Mural

Catarina Pires

Faz-me falta sentir saudades de casa

É tão estranho isto. A minha casa é o meu espaço. Sou eu e os meus amores que estamos ali, aqui, nos livros, nos objetos, nas fotografias, nos sofás, nas almofadas, nas mantas, nas canecas, na desarrumação, na arrumação. Tenho a sorte de ter uma casa grande e confortável que é uma continuação de mim. Tem imensos defeitos. Coisas que, se pudesse, mudava, mas com as quais vivo bem. Não há lugar onde me sinta melhor. E, no entanto, agora que é nela que passo as 24 horas do dia há três semanas, começo a sentir que me sufoca.

Ricardo Santos

Quatro Estrelas Michelin

Foram cinco dias a caminhar entre os 1500 e os 3800 metros de altitude, para cima e para baixo pelos Andes peruanos. À custa de um mosquito e da infeção que causou, os pés já estavam a passar para o azul, depois da vermelhidão e das comichões iniciais. Só doíam ao fim de cada dia do trekking, quando o corpo percebia que era tempo de descansar. A última noite antes de chegar a Aguas Calientes - que hoje se chama Machu Picchu Pueblo - foi passada num baldio de uma pequena aldeia que não sei mesmo se teria nome. Num rés-do-chão com as portas fechadas, Freddy, o guia, montou uma discoteca. A bola de espelhos rodava, a música saía do computador e, na parede, posters de duas impossibilidades por aquelas paragens: Tina Turner e uma praia paradisíaca.

Leonídio Paulo Ferreira

Paris, Texas vale bem uma reportagem

Tinha 13 anos quando se estreou Paris, Texas e claro que me disse mais o cartaz com Nastassja Kinski do que a assinatura de Wim Wenders como realizador. E foi só por ter visto o filme uns anos depois que não repeti, como cheguei a ouvir, que falava de uma viagem do Texas até Paris. Sim, há gente a viajar nele, mas sem sair do Texas, ainda que quando uma das personagens fala de Paris a outra pense logo em França. Estamos todos desculpados.

Catarina Pires

Março: o mês em que deixei de ser só Catarina

Um metro e oitenta, para aí, noventa quilos, para aí. Depois dele, que nasceu em março, com três quilos e quatrocentos e quarenta e nove centímetros, deixei de ser só Catarina para passar a ser também mãe do João. Sempre quis ser mãe, apesar do carrinho de bebé e dos bonecos chorões a minha infância toda a um canto, sem ninguém que brincasse com eles, e naquela manhã de março aconteceu. Nasci outra vez, com o meu primeiro filho.

João Céu e Silva

O mundo seria maior sem pontes

Falar de pontes pode parecer um debate estéril, mas sem elas o mundo seria maior e hoje em dia queremos tudo à distância de um dedo. O que diriam os milhares de pessoas que vão passar o fim de semana ao Algarve se não tivessem a Ponte 25 de Abril para os pôr em casa em poucos minutos e fossem obrigados a ir até Cacilhas e atravessar o rio num ferry, com filas pelo meio ou ir por Vila Franca de Xira e fazer o único bocado de autoestrada que então existia em Portugal?

Carla Bernardino

O corte e a faca

A violência em contexto de intimidade já começa a somar vítimas em 2020. Desde denúncias previamente conhecidas às que ainda estão por denunciar, os cortes no amor feitos à faca começam cada vez mais cedo, na adolescência, e prosseguem vida fora, até ao limite da (des)esperança média de vida. Nesta semana acordámos com mais uma vítima, mulher, de 80 anos, que sucumbiu fatalmente às mãos do marido, também octogenário, e de uma faca. A seis cortes e uma separação decisiva e eterna.

Filipe Gil

Música como nos filmes

Tenho uma relação estranha com a música clássica. De tempos a tempos tenho urgência em ouvir. Seja a conduzir, a escrever ou a ler ou até mesmo nas raras vezes em que cozinho. Serve como uma espécie de "limpador" da música mais plástica que passamos o tempo o ouvir, quer na rádio ou nas listas que o algoritmo do Spotify nos impinge - como se fosse um amigo de longa data. Curiosamente, fui autodidata no que toca a colocar Mozart, Bach, e outros, nos meus ouvidos. Em pequeno, eram os Abba e músicas pop francesas que se ouvia com frequência no gira-discos lá de casa. Clássica nunca.