Luís Castro Mendes

Luís Castro Mendes

Uma casa no norte

Ter biografia é o mesmo que ver reduzir no horizonte o leque dos possíveis. Embaixador em vias de reforma, vejo um comentador considerar, com simpática ironia, que finalmente estou a libertar o animal feroz que há em mim ao escrever estes artigos. Tive a alegria de descobrir que, ao menos no Dr. José Miguel Júdice, tenho um leitor atento. Mas o animal feroz que estaria latente nas possibilidades irrealizadas da minha vida, confesso que não o encontrei ainda.

Luís Castro Mendes

Sobre senadores e rendeiros

Entre nós, os políticos quando envelhecem adquirem um estatuto que, talvez por termos perdido no século passado a tradição bicamaral, costumamos designar como de "senador". Nessa qualidade são ouvidos e com essa aura são considerados. Retirados da política ativa e dos seus compromissos, pensamo-los dotados da sabedoria que a tradição confere à velhice (na tradição medieval a senectus, velhice quente e lúcida, traz consigo a riqueza da experiência, enquanto a decrepitas, velhice fria ou segunda velhice, é o regresso ao balbuciar da infância). Platão, na República, enaltece assim, esta transmissão entre gerações: "Pois eu gosto de conversar com os velhos. Como eles foram à frente de nós na estrada que teremos de percorrer, é dever deles informar-nos se essa estrada é rude e penosa ou agradável e fácil no seu trajeto."