Leonídio Paulo Ferreira

Leonídio Paulo Ferreira

A América é um filme de Hollywood, daqueles mesmo muito bons

Cheguei numa tarde de finais de outubro de 2000 a Hope, Arkansas, num daqueles autocarros metalizados da Greyhound, com o galgo desenhado, que nos habituámos a ver nos filmes passados na América profunda. E sim, estava no Deep South, o sul profundo, e sim, sentia-me numa película de Hollywood. Ali tinha nascido Bill Clinton, que estava então de saída da Casa Branca, ali havia ainda memória da mercearia dos avós, ali se encontrava ainda quem se recordava das bolsas de estudo ganhas pelo menino-prodígio que se fez advogado em Yale, regressou ao Arkansas para ser governador e só voltou a sair do estado natal para ser presidente dos Estados Unidos. O sonho americano existe mesmo e ver como começou naquele caso era o objetivo da reportagem para o DN, na primeira de duas eleições presidenciais que cobri ao serviço do jornal e em que a regra foi evitar Washington.

Leonídio Paulo Ferreira

Primeira médica portuguesa foi em 1889, primeira presidente talvez no século XXI

Já sabia que no século XIX o DN era adepto de frases de grande eloquência, como a de Victor Hugo a gritar "Portugal dá o exemplo à Europa. Desfrutai de antemão essa imensa glória" ou a de D. Luís a proclamar "Nasci português, português quero morrer". Mas num caso era o escritor francês a elogiar a abolição da pena de morte, no outro o rei a desmentir que nos quisesse trocar pelos espanhóis. Desta vez descobri, através de um grupo no Facebook de admiradores de história de Portugal, uma tirada que se podia atribuir à própria redação, a um qualquer jornalista ou editor: "Para trás a touca de rendas e o avental de chita, para trás o tricô e a agulha de marfim, para trás o pot au feu! Honra à ciência! Glória ao bisturi!". Entusiasmava-se assim o jornal com a notícia da primeira médica portuguesa a abrir em 1889 um consultório em Lisboa.

Miraildes Maciel Mota (n. 1978)

A Formiga brasileira que já jogou em sete campeonatos do mundo

Miraildes Maciel Mota arrancava a cabeça das bonecas para delas fazer uma bola e jogar nas ruas do bairro pobre de Salvador onde nasceu em 1978, contou o jornal O Globo num perfil da futebolista brasileira quando esta em 2019 participou no seu sétimo campeonato do mundo, recorde absoluto, seja entre as mulheres ou contando também os homens. Também é dela o recorde de presenças em Jogos Olímpicos, com seis. Aos 42 anos, continua no ativo, envergando agora a camisola do Paris Saint-Germain. E pegando na sua alcunha de Formiga, e somando à sua arte com os pés, os franceses até a começaram a chamar de Formidable.

Opinião

E se um jornal de Goa voltar a escrever em português? Aconteceu

A língua portuguesa ressuscitou este domingo no mais antigo jornal de Goa e isso é uma boa notícia. Será só uma vez por semana, e apenas alguns artigos, mas é significativo que O Heraldo, que está a celebrar 120 anos, diga que o faz a pedido de leitores seus. Não é nostalgia, é sinal de uma redescoberta pelos goeses de uma língua que chegou a ser a de muitas famílias em casa - para algumas continua a ser e há quem cante fado - e que influenciou muito o concanim, a língua local. António Lobo, num artigo publicado já este domingo em português, dá os exemplos de "doens" para doença, também "cazar", "sushegad" ou "xarop".

Leonídio Paulo Ferreira

Foi milagre a terceira guerra mundial não ter acontecido

Que não tenha acontecido uma terceira guerra mundial é o mais extraordinário destes 75 anos, celebrados neste sábado, da rendição anunciada por Hirohito aos japoneses, que pela primeira vez ouviam, via rádio, a voz do imperador. Naquele 15 de agosto de 1945, dias depois das bombas americanas sobre Hiroxima e Nagasáqui, o Japão aceitava a derrota, algo que a sua aliada Alemanha tinha já feito na frente europeia a 8 de maio. Sinal do que viria logo de seguida, americanos e soviéticos olharam para um mapa da Coreia na revista National Geographic e decidiram que o Paralelo 38 serviria para distinguir a quem o exército japonês baseado na península se renderia.

Opinião

Kamala, muito mais do que Obama em feminino

Ouvi pela primeira vez o nome de Kamala Harris, agora candidata do Partido Democrático a vice-presidente, quando estive em outubro de 2016 na Califórnia numa reportagem para o DN com a comunidade portuguesa em San Diego. Era como hoje tempo de campanha eleitoral para a Casa Branca, e Hillary Clinton ainda surgia como favorita perante Donald Trump, mas também se renovava o Congresso e Harris destacava-se como candidata ao Senado.

Leonídio Paulo Ferreira

Quando a grandeza de um país se vê (também) na data das eleições

Os americanos votam sempre na primeira terça-feira a seguir à primeira segunda-feira de novembro. É uma regra aprovada pelo Congresso em 1845 que parece complicada, mas que pode ser traduzida assim: vota-se na primeira terça-feira de novembro desde que não calhe no dia 1, Dia de Todos os Santos. E sim, é um legado dos tempos dos Estados Unidos como sociedade agrária (quarta-feira era dia de mercado, portanto nem pensar, domingo era dia de missa, portanto nem pensar, acabou por ser à terça para dar tempo de ir de casa até ao local de voto, muitas vezes distante).

Opinião

Se vives entre Moscovo e Pequim é bom que entendas russos e chineses

"Um homem não nasce sábio. Ele torna-se sábio após ter visto e passado por muitas coisas, o que o coloca em condição de distinguir o certo do errado", escreveu o poeta Abai, figura maior da literatura cazaque, de quem se celebra agora os 175 anos do nascimento. Educado de início numa madrassa islâmica e depois numa escola russa (era o tempo do Império czarista), falava árabe, persa e outras línguas orientais. Também dominava o russo, claro, e traduziu para o cazaque obras de grandes escritores como Pushkin.

Opinião

O que me contaram os polacos sobre João Paulo II

Bronislaw Misztal, um dos intelectuais que aconselhavam Lech Walesa na liderança do Solidariedade, contou-me um dia como o então cardeal Wojtyla lhe arranjou emprego na Universidade Jaguelónica, em Cracóvia, quando todas as portas lhe estavam fechadas por ordem do regime comunista polaco. O futuro João Paulo II não perguntava se o perseguido era crente ou não, apenas lhe interessava que a perseguição não levasse ninguém a morrer de fome ou a virar costas ao país. E a Jaguelónica, uma das mais antigas universidades europeias, funcionava assim como um refúgio para intelectuais, como o ex-embaixador em Lisboa, que tinham recebido o diploma vermelho, de aluno de exceção, e o bilhete do lobo, que marcava quem era dissidente.

Leonídio Paulo Ferreira

Servir o leitor. A missão do DN desde 1864

Nos próximos tempos cabe-me ser diretor interino do Diário de Notícias, um jornal que vai a caminho do 156.º aniversário. E refiro a antiguidade do jornal, que nasceu no lisboeta Bairro Alto durante a monarquia e noticiou já três mudanças de regime e também a Gripe Espanhola de há um século, para reafirmar um compromisso que vem desde o primeiro dia: estar ao serviço do leitor. Foi isso que fizemos sob o mandato de Ferreira Fernandes e de Catarina Carvalho (que continuam a fazer parte da nossa redação) nestes dois últimos anos e será a regra que continuaremos a respeitar agora e quando a futura direção assumir funções.