Leonídio Paulo Ferreira

Opinião

O Líbano sempre sob a ameaça da guerra de todos contra todos 

A explosão em forma de cogumelo transmitida pelas televisões do mundo inteiro certamente contribuiu para o clima de histeria em torno do sucedido nesta terça-feira em Beirute ainda antes de se saber ao certo o número de vítimas (grande!), mas só quem não conhecer a história do pequeno Líbano pode duvidar de como algo que até pode ter sido acidental é naquele país explosivo (e aqui não estou a fazer nenhum jogo de palavras).

Leonídio Paulo Ferreira

Europa seis meses nas mãos de Merkel, ou seja, bem entregue

Bem me disse o biógrafo da então candidata democrata-cristã a chanceler que Ângela Merkel era capaz de surpreender. E aconteceu logo naquelas eleições alemãs de 2005, que cobri para o DN, pois derrotou o social-democrata Gerhard Schröder e assumiu a liderança do país, posição em que se encontra até hoje, depois de mais três vitórias. Que seja a Alemanha, ou melhor ela, a encabeçar a reação europeia à crise gerada pela pandemia, é pois um sinal de esperança para todos.

Opinião

Portugal tem as mais belas bibliotecas do mundo, uma delas sobre rodas

É estranho isto de as estatísticas afirmarem que os portugueses leem pouco e no entanto terem das mais belas bibliotecas do mundo. Digo isto depois de há dias ter visitado uma vez mais a Joanina em Coimbra e relembrando-me de como me impressionou o Real Gabinete Português de Leitura que os emigrantes construíram no Rio de Janeiro, mas também podia dizer isto porque a revista Vogue, na segunda-feira, publicou a sua escolha das "15 mais espetaculares bibliotecas do mundo". Na lista estão a Richelieu, em Paris, a do Congresso, em Washington, mas também a Joanina, a de Mafra e o Real Gabinete, ou seja três portuguesas!

Leonídio Paulo Ferreira

Obrigado, Leslie, por ensinares português aí na América

Gostava de vos apresentar Leslie Ribeiro Vincente, uma luso-americana de New Bedford que está a conseguir que filhos e netos de portugueses aprendam a língua das suas raízes. Falo em apresentar, mas na verdade já aqui escrevi sobre a professora da Discovery Language Academy, numa reportagem feita na primavera de 2017 sobre portugueses nos Estados Unidos. Na altura contei como esta mãe de quatro filhos, que ficou em casa a cuidar da família enquanto o marido polícia garantia o sustento de todos, aproveitou a chegada a adulto do mais novo e voltou a estudar e com tanto entusiasmo que já fez até doutoramento.

Leonídio Paulo Ferreira

O dia que fez o meu pai voltar da guerra

Faço parte dos portugueses que nasceram antes do 25 de Abril, hoje menos de metade da população, mesmo que só tivesse dois anos e meio no momento da Revolução. Não tenho memórias daquele dia, mas sei o quanto foi importante para mim: primeiro que tudo, permitiu que o meu pai voltasse para casa, ele que dois anos antes tinha sido mandado para Moçambique combater; depois, permitiu que o meu país se tornasse melhor, não só livre como moderno, sem império mas mais próspero, com o contributo também de quem perdeu tudo na descolonização tardia e teve de refazer a vida. Temos todos a agradecer à Revolução de 1974, por exemplo, este Serviço Nacional de Saúde que tão dignamente tem-se comportado durante a atual pandemia, garantindo que um doente - incluindo os estrangeiros que escolheram viver entre nós - quando entra no hospital não tenha de se preocupar com o plafond do cartão de crédito, só em ser curado.

Leonídio Paulo Ferreira

China e diplomacia das máscaras

Foi no Le Monde que li há dias a expressão "geopolítica da máscara", a lembrar-me a tradicional prática do governo chinês de oferecer pandas a líderes estrangeiros quando quer melhorar as relações (Richard Nixon recebeu um casal de Mao Tsé-tung, e assim começou a diplomacia do panda). Desta vez, a oferta é de máscaras cirúrgicas, destinadas a proteger do novo coronavírus que infeta já mais de uma centena de países e que foi de início detetado na cidade de Wuhan, metrópole de 11 milhões de habitantes no coração da China. Japão e Coreia do Sul foram dos primeiros destinatários das máscaras chinesas, agradecimento porque tinham sido esses vizinhos (e Irão, note-se) a enviar antes as máscaras que tanta falta faziam à China, sobretudo na província de Hubei, que com 60 milhões de habitantes é tão populosa como Itália.

Opinião

O "Coronário" Trump da Doutrina Monroe

Numa célebre mensagem ao Congresso em dezembro de 1823, James Monroe falou de um sistema americano por oposição a um sistema europeu e como os Estados Unidos se viam como o garante do primeiro. Acrescente-se que o presidente americano destinava as suas palavras sobretudo à hipótese de os países da Santa Aliança tentarem intervir nas Américas para devolver as colónias rebeldes à Coroa Espanhola, e era mais uma advertência do que uma ameaça dada a fraqueza militar relativa dos Estados Unidos na época.

Leonídio Paulo Ferreira

Quando os brasileiros a pensar são os quintos melhores do mundo

Getúlio Vargas é um tão nome prestigiado como polémico no Brasil, o presidente que chegou a ser ditador, mas que eleito uma segunda vez para o cargo não aguentou a ideia de um novo golpe depô-lo e antes disso deu um tiro no coração. Visitei um dia no Rio de Janeiro o Palácio do Catete, antiga sede da presidência, e vi o quarto onde Getúlio (poucos são os políticos aos quais o povo trata pelo primeiro nome) se suicidou em 1954. Do seu legado consta muita legislação social, também a decisão de enviar tropas combater os nazis na Europa, certamente o lugar do Brasil entre os vencedores da Segunda Guerra Mundial e um papel-chave na criação das Nações Unidas. Não teve o gigante lusófono direto a um dos cinco assentos permanentes no Conselho de Segurança, mas a tradição compensou-o com o privilégio de ter o primeiro discurso na Assembleia Geral, que se reúne todos os anos.

Leonídio Paulo Ferreira

O caos pós-Kadhafi, como o caos pós-Saddam

Entre os ditadores derrubados pela Primavera Árabe de 2011, o líbio Muammar Kadhafi foi o que teve o destino mais trágico: nem o exílio, como o tunisino Ben Ali, nem a prisão, como o egípcio Hosni Mubarak. Teve um fim bem mais parecido com o do líder iraquiano Saddam Hussein, derrotado, capturado e executado quase uma década antes. A revolta contra Kadhafi acabou em morte, por linchamento, e com os derradeiros momentos filmados por telemóveis. O rosto tanto de estupefação como de horror do governante líbio impressionava quem quer que visse as imagens e estas foram transmitidas pelas televisões do mundo inteiro. Também a morte de Saddam foi filmada.