Rogério Casanova

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Kyrie Irving e a liberdade de opinião sobre a pica que faz dói-dói

A fase regular da NBA vai começar esta semana, e aproximadamente quinhentos atletas profissionais vão atirar bolas na direcção geral de aros redondos. Entre eles não estará Kyrie Irving, base dos Brookly Nets, rookie do ano em 2012, campeão olímpico em 2016, sete vezes escolhido para o All-Star Game, e o rosto mais visível daquilo que, com excessiva flexibilidade semântica se poderia chamar o "movimento" anti-vacina na competição.

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Transfusões de sangue velho

Em 2004, o escritor americano F. Paul Wilson publicou um (mau) livro de terror chamado Midnight Mass. A história era sobre uma infestação de vampiros que partiu do Empire State Building para dominar todo o continente americano, e sobre a equipa ad hoc que tenta fazer-lhes frente através de guerrilha terrorista: um padre católico pedófilo, uma lésbica vegetariana, e uma ex-freira equipada com um colete de explosivos. Os vampiros em questão eram feios, porcos e maus. A dada altura, um deles goza em voz alta com os estereótipos da sua espécie perpetuados pelos livros de Anne Rice: estetas eruditos, bonitos, e romanticamente atormentados.

Opinião

Este homem não é do 'noir'

Como muitos produtos americanos de sucesso, o film noir foi inventado por emigrantes. Antes de os refugiados da II Guerra Mundial se instalarem em Los Angeles, os californianos não faziam sequer a menor ideia do que havia uma diferença entre a luz e a escuridão. Os exilados alemães, com as suas sombras, neblinas, aguaceiros e outros truques expressionistas estrangeiros, inventaram uma maneira de tornar as palmeiras mais interessantes. Devidamente equipados com gabardinas e cigarros, os protagonistas fictícios podiam agora ajudar os espectadores a perceber pela primeira vez um conjunto de fenómenos importantíssimos: que o uísque geralmente não embebeda, que as filhas de milionários são geralmente ninfomaníacas, que as coisas são geralmente mais sórdidas do que parecem à superfície.

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Perguntas Frequentes Sobre o Euro-2020 (3.ª Semana)

Este é o melhor Campeonato da Europa de sempre? Ou, por outras palavras, este é o pior Campeonato da Europa de sempre? Não, e não, por enquanto. A resposta a perguntas semelhantes será sempre "não" enquanto os eventos duram, e continuará a ser "não" pelo menos até haver mais dois ou três pontos de comparação futuros. A nossa compulsão para o rescaldo instantâneo tende a rasurar contingências e a querer validar instantaneamente o impulso para confundir a proximidade de uma emoção com uma qualquer precedência histórica. O futuro costuma tratar destes assuntos nos seus timings e não cede a pressões. Uma das melhores respostas ao debate periódico sobre a Era de Ouro da Ficção Científica (os anos 30 das revistas pulp? os anos 60 da New Wave?) limitou-se a propor que a Era de Ouro da Ficção Científica são os doze anos - o período em que se formam as memórias às quais todas as experiências posteriores serão comparadas. O melhor Europeu, tal como o melhor Mundial - tal como o melhor livro de ficção científica - nunca deve ser aquele que está a acontecer à nossa frente, nem o primeiro que aconteceu à nossa frente, mas sim aquele que melhor reproduz o deslumbramento da exposição inicial.

Rogério Casanova

Anda comigo ver os acidentes

Um dia antes de o MEL ter reunido as velhas direitas no Centro de Congressos de Lisboa para que pudessem ser todas publicamente esbofeteadas em simultâneo pela nova direita, um vídeo circulou pelo éter, ilustrando uma categoria diferente - mais séria, menos metafórica - de bullying: um grupo de crianças a perseguir outra, que ia fugindo pela berma de uma estrada. Quando a vítima atravessa a estrada para se afastar, o vídeo termina com o baque inconfundível de um impacto surdo e sem eco.

Rogério Casanova

A coluna de opinião mais urgente do nosso tempo

Um dos problemas de viver numa cultura periférica é chegar sempre tarde aos brinquedos mais apelativos. Para quem teve uma infância portuguesa nos anos 80, o que isto significava era que os rumores de recreio sobre um "primo da Alemanha" cujos brinquedos se transformavam todos em robots precediam em vários meses o aparecimento de Transformers nas lojas. Para quem escrevia colunas de jornal nos anos 90, a consequência era chegar com meses (ou às vezes com anos) de atraso às mais empolgantes opiniões disponíveis - sobre a "terceira via", sobre os "desafios da globalização", sobre o "politicamente correcto".

Rogério Casanova

A Superliga no fim do mundo

Proclamar que vivemos tempos sem precedentes e que algo-deve-ser-feito costuma ser uma estratégia eficaz como polémica opinativa ou propaganda política, mas a sua aplicação enquanto gambito publicitário é mais limitada. A retórica apocalíptica funciona, mas tem de ser calibrada de modo mais cuidadoso. Sentirmo-nos receosos e desesperados pode levar-nos a querer comprar urgentemente qualquer coisa (uma arma semi-automática, um bilhete para uma conferência sobre a liberdade de expressão, mil rolos de papel higiénico), mas o impulso também pode ser refreado se desconfiarmos que o desespero de quem vende é ainda maior que o nosso.

Rogério Casanova

Deixar a Britney em paz

2007 foi um ano especialmente produtivo no subgénero de fenómeno moderno conhecido nos tablóides de língua inglesa como celebrity meltdown. Como todas as categorias culturais inventadas, esta tem as suas regras e protocolos informais, os seus estatutos, o seu panteão, o seu bestiário de imagens representativas - e 2007 preenche muitos dos espaços no formulário: Amy Winehouse foi hospitalizada pela primeira vez; Paris Hilton e Kiefer Sutherland dormiram uns dias na prisão por conduzirem alcoolizados; Lindsay Lohan passou grande parte do ano a entrar e a sair de clínicas de reabilitação; Alec Baldwin insultou a filha de 11 anos num telefonema gravado; Pete Doherty foi expulso de casa por não pagar renda, e fotografado a intoxicar pinguins no jardim zoológico de Londres. Um ano atarefado, cujo mote fora dado em Fevereiro, quando Britney Spears invadiu um salão de cabeleireiro (numa cidade chamada Tarzana) e rapou o seu próprio cabelo enquanto câmaras a filmavam pela janela. Quando, dias depois, agrediu um paparazzo com um chapéu-de-chuva, o incidente pareceu quase um anticlímax.

Rogério Casanova

Hipercurtisação

A principal característica dos documentários de Adam Curtis é não se parecerem com os documentários de qualquer outra pessoa. São todos, no entanto, muito parecidos uns com os outros. Trabalhando com restrições de formatos e plataformas (Curtis é funcionário da BBC) que não são propriamente catalisadores de individualismo estético ou inovação formal, conseguiu consolidar um conjunto de idiossincrasias tão reconhecível que parodiá-lo se tornou um hábito recorrente na internet: há um youtube célebre (The Loving Trap) que sintetiza os seus maneirismos em três minutos devastadores; e sempre que estreia um documentário novo, volta a circular um cartão de bingo que convida os espectadores a identificar a inevitável reaparição de tiques linguísticos ("But one man thought differently..."), visuais ("imagens de arquivo de tropas soviéticas no Afeganistão") ou musicais ("faixa de Burial").