Opinião

Leonídio Paulo Ferreira

A América é um filme de Hollywood, daqueles mesmo muito bons

Cheguei numa tarde de finais de outubro de 2000 a Hope, Arkansas, num daqueles autocarros metalizados da Greyhound, com o galgo desenhado, que nos habituámos a ver nos filmes passados na América profunda. E sim, estava no Deep South, o sul profundo, e sim, sentia-me numa película de Hollywood. Ali tinha nascido Bill Clinton, que estava então de saída da Casa Branca, ali havia ainda memória da mercearia dos avós, ali se encontrava ainda quem se recordava das bolsas de estudo ganhas pelo menino-prodígio que se fez advogado em Yale, regressou ao Arkansas para ser governador e só voltou a sair do estado natal para ser presidente dos Estados Unidos. O sonho americano existe mesmo e ver como começou naquele caso era o objetivo da reportagem para o DN, na primeira de duas eleições presidenciais que cobri ao serviço do jornal e em que a regra foi evitar Washington.

Paulo Pedroso

O dilema da direita açoriana

No nosso sistema político, como na generalidade das democracias regidas pelo princípio da proporcionalidade, ficar em primeiro não é sinónimo de vitória, apenas dá ao partido que ganha as eleições a prerrogativa de ser o primeiro a ser convidado a formar governo. Consequentemente, quem efetivamente as ganha e define a governabilidade que delas resulta é o bloco que tiver a confiança maioritária, ou pelo menos não tiver a desconfiança maioritária, no Parlamento.

Opinião

Cazaquistão, vítima colateral do humor de Sasha Baron Cohen

Os Estados Unidos e os aspetos mais reacionários da sociedade americana são os alvos de Sasha Baron Cohen nos seus filmes Borat. Mas tanto agora na sequela como há uma década e meia quando se estreou o primeiro filme com o suposto jornalista cazaque há uma vítima colateral: o Cazaquistão. Sim, o país de Borat existe mesmo, é aliás o nono maior do mundo, e nele se pode encontrar tanto a base espacial de Baikonur como as montanhas junto à Almaty de onde são originárias as maçãs.

Margarita Correia

Graças a Deus. Ou graças a nós.

Fomos abalados pela execução de Samuel Paty, professor de História e Geografia, a 16 de outubro, frente à escola onde trabalhava, nos arredores de Paris. A causa próxima do crime foi a exibição, numa aula de Ensino Moral e Cívico, de duas das caricaturas de Maomé publicadas pelo Charlie Hebdo. A disciplina de Ensino Moral e Cívico é obrigatória ao longo de todo o currículo do ensino não superior, desde o ataque ao Charlie Hebdo em 2015, que é um dos temas do programa. Os seus objetivos são: respeitar os outros, adquirir e partilhar os valores da República (liberdade, igualdade, fraternidade, democracia, cidadania, laicidade, liberdade de expressão) e construir para si mesmo uma cultura cívica.

Opinião

Pós-verdade: "Kosovo agradece os seis mil soldados portugueses que ajudaram à paz"

Pós-verdade ou a política da pós-verdade, isto é, política pós-factual, é a situação em que o debate público se limita a provocar emoções, evitando factos importantes, assim como detalhes, com repetição de elementos do discurso ou da escrita que procuram atingir um determinado objectivo, particularmente político, enquanto a refutação de tais afirmações com factos concretos é ignorada. É, portanto, a criação de uma atmosfera em que factos objetivos, a verdade, portanto, têm um impacto muito menor na formação da opinião pública que opiniões pessoais e individuais, emoções e reacções públicas. Desta forma, contornando, ou mesmo ignorando a verdade, os preconceitos são muitas vezes encorajados, sendo o melhor alimento para as paixões e emoções que bloqueiam a razão. Os seguintes termos podem também ser usados ​​para explicar a "pós-verdade": a habilidade de mentir ou até mesmo a arte de mentir (The Economist). Na Sérvia e em alguns outros países, este tipo de formação da opinião pública é também conhecida como "Goebbels". Já vão sendo escritos livros (Ralph Keyes, The Post-Truth Era) sobre a era da pós-verdade, onde a desonra, a fraude e o engano reinam. A política da pós-verdade era habitualmente associada a sociedades anti-democráticas e totalitárias, mas tem vindo a tornar-se um conceito sociológico cada vez mais importante nas sociedades democráticas, levantando toda uma série de questões essenciais sobre a democracia moderna, as suas limitações e até mesmo a sua crise.