Leonídio Paulo Ferreira

Editorial

Portugal e os portugueses. Somos feitos de quê, afinal?

"Dando a Portugal um lugar de honra no meu livro não fiz mais do que prestar-lhe justiça" foi o título de uma entrevista no DN, há uns anos, a François Reynaert, que contrariou tudo o que é tradição na historiografia francesa e sobretudo na anglo-saxónica, que destacam sempre mais as façanhas de Jean-François de La Pérouse e de James Cook, no século XVIII, do que os feitos de Bartolomeu Dias, Vasco da Gama ou Fernão de Magalhães dois séculos antes. O livro de Reynaert, para não deixar dúvidas do alcance das suas palavras, tem como título A Grande História do Mundo.

Leonídio Paulo Ferreira

Biden, o unificador

Ouvi o discurso unificador de Biden e pensei no nome do país que preside desde ontem: Estados Unidos... da América. Um nome que é em si uma proclamação, que precedeu em alguns meses a Declaração de Independência de 4 de julho de 1776 e foi oficializado nesse mesmo ano, ainda a luta das 13 colónias contra a Coroa Britânica era de sucesso incerto. Uma luta que juntava rebeldes de sociedades que, tirando o colonizador (e alguma proximidade geográfica), pouco tinham em comum. Olhemos para Massachusetts e Virgínia, por exemplo, o primeiro virado para o comércio atlântico, o segundo baseado na economia de plantação; o primeiro abolicionista precoce, no século XVIII, o segundo férreo esclavagista, com Richmond a servir de capital à Confederação na Guerra Civil.

Leonídio Paulo Ferreira

O segundo incêndio do Capitólio

Num final de tarde de há mais de dois séculos, o Capitólio em Washington foi posto a arder. A jovem nação americana calculara mal a relação de forças com a Grã-Bretanha, antigo colonizador, e numa guerra que durou entre 1812 e 1814 não só ambicionara anexar o Canadá como, frustrada pelo fracasso, incendiara York, a atual Toronto. Em retaliação, os britânicos desembarcaram no Maryland, derrotaram a tentativa de resistência dos americanos e marcharam sobre a capital. O Capitólio, ainda em construção mas já sede do Senado e da Câmara dos Representantes, foi deixado em chamas, e a Casa Branca também.

Leonídio Paulo Ferreira

Abolição da pena de morte avança, de P de Portugal a C de Cazaquistão

Ainda há dias a ministra da Justiça recordou aqui no DN, na edição de aniversário, a magnífica carta a elogiar Portugal pela abolição da pena de morte que o escritor Victor Hugo fez publicar no jornal em 1867. E quando há quatro anos se celebrou século e meio dessa decisão pioneira de Portugal, que tanto entusiasmou o romancista francês e também meia Europa, coube à própria Francisca Van Dunem fazer um discurso solene de elogio ao país, pois hoje não há dúvida de que o caminho para a plena afirmação do Estado de direito passa pela renúncia do Estado a matar.

Opinião

Macron e Erdogan ao contrário de Francisco I e Solimão, o Magnífico

Apoio a lados opostos nas guerras civis na Síria e na Líbia, exibição turca de força marítima junto às ilhas gregas e a Chipre e resposta francesa com envio de navios, posições opostas no conflito no Nagorno-Karabakh entre azeris e arménios, têm sido mesmo muitas as situações de tensão recentes entre Ancara e Paris. Não só os dois países, ambos aliados na NATO, parecem destinados ao choque de interesses no Médio Oriente, no Mediterrâneo e até no Cáucaso (Nagorno), como os seus presidentes deixaram a relação pessoal degradar -se ao ponto de, a propósito da defesa por Emmanuel Macron do laicismo após o assassínio de um professor que mostrou cartoons sobre Maomé, o turco Recep Erdogan ter dito que o homólogo francês precisava de "um exame de saúde mental". "Grosseiro", foi a resposta da presidência francesa, classificando o estilo dos ataques do líder que nas últimas duas décadas tem dominado a vida política turca.

Leonídio Paulo Ferreira

Até onde irá a paciência de Biden com a China?

Em resposta a um pedido de Richard Nixon para comentar a Revolução Francesa, o primeiro-ministro Zhou Enlai terá respondido "ainda é cedo para avaliar". Sabe-se hoje que o delicioso episódio ocorrido durante a histórica visita a Pequim em 1972 é de certa forma falso, pois o intérprete do presidente americano veio há pouco tempo esclarecer que tudo não passou de um mal-entendido, já que o primeiro-ministro chinês achou que Nixon se referia ao Maio de 68 e não aos acontecimentos de 1789. Mas, como dizem os italianos com certa graça, se non è vero, è ben trovato, pois exemplifica a proverbial paciência chinesa, e afinal uma civilização com mais de 3000 anos não se pode basear numa ideia de pressa.

Opinião

Trump vs Kamala em 2024

Num célebre debate televisivo em 1984, em vésperas de ser reeleito, Ronald Reagan, de 73 anos, responde com uma tirada genial a uma pergunta do moderador sobre a idade certa para se ser presidente. Diz o candidato republicano, antigo ator, garantir que não fará da juventude do adversário um tema da campanha. Até Walter Mondale, 17 anos mais novo, não consegue prender o riso. Nas urnas o democrata acaba esmagado pelo mais velho presidente dos Estados Unidos, título disputado por Donald Trump, se consideramos a chegada à Casa Branca, pois tinha 70, mas agora batido sem nuances por Joe Biden, que terá 78 anos no dia da tomada de posse.

Leonídio Paulo Ferreira

O Arizona vingou John McCain, mas chegará para derrotar Trump?

Se se confirmar a vitória de Joe Biden no Arizona (até a Fox a prevê), o primeiro estado a trocar de partido entre 2016 e 2020 nesta noite eleitoral, o grande responsável será alguém que morreu há dois anos: John McCain, senador durante três décadas e candidato republicano derrotado por Barack Obama nas presidenciais de 2008. Donald Trump maltratou em vida McCain, o eleitorado do Arizona não perdoou neste 3 de novembro.

Leonídio Paulo Ferreira

Soares, Cavaco e Eanes? Um maior do que os outros?

Quem foi o político de maior sucesso neste nosso quase meio século de democracia? Pelos votos, afinal o direito que todos conquistámos a 25 de abril de 1974, pode arriscar-se dizer Cavaco Silva, que é neste sábado entrevistado no DN, fotografado frente ao CCB, que mandou construir na década em que foi primeiro-ministro de Portugal. Afinal, o professor de Finanças, hoje com 81 anos, foi seis vezes a votos a nível nacional e ganhou cinco. E dessas cinco vitórias quatro foram com mais de 50% dos votos: duas como candidato do PSD à chefia do governo (1987 e 1991), duas como candidato presidencial (2006 e 2011).

Leonídio Paulo Ferreira

Quando os portugueses se casavam no Irão

Houve portugueses a casar-se com iranianas no século XVI e a estabelecer-se na antiga Pérsia, contou-me Mohammad Jafar Chamankar, académico que tem investigado as relações entre o Irão e Portugal, velhas de 500 anos, como assinalou nesta semana em Lisboa uma conferência na Torre do Tombo. Esta faceta da miscigenação portuguesa no Médio Oriente é muita vezes relegada para um plano secundário por feitos como a conquista de Ormuz, que fez do golfo Pérsico um mar português durante um século, mas não deixa de dizer muito sobre o peculiar império que, graças ao domínio da tecnologia naval e a uma bravura admirável, o país foi construindo.

Leonídio Paulo Ferreira

Suu Kyi, a minha heroína que já não o é

Li há dias que um barco com refugiados rohingyas tinha chegado à ilha de Sumatra, na Indonésia, depois de sete meses em alto mar. Sete meses! E quase em simultâneo, o The New York Times publicou o testemunho de dois soldados birmaneses sobre os assassínios e as violações que lhes foi ordenado fazer contra esse pequeno povo muçulmano, cerca de um milhão de pessoas, três quartos das quais vivem hoje em campos de refugiados no Bangladesh depois de fugirem das suas cidades, vilas e aldeias no estado de Rakhine, na costa do Índico. Sem surpresa, pois, também há dias o Parlamento Europeu decidiu retirar o Prémio Sakharov para os Direitos Humanos a Aung San Suu Kyi, a líder da Birmânia, que até agora pouco ou nada fez para proteger os rohingyas da violência dos militares e dos extremistas budistas e chegou a ir em 2019 a Haia, ao Tribunal Internacional, responder por acusações de genocídio.

Leonídio Paulo Ferreira

Abe sai mas ambições do Japão ficam

Os oito anos de Shinzo Abe como primeiro-ministro chegam e bastam para lhe dar o recorde de longevidade política no Japão pós-Segunda Guerra Mundial. E se parece pouco quando comparado com o tempo de serviço do russo Vladimir Putin, do turco Recep Erdogan ou da alemã Angela Merkel, a verdade é que dos participantes da cimeira do G20 de 2013, a primeira desta governação agora finda, só continuam no poder os três líderes já referidos e o chinês Xi Jinping, então também um estreante. Ou seja, Abe era um veterano da política internacional, tanto mais que tinha tido uma anterior experiência como primeiro-ministro em 2006-2007. E o Japão beneficiava da visibilidade do seu governante, que além do legado económico deixa também um caminho de afirmação do país como potência, pois foi com ele que dois modernos porta-helicópteros entraram ao serviço, e foi também por decisão sua que um deles, o Izumo, começou a ser transformado num porta-aviões. É uma classe de navio que a Marinha japonesa não possui desde a derrota militar em 1945 e mostra até que ponto existe hoje tensão na Ásia Oriental.

Leonídio Paulo Ferreira

Nem os 7-0 deitaram o Vitória ao chão!

Fiz duas reportagens de futebol internacional na minha carreira: uma com o Sporting em Jerusalém, porque era época de atentados e o diretor de então achou que eu era homem para fazer as duas coberturas, a do jogo da UEFA e a do conflito israelo-árabe; a segunda foi com o Vitória de Setúbal em Roma, ainda hoje penso que o Mário Bettencourt Resendes e o António Ribeiro Ferreira (diretor adjunto) me quiserem dar uma prenda, por eu ser do clube e este há mais de duas décadas estar arredado das competições europeias.