Opinião

Daniel Deusdado

Os podcasts como fórmula de conhecimento: de Kamala à Antena 2

Depois dos livros, chegou a hora dos podcasts serem os nossos melhores amigos? Na semana passada trouxe aqui o programa diário "A Ronda da Noite" sobre livros e cultura na Antena 2, mas neste agosto descobri as "Grandes Batalhas da Antiguidade", também da Antena 2 (RTP-play ou Spotify). São 13 pérolas radiofónicas escritas pelo historiador Paulo Nazaré Santos e que vão desde a Batalha de Kadesh (1274 A.C.) até à Batalha dos Catalaúnicos (451 D.C.). A escrita de Paulo Nazaré Santos é absolutamente deslumbrante na criação das atmosferas e cenários de guerra enquanto a narração do João Almeida e a sonoplastia de Tomás Anahory são primorosas. Uma obra-prima da nossa cultura.

Opinião

Sobreviver ao stress das férias em família

Passamos o ano inteiro em contagem decrescente para as férias e, quando elas chegam... é um stress! Pois é, mesmo as situações muito desejadas, como ter um tempo de descanso, originam frequentemente a sensação de que a balança do stress e desequilibrou - sentimos que não temos recursos suficientes para lidar com a exigência das situações. Nas férias tendemos a idealizar cenários paradisíacos, pessoas felizes e em harmonia, com o chilrear dos passarinhos como pano de fundo. Acreditamos ainda que vamos conseguir fazer as 30 mil coisas que andámos a adiar e que teremos todo o tempo do mundo. Mas a realidade não é bem assim... começa pela escolha do destino de férias, nem sempre consensual, passando depois pelos preparativos para a viagem, quando tentamos acomodar as malas que transbordam e nos fazem questionar se não estaremos, afinal, a mudar de casa. Os miúdos gritam e batem nos irmãos, fazem birras a toda a hora e desafiam a paciência dos mais santos. Os adolescentes vivem com a cabeça enfiada no telemóvel, a dizerem mal de tudo e de todos e com cara de quem faz frete (e faz mesmo). Os pais, sogros, primos e primas que não se viam há algum tempo, as conversas incómodas e as perguntas às quais ninguém quer responder. Os casais tensos, o telemóvel do trabalho que não para de apitar e aquela sensação de que os dias, afinal, têm bem mais do que 24 horas... Neste contexto, sentimo-nos irritados e sem paciência, refilamos com as pessoas à nossa volta e tendemos a descarregar nos cigarros, nos cafés ou no álcool que se revelam, afinal, óptimas formas de anestesiar o stress. Mas serão estas as melhores soluções? Como sobreviver ao stress das férias em família?

Opinião

Kamala, muito mais do que Obama em feminino

Ouvi pela primeira vez o nome de Kamala Harris, agora candidata do Partido Democrático a vice-presidente, quando estive em outubro de 2016 na Califórnia numa reportagem para o DN com a comunidade portuguesa em San Diego. Era como hoje tempo de campanha eleitoral para a Casa Branca, e Hillary Clinton ainda surgia como favorita perante Donald Trump, mas também se renovava o Congresso e Harris destacava-se como candidata ao Senado.

Opinião

O português, o IILP e o sistema global das línguas

Em 2001, na obra Words of World, Abram de Swaan propõe que o "sistema global das línguas" é parte integrante do "sistema mundial", e que este, além da linguística, comporta uma dimensão política, uma económica e uma cultural. Propõe ainda que o sistema global das línguas se organiza em constelação, cujo centro é atualmente o inglês, língua hipercentral. Em torno do inglês gravitam 12 línguas supercentrais (alemão, árabe, chinês, espanhol, francês, hindi, japonês, malaio, português, russo e suaíli), de âmbito internacional, e todas, à exceção do suaíli, com mais de cem milhões de falantes cada. Em torno das línguas supercentrais, gravitam cerca de cem línguas centrais, em conjunto faladas por cerca de 95% da população mundial, que têm em comum o serem frequentemente "línguas nacionais" ("national languages", segundo o autor), oficiais dos países ou regiões onde são faladas, de registo escrito, usadas na comunicação, na política, na administração, na justiça e no ensino. Finalmente, as línguas periféricas ou minoritárias, provavelmente mais de seis mil, constituem cerca de 98% das línguas existentes, mas são, em conjunto, faladas por cerca de 10% da população mundial, línguas de memória, com escassa tradição escrita. Para de Swaan, este sistema assenta no multilinguismo, i.e., grande parte da população mundial fala mais do que uma língua, pelo menos duas de "órbitas" diferentes. Os falantes de uma língua periférica usam em geral uma língua central, quando necessitam de comunicar com falantes de outra língua periférica; os falantes de línguas centrais diferentes recorrem a uma língua supercentral como veicular; e, por fim, o inglês é veicular para os falantes de línguas supercentrais diferentes. A veicularidade constitui-se, portanto, como importante mais-valia para as línguas.

Opinião

Marrocos: Economia e Direitos Humanos

Os campos de refugiados de Tindouf, na Argélia, estão muito perto de Portugal. Tal como o nosso vizinho do sul, o Reino de Marrocos. Laços históricos e de amizade muito profundos ligam os povos de Portugal e de Marrocos, tal como muito bem afirma e escreveu recentemente no Diário de Notícias o politólogo e arabista Raul Braga Pires ("De Mazagão ao Algarve vão 76 marroquinos"). Defende também uma maior aproximação de Portugal a Marrocos, e uma maior presença das empresas portuguesas em território marroquino.

Viriato Soromenho Marques

Babuínos como nós

O grande filósofo grego Epitecto, escravizado e agredido pelo seu proprietário romano, secretário de Nero, lembra-nos como na humanidade o desprezo e o domínio dos outros não precisou do racismo para existir. Ao longo da história, diferentes e muitas vezes convergentes são as formas de xenofobia, de opressão e exclusão do Outro. Apenas a superioridade na componente militar de cada cultura é o fator decisivo que separa vencedores e vencidos. No dealbar do século XVI, os astecas tinham água canalizada na sua capital, mas Cortés tinha armas de fogo. A lança mais comprida é também inseparável da moderna hegemonia planetária do Ocidente.

Adriano Moreira

O exercício internacional do racismo

A independência dos EUA foi decisão de homens que, como diria claramente Thomas Jefferson, assumam o direito à revolta sem assumirem serem eles próprios a longa mão europeia lançada sobre os vencidos, e extintos, aborígenes. De facto, a limpeza do território foi um exercício da diferença de raças, depois assente na importação de negros escravos, cujo estatuto mudaria pela guerra entre norte e sul, sublinhado pelo assassínio do vencedor Lincoln. Referindo-se por então à Europa na terceira pessoa, era como que pressionado pelo separatismo o Ocidente, até que as duas guerras mundiais exigiram as alianças. Daqui em diante, até ao anticolonialismo do século XX, o modelo colonial foi intitulado por Rudyard Kipling como sendo o "fardo do homem branco".

João Melo

Tik-Tok, Tik-Tok, chegou a nova guerra fria

O presidente Donald Trump quer banir a grande rede social chinesa TikTok do território americano (e do resto do mundo?), com receio de que ela esteja a espiar os dados pessoais dos seus utilizadores. Essa decisão junta-se à guerra comercial desencadeada por Washington contra Pequim mal o atual presidente chegou à Casa Branca, bem como aos esforços da atual administração norte-americana para banir a Huawei da telefonia móvel G-5. Não nos esqueçamos, também, da insistência de Trump em responsabilizar a China pela pandemia da covid-19.

Leonídio Paulo Ferreira

Honestidade, decência e moral no país de Amin Maalouf

Escreveu um dia Amin Maalouf sobre os poderosos do Líbano: "Gostaria de que se preocupassem mais com a honestidade e a decência. Só porque têm uma religião, acreditam estar dispensados de ter uma moral." E cito-o nesta altura em que as múltiplas ondas de choque da explosão gigante em Beirute na terça-feira parecem estar a querer destruir o pequeno Líbano, porque se há um libanês famoso e que merece ser ouvido é mesmo Amin Maalouf, antigo repórter de guerra que trocou Beirute por Paris e se transformou em romancista e ensaísta de enorme sucesso.

Opinião

O Líbano sempre sob a ameaça da guerra de todos contra todos 

A explosão em forma de cogumelo transmitida pelas televisões do mundo inteiro certamente contribuiu para o clima de histeria em torno do sucedido nesta terça-feira em Beirute ainda antes de se saber ao certo o número de vítimas (grande!), mas só quem não conhecer a história do pequeno Líbano pode duvidar de como algo que até pode ter sido acidental é naquele país explosivo (e aqui não estou a fazer nenhum jogo de palavras).

Opinião

Caxemira – Sem conseguir respirar

O dia 5 de agosto de 2020 marca o fim de um ano - desde que o governo indiano de Modi revogou ilegalmente o estatuto autónomo de Caxemira e Jammu, região ocupada pela Índia (o único estado de maioria muçulmana reconhecido internacionalmente como território disputado pelas resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas). Foi uma tentativa de anexação de um território disputado, em flagrante violação das resoluções do Conselho de Segurança da ONU e do direito internacional.