Rogério Casanova

Premium

Rogério Casanova

Estrategicamente apaixonado

Uma das longas-metragens mais curiosas do Verão - Sessão de Apresentação da Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030 - viu nesta semana a estreia oficial da sua sequela - Sessão de Balanço da Consulta Pública da Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030 - disponível em pelo menos uma popular plataforma de streaming (a conta da República Portuguesa no YouTube). A 14 de Outubro segue-se a terceira e última parte da trilogia, a Apresentação Pública do Plano de Recuperação, a estrear perante o prestigiado júri de cinéfilos da Comissão Europeia.

Rogério Casanova

Uma pertinente desconstrução das desconstruções pertinentes

Lovecraft Country, que se estreou na HBO Portugal a 17 de Agosto, é uma série de televisão igual a tantas outras nos seus aspectos essenciais: uma descarga controlada de "excelentes" valores de produção, em que um orçamento pesado, mínimos olímpicos de competência técnica, e uma atenção profissional a pormenores de cenário e decoração fazem o trabalho de sapa, compensando a quase total ausência de ingredientes como originalidade, imaginação ou capacidade de criar estranheza. Os seus defeitos e limitações são tão familiares que acabam por ser rasurados pelas exigências simetricamente reduzidas que colocam à atenção do espectador. Os três episódios transmitidos até agora são uma mnemónica dirigida a uma matriz anestesiada: a rede interna de associações e expectativas de todos os espectadores que já reconhecem esta sintaxe visual, atalhos narrativos e maneirismos segmentados a quilómetros de distância, e que os assimilam com a mesma naturalidade com que os leitores de romances assimilam semiconscientemente os indicadores de diálogo ("disse", "declarou", "indagou", etc.). - Lovecraft Country - afirmou solenemente a HBO. - Sim - respondeu o espectador, sem pensar muito no assunto.

Premium

Rogério Casanova

Pânico, pandemia, blá-blá-blá

Tal como o veado de Père David ou o mutum-do-nordeste, o intelectual público costuma ser tratado como uma espécie extinta no seu habitat natural, e que apenas é possível observar em cativeiro: nas listas anuais de "pensadores mais influentes", ou na subcategoria de artigo jornalístico que questiona se "esta-coisa-que-sempre-foi-assim-estará-a-deixar-de-ser-assim?". "O que aconteceu ao intelectual público?" ou "O fim dos intelectuais?", perguntam esses artigos, em média uma vez por ano. Vários depoimentos são recolhidos, de figuras apresentadas como "intelectuais", mas que recusam, com maior ou menor confiança, a designação. Os tempos estão a mudar, explica um. As coisas não são assim tão simples, explica outro. Uma coisa é certa: talvez - conclui o artigo. Entretanto, a ocasião passa e o intelectual público regressa à sua reserva natural e ao cargo que lhe foi atribuído por inerência: um cargo que, no caso português, implica ficar perto de um telefone, a aguardar tranquilamente um convite da Gulbenkian ou de Fátima Campos Ferreira para "pensar Portugal", ou um telefonema de um jornalista a perguntar "o que aconteceu à ideia de Europa?" ou se "a internet é boa ou má?".

Rogério Casanova

A toxicidade e as serras

Mais tarde ou mais cedo, qualquer adepto de futebol, qualquer comentador de futebol, ou qualquer turista de passagem pelo mundo do futebol diz, ou pelo menos pensa, a mesma frase. A frase é "o futebol não é isto" - e normalmente é dita sobre algo que é futebol, e sempre foi futebol. Os "istos" que o futebol não é ocupam um espectro vasto, mas familiar, que vai do mais recente autocarro apedrejado ao guarda-redes que finge uma lesão até se esgotarem os minutos de desconto, passando pelo cliente do café a gritar calmamente um enredo de Le Carré para explicar um fora-de-jogo mal assinalado. O futebol não é aquilo, pensamos (ou dizemos). Antigamente era outra coisa, e é uma pena que já não seja.

Crónica de Televisão

Épater la Borgensie

A palavra dinamarquesa hygge teve o seu ano de glória em 2016, num caso exemplar de internacionalização da marca. Publicaram-se livros inteiros sobre o conceito, o Oxford Dictionary incluí-a na sua lista de vocábulos do ano e foi promovida ao panteão universal das palavras supostamente intraduzíveis, ao lado de outros clássicos da categoria, como a alemã Waldeinsamkeit, a russa toska ou a nossa saudade. Como em todas elas, "intraduzível" significa apenas que muitas vezes não há um equivalente directo, pelo que traduzir é também explicar. E em 2016 era impossível abrir um jornal sem tropeçar numa explicação. Hygge é qualquer coisa como uma sensação de bem-estar, conforto, aconchego. Conjura lareiras, vidros duplos, tapetes felpudos, camisolas de malha, comida caseira e pressão arterial 12/8. Hygge é o que acontece quando tudo o que acontece é agradável, e o conceito foi integrado na manifestação específica de escandifilia universal que atribui aos países nórdicos o monopólio de segredos da felicidade.

Crónica de Televisão

Apita o comboio, objectivamente

Quem é John Galt?" A pergunta com que Ayn Rand começa o seu livro mais célebre foi formulada em 1957, mas teve resposta literária algumas décadas antes. O escocês John Buchan, autor de Os 39 Degraus, escreveu um romance de aventuras chamado Huntingtowe, no qual duas princesas russas são sequestradas num palacete rural por terroristas bolcheviques que pretendem, se a memória não me falha, infiltrar e sabotar a sociedade britânica, mas cujos planos são frustrados por um bando de miúdos de rua de Glasgow, um dos quais se chama John Galt.

Rogério Casanova

God save TV

A terceira temporada da popularíssima série sobre a realeza britânica The Crown (disponível desde Novembro na Netflix) não comete o erro de experimentar truques novos e começa da maneira esperada - e tematicamente apropriada: devagarinho, respeitando o protocolo e com todo o aspecto de ter custado imenso dinheiro. Cabeças ornadas com tiaras, criados de libré, batalhões de conselheiros com ar atarefado, planos demorados de longos corredores, tapetes magníficos, tectos altíssimos de onde pendem duas toneladas de lustre e diálogos decorosamente estilizados, capazes de humedecer os olhos de João Carlos Espada a três mil quilómetros de distância ("Majestade", "Sua Excelência", "Madame", "Lord Cecil Feldspath-Badminton, ao seu dispor").

Premium

Rogério Casanova

Dracula: sem pinga de sangue

As ficções especializadas em extrair humor de anacronismos têm dois mecanismos ao seu dispor. Um é aquilo a que podemos chamar o método Astérix (visível em objectos tão diferentes como o Mason & Dixon, de Thomas Pynchon, ou a recente minissérie da Apple TV Dickinson): contrabandear as tecnologias, hábitos e referências culturais do presente para o passado remoto, de modo que um espião do Império Romano possa ter o aspecto de Sean Connery ou que George Washington possa fumar charros.