Leonídio Paulo Ferreira

Leonídio Paulo Ferreira

Há muito Japão além de Murakami

Haruki Murakami tornou-se um fenómeno em Portugal desde que cá chegou Norwegian Wood e por isso não surpreenderá que o novo livro, uma coletânea de contos intitulada Primeira Pessoa do Singular, se transforme num campeão de vendas. Confirma a notoriedade da cultura japonesa entre nós, seja a nível popular, como é o caso do manga e do anime, seja num plano mais erudito, basta pensar na retrospetiva sobre Akira Kurosawa que no ano passado esteve no lisboeta Nimas ou o ciclo dedicado a mestres desconhecidos do cinema japonês programado para o Cinema City Alvalade em novembro e depois para o Porto.

Leonídio Paulo Ferreira

Para resolver China vs Taiwan é preciso paciência de chinês

Chiang Kai-shek, o líder nacionalista que fez de Taiwan em 1949 o último reduto da República da China, há muito que deixou de ser uma referência na ilha, apesar de existir em Taipé um memorial que serve de testemunho da vida desta figura incontornável da história chinesa do século XX. Mas Sun Yat-sen, que foi em 1911 o primeiro presidente chinês, continua uma figura venerada em Taiwan, mesmo que cada vez mais sejam sobretudo os nacionalistas do Kuomintang (KMT) a reivindicá-lo, enquanto o Partido Democrático Progressista (DPP), que atualmente governa a ilha, assume uma relação mais distante. Não por coincidência, o KMT é o partido que Sun fundou (e Chiang liderou), enquanto o DPP da presidente Tsai Ing-wen é uma força nascida já na Taiwan democrática e suspeita por Pequim de ambicionar um dia a independência formal da ilha.

Leonídio Paulo Ferreira

Sarkozy e os ideais da República

Numa V República francesa que foi fundada por Charles de Gaulle, uma figura épica, e que teve também entre os seus presidentes um estadista da qualidade de François Mitterrand, não é de crer que Nicolas Sarkozy tenha deixado grande marca. Mas ao ser agora condenado a um ano de prisão por ter ignorado todas as leis (e os alertas que lhe foram chegando) sobre limites de financiamento eleitoral na campanha de 2012, o antigo presidente serve de prova viva da força da ideia republicana de igualdade perante a lei. Até porque quando violou a lei não era um simples candidato, mas sim o próprio chefe do Estado em busca de um segundo mandato.

Leonídio Paulo Ferreira

As Nações Unidas foram uma grande invenção

Marcelo Rebelo de Sousa tem dado a entender nestes seus dias nos Estados Unidos que defenderá "uma visão global" no discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, reunida em Nova Iorque para a sua 76.ª sessão desde a fundação no final da Segunda Guerra Mundial. É a abordagem que se pode esperar do líder do país que fornece de momento o secretário-geral da organização, António Guterres, mas reflete também aquilo que é o posicionamento de Portugal em termos diplomáticos, um Estado defensor do diálogo entre nações e do multilateralismo nas relações internacionais.

Opinião

Punidas pelos crimes dos maridos

Leonor, que assinava como Alcipe e ficou para a história como Marquesa de Alorna, é um grande nome da poesia portuguesa, mas o que muitas vezes se esquece é que viveu a infância e a juventude prisioneira num convento por causa do envolvimento da família no célebre caso dos Távora, uma suposta tentativa de assassínio de D. José por figuras da nobreza. Além de Leonor, também a mãe e a irmã passaram quase duas décadas encerradas num convento lisboeta, até D. Maria I subir ao trono e desfazer muito daquilo que o pai (com a ajuda do Marquês de Pombal) tinha feito.

Leonídio Paulo Ferreira

Parabéns, Brasil. Pelos 199 anos

Começa hoje a contagem decrescente para o bicentenário do Brasil como nação independente. Será certamente um dia de festa esse 7 de setembro de 2022, 200 anos exatos depois do célebre Grito do Ipiranga. Mas hoje, data do 199.º aniversário da histórica decisão de D. Pedro, teme-se que a clivagem política entre apoiantes e opositores do presidente Jair Bolsonaro prejudique o habitual clima festivo no feriado e afete a imagem do Brasil. Não falta quem acuse o chefe do Estado de ser uma ameaça à democracia, não falta também quem aponte o dedo aos críticos do presidente dizendo não respeitarem a escolha democrática feita nas urnas em 2018.

Leonídio Paulo Ferreira

Honrar os soldados mortos no Afeganistão

Sobre a reação dos aliados dos Estados Unidos à retirada do Afeganistão depois de duas décadas de presença militar e mais de 3500 mortos repartidos por vários contingentes, o The Washington Post publicou há dias um artigo intitulado "Valeu a pena? As nações que enviaram tropas para o Afeganistão lidam com dificuldade com a queda de Cabul". E o diário americano dava o exemplo do parlamento britânico, cuja Câmara dos Comuns até interrompeu as férias para debater as razões e as consequências da retirada americana 20 anos depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 contra as Torres Gémeas de Nova Iorque.

Leonídio Paulo Ferreira

Bush-Obama-Trump-Biden

Vamos ser honestos: o mundo aplaudiu quando os Estados Unidos começaram, em outubro de 2001, a bombardear o Afeganistão depois de os talibãs terem recusado entregar Bin Laden. Vivia-se uma onda de solidariedade com a América, após os 3 mil mortos nas Torres Gémeas e no Pentágono, e merecia apoio global a punição à Al-Qaeda, ao seu líder saudita e ao regime fundamentalista islâmico que os protegia. Foi a guerra de um presidente republicano, George W. Bush, mas foi a guerra também da generalidade da classe política americana, com o próprio Joe Biden, senador democrata, a favor. E foi a guerra de muita gente no mundo que, não se identificando com os interesses militares americanos na Ásia Central ou sequer com o combate ao terrorismo global, gostou de ver punido o regime talibã. Nos sete anos de existência, o movimento tinha acumulado um currículo execrável: meninas impedidas de ir à escola, minorias como os hazaras xiitas massacradas, monumentos pré-islâmicos destruídos.

Leonídio Paulo Ferreira

As meninas de Cabul

A voz esganiçada do embaixador dos talibãs em Islamabad, procurando fazer os jornalistas do mundo inteiro acreditar que resistiriam às bombas americanas, é uma das memórias que guardo do mês passado no Paquistão a tentar entrar no Afeganistão a seguir aos atentados de 11 de Setembro de 2001. Percebia-se que o Emirado Islâmico do Afeganistão, protetor de Bin Laden, estava mais isolado do que nunca (só três países o reconheciam) e que os ataques aéreos americanos conjugado com as forças da Aliança do Norte, a oposição afegã, depressa derrotariam os chamados "estudantes de religião".

Leonídio Paulo Ferreira

Ouro português

Há três anos, Pedro Pichardo contava em conversa com Carlos Nogueira, jornalista do DN: "Tive um tio que morreu para salvar Che Guevara no Congo." Foi, aliás, esse o título da entrevista, pois o agora campeão olímpico português abriu-se muito sobre a sua infância e juventude vividas em Cuba, as esperanças e as desilusões com a Revolução, os desaguisados com as autoridades desportivas que o levaram a deixar a ilha e a refazer a vida longe da maior parte da família.

Leonídio Paulo Ferreira

Vacinas dos ricos para os pobres e depressa

Não pode passar despercebido o anúncio nesta semana por Joe Bidem de que os Estados Unidos já ofereceram 110 milhões de vacinas contra a covid-19 a países de médio e baixo rendimento, umas seis dezenas deles, que vão da Zâmbia ao Afeganistão. O presidente americano - que se esforça assim por cumprir o compromisso que os líderes dos países ricos assumiram junto da OMS - acrescentou que já foram comprados mais 500 milhões de vacinas à Pfizer, que deverão ser doadas até final de agosto, num esforço de promover a vacinação global, única forma de controlar a pandemia.