Marisa Matias

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Fogo amigo

A expressão é eufemística e supostamente refere-se a um engano. Fala-se de fogo amigo para um ataque que vem de dentro, e parece que é o que estamos a assistir em Portugal mesmo antes da paragem sazonal. Senão vejamos. A resposta à crise pandémica trouxe para o centro da política portuguesa a ministra Marta Temido e a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas. Em tempos de enorme incerteza, e não isentas de falhas, tiveram a capacidade de ir respondendo com o que sabiam, gerindo a incerteza e dando respostas de forma clara e corajosa. Essa resposta deu a Costa a popularidade de que tem gozado. É por isso que é tão indigna a mudança de postura de uma parte do partido do Governo que não se coíbe agora de criticar a sua intervenção e de fazer coro com a direita. É esta mudança um acaso? Não parece.

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Globalização infetada

A globalização neoliberal, tal como a conhecemos, determina que as relações sociais são definidas pelo mercado, mas não de qualquer forma. Não basta simplesmente integrar as regras do comércio, importa eliminar todos os obstáculos à livre competição de interesses no mercado. Para se sobreviver neste mundo globalizado, é preciso ser-se mais competitivo do que o vizinho, quer se trate de uma pessoa, de uma empresa ou de um país. A solidariedade social deixa de ser a norma e, se cada pessoa é vista como um "recurso", os cidadãos passam a ser consumidores ou clientes.

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Democracias

Há quase duas semanas foi publicado o relatório anual do Instituto Variedades da Democracia, da Universidade de Gotemburgo, que mostra o declínio das instituições democráticas. Pela primeira vez no século XXI, há mais autocracias do que democracias no mundo. Se há dez anos as democracias atingiam o seu pico em termos globais, agora podemos falar de democracia em apenas 48% dos países, o que corresponde a 46% da população. Estes dados não esmiúçam, contudo, a qualidade das democracias em causa, englobando também os países que avançam de forma galopante no sentido da imposição de limitações de liberdades ou ataques aos media. O facto de países como os Estados Unidos ou o Brasil estarem a resvalar nos seus valores democráticos é um dos sinais mais evidentes deste declínio global. Estes dados são de 2019 e é inevitável perguntar agora: poderá a crise pandémica que vivemos agravar esta situação? Parece que sim.

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Solidariedade

Há cerca de uma semana saiu a público a luta de Catarina Salgueiro Maia no Luxemburgo. A crise pandémica veio agravar as condições precárias de trabalho das empregadas de limpeza e Catarina decidiu levantar a voz, fazer-se ouvir e reivindicar condições de trabalho justas para ela e para todas as suas colegas. Também no Luxemburgo, Adrianni mobilizou várias pessoas numa campanha solidária para que não falte comida aos imigrantes brasileiros que aí estão e não têm papéis. O simples facto de irem ao supermercado pode valer-lhes a deportação. São trabalhadores da construção civil ou da restauração que nunca tiveram contrato assinado e que agora se veem sem poder sequer trazer comida ou medicamentos para casa. São já 15 famílias que pediram ajuda. Adrianni recolhe os alimentos de que lhe chegam e distribui-os pelas famílias. Também em Bruxelas várias famílias ficaram sem qualquer rendimento de um dia para o outro. Algumas delas são famílias de imigrantes portugueses a quem faltou o trabalho, sobretudo nas obras, e, de imediato, o rendimento. Alguns dos patrões regressaram aos seus países e nem sequer avisaram. A Luso Produções e a Casa do Benfica local também se juntaram para recolher alimentos e fazê-los chegar a estas famílias.

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Hanau

Em junho do ano passado, o presidente da província de Kassel sofreu um ataque à porta de sua casa pela sua política de apoio a refugiados. No dia 9 de outubro do ano passado, em Halle, um alemão, de 27 anos, disparou várias vezes à porta da sinagoga da cidade. Seguiu para o cemitério hebraico e disparou, continuou para um restaurante de kebab e disparou. No final, duas pessoas morreram, no que poderia ter sido um massacre. Há cerca de uma semana foi detida uma célula de 15 extremistas alemães que planificavam um atentado em larga escala: um ataque articulado a várias mesquitas no país. Esta semana, foi o horror que se viu em Hanau. Um alemão, de 43 anos, matou nove pessoas e feriu gravemente cinco, antes de se matar, assim como à sua mãe, na sua própria casa. Antes do atentado, publicou um vídeo no Facebook onde detalhava o que ia fazer. As vítimas tinham em comum o facto de serem imigrantes, curdos na sua maioria, um jovem bósnio e uma mulher polaca. Entre as vítimas, estava ainda uma mulher grávida.

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Aqueles que não vemos

A Europa está cheia de pessoas que todos os dias trabalham sem que os seus direitos sejam reconhecidos. Mais do que isso, a Europa está cheia de pessoas que trabalham sem que se saiba que elas existem. Portugal não é exceção. Basta pensarmos nos trabalhadores nos olivais intensivos no Alentejo e nas sucessivas denúncias de violação dos seus direitos para termos apenas um exemplo. É por isso que a luta dos 26 trabalhadores sem papéis da Chronopost Alforteville e a sua vitória desta semana é tão bonita e tão simbólica.

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Emergências

Há dez anos participei, em Copenhaga, na conferência anual das Nações Unidas para o combate às alterações climáticas, a COP15. Na altura, chegava ao fim o Protocolo de Quioto e o desfecho foi uma gigantesca desilusão. Nenhuma alternativa foi criada, nenhuma medida concreta foi avançada e dez anos volvidos aqui seguimos, retidos entre as promessas e o pouco feito. Na semana que antecede mais uma COP, desta feita em Madrid, voltamos às discussões sobre o que está em cima da mesa. Não houve muito caminho feito, mas há hoje a perceção de que vivemos tempos de emergência.

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As vidas dos outros

Poucas votações me ficaram tão presas na pele como esta que hoje, quinta-feira, decorreu no plenário em Estrasburgo. Tratou-se do voto sobre a criação de mecanismos europeus de proteção de vidas no Mediterrâneo. Foi uma negociação longa que colmatou numa votação também ela longa e muito dividida. Quando todas as emendas ao texto proposto já tinham ido a votos e chegámos ao voto final, aconteceu o impensável na minha cabeça. A proposta de salvar vidas foi chumbada por dois votos, 290 contra 288. Um murro no estômago, um nó na garganta. Pensei para comigo: há mesmo uma maioria de representantes que quer que continuem a morrer pessoas no Mediterrâneo? Ainda não recomposta, a bancada da extrema-direita celebrou e gritou entusiasticamente o resultado final. Do outro lado do hemiciclo, silêncio e impotência. A maioria tinha mesmo decidido que quem se faz ao Mediterrâneo não deve ter acesso a salvamento ou resgate, que nenhuma das vidas perdidas contou.

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A invasão ainda não acabou

Há uma semana fomos confrontados com a invasão de territórios curdos no norte da Síria por parte de forças militares turcas. Os Estados Unidos retiraram as suas tropas, na sequência da inenarrável declaração de Trump sobre a falta de apoio dos curdos na Normandia, e as populações de Rojava viram-se, uma vez mais, sob ataque. As tentativas sucessivas de genocídio e de eliminação cultural do povo curdo por parte da Turquia não é, infelizmente, uma novidade, mas não é por repetir-se que se deve naturalizar e abandonar as nossas preocupações.