas extenuantes. Porque não um mundo inteiro de Alphas? A explicação do Controlador é um perfeito silogismo de rabo na boca: o condicionamento das classes inferiores (que lhes é imposto) não lhes permite desfrutar do tempo livre, nem das múltiplas orgias que esse calendário alargado iria possibilitar, portanto seria cruel impor-lhes o privilégio. A desconcertante benevolência do raciocínio é um dos aspectos mais plausíveis do livro inteiro. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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Rogério Casanova

Pânico, pandemia, blá-blá-blá

Tal como o veado de Père David ou o mutum-do-nordeste, o intelectual público costuma ser tratado como uma espécie extinta no seu habitat natural, e que apenas é possível observar em cativeiro: nas listas anuais de "pensadores mais influentes", ou na subcategoria de artigo jornalístico que questiona se "esta-coisa-que-sempre-foi-assim-estará-a-deixar-de-ser-assim?". "O que aconteceu ao intelectual público?" ou "O fim dos intelectuais?", perguntam esses artigos, em média uma vez por ano. Vários depoimentos são recolhidos, de figuras apresentadas como "intelectuais", mas que recusam, com maior ou menor confiança, a designação. Os tempos estão a mudar, explica um. As coisas não são assim tão simples, explica outro. Uma coisa é certa: talvez - conclui o artigo. Entretanto, a ocasião passa e o intelectual público regressa à sua reserva natural e ao cargo que lhe foi atribuído por inerência: um cargo que, no caso português, implica ficar perto de um telefone, a aguardar tranquilamente um convite da Gulbenkian ou de Fátima Campos Ferreira para "pensar Portugal", ou um telefonema de um jornalista a perguntar "o que aconteceu à ideia de Europa?" ou se "a internet é boa ou má?".

Crónica de Televisão

Burr vs. Super-Hamilton

Burr (1973), o segundo na sequência de romances históricos que Gore Vidal escreveu sobre a república a que gostava de chamar os Estados Unidos da Amnésia, começa de uma maneira muito semelhante a Entrevista com o Vampiro. Um jovem amanuense prepara-se para entrevistar um venerável ancião, na tentativa de lhe arrancar a verdade sobre a sua biografia e, com sorte, conseguir um furo jornalístico (neste caso, sobre uma paternidade secreta). O ancião é Aaron Burr, então com 80 anos e, nas palavras de Vidal, "o esqueleto dentro de todos os armários" na História americana - onde foi também um "homem-quase". Nunca chegou a Presidente (foi apenas vice); não ajudou a redigir a Declaração de Independência nem a Constituição; não escreveu sequer um mísero Federalist Paper - embora tenha a morto a tiro alguém que o fez.

Crónica de Televisão

Épater la Borgensie

A palavra dinamarquesa hygge teve o seu ano de glória em 2016, num caso exemplar de internacionalização da marca. Publicaram-se livros inteiros sobre o conceito, o Oxford Dictionary incluí-a na sua lista de vocábulos do ano e foi promovida ao panteão universal das palavras supostamente intraduzíveis, ao lado de outros clássicos da categoria, como a alemã Waldeinsamkeit, a russa toska ou a nossa saudade. Como em todas elas, "intraduzível" significa apenas que muitas vezes não há um equivalente directo, pelo que traduzir é também explicar. E em 2016 era impossível abrir um jornal sem tropeçar numa explicação. Hygge é qualquer coisa como uma sensação de bem-estar, conforto, aconchego. Conjura lareiras, vidros duplos, tapetes felpudos, camisolas de malha, comida caseira e pressão arterial 12/8. Hygge é o que acontece quando tudo o que acontece é agradável, e o conceito foi integrado na manifestação específica de escandifilia universal que atribui aos países nórdicos o monopólio de segredos da felicidade.