Leonídio Paulo Ferreira

Opinião

Quando um rei é o elefante na sala

Cruzei-me com Juan Carlos e Shakira quase em simultâneo, em San Salvador, no Sheraton, um daqueles hotéis de cinco estrelas em cujos lobbies, durante certos eventos, as fronteiras entre as celebridades e os comuns mortais se dissipam, em especial se o mortal for um jornalista estrangeiro em reportagem. Não fosse Luís Amado, então ministro dos Negócios Estrangeiros, me acenar logo que entrei, mostrando onde estava sentado com o primeiro-ministro José Sócrates, e ainda teria pensado se não valia a pena tentar uma entrevista com a cantora colombiana, já mítica em 2008. Mas em relação ao rei de Espanha nem tal me passou pela cabeça: sabia que não era suposto os tais comuns mortais (neste caso, jornalista ainda pior) dirigirem a palavra ao monarca, quanto mais esperar que este lhes respondesse.

Leonídio Paulo Ferreira

China e diplomacia das máscaras

Foi no Le Monde que li há dias a expressão "geopolítica da máscara", a lembrar-me a tradicional prática do governo chinês de oferecer pandas a líderes estrangeiros quando quer melhorar as relações (Richard Nixon recebeu um casal de Mao Tsé-tung, e assim começou a diplomacia do panda). Desta vez, a oferta é de máscaras cirúrgicas, destinadas a proteger do novo coronavírus que infeta já mais de uma centena de países e que foi de início detetado na cidade de Wuhan, metrópole de 11 milhões de habitantes no coração da China. Japão e Coreia do Sul foram dos primeiros destinatários das máscaras chinesas, agradecimento porque tinham sido esses vizinhos (e Irão, note-se) a enviar antes as máscaras que tanta falta faziam à China, sobretudo na província de Hubei, que com 60 milhões de habitantes é tão populosa como Itália.

Leonídio Paulo Ferreira

Quando os brasileiros a pensar são os quintos melhores do mundo

Getúlio Vargas é um tão nome prestigiado como polémico no Brasil, o presidente que chegou a ser ditador, mas que eleito uma segunda vez para o cargo não aguentou a ideia de um novo golpe depô-lo e antes disso deu um tiro no coração. Visitei um dia no Rio de Janeiro o Palácio do Catete, antiga sede da presidência, e vi o quarto onde Getúlio (poucos são os políticos aos quais o povo trata pelo primeiro nome) se suicidou em 1954. Do seu legado consta muita legislação social, também a decisão de enviar tropas combater os nazis na Europa, certamente o lugar do Brasil entre os vencedores da Segunda Guerra Mundial e um papel-chave na criação das Nações Unidas. Não teve o gigante lusófono direto a um dos cinco assentos permanentes no Conselho de Segurança, mas a tradição compensou-o com o privilégio de ter o primeiro discurso na Assembleia Geral, que se reúne todos os anos.

Leonídio Paulo Ferreira

O caos pós-Kadhafi, como o caos pós-Saddam

Entre os ditadores derrubados pela Primavera Árabe de 2011, o líbio Muammar Kadhafi foi o que teve o destino mais trágico: nem o exílio, como o tunisino Ben Ali, nem a prisão, como o egípcio Hosni Mubarak. Teve um fim bem mais parecido com o do líder iraquiano Saddam Hussein, derrotado, capturado e executado quase uma década antes. A revolta contra Kadhafi acabou em morte, por linchamento, e com os derradeiros momentos filmados por telemóveis. O rosto tanto de estupefação como de horror do governante líbio impressionava quem quer que visse as imagens e estas foram transmitidas pelas televisões do mundo inteiro. Também a morte de Saddam foi filmada.

Leonídio Paulo Ferreira

Boris quase tão forte como Thatcher, mas problema agora é mais a Escócia do que a UE

Boris Johnson deve ter dado pulos de alegria quando viu as primeiras previsões dos resultados eleitorais: 368 deputados para os conservadores, muito melhor do que conseguiu Theresa May em 2017, melhor mesmo do que conseguiu David Cameron em 2015. Na realidade, a confirmarem-se estes números ou próximos, é a maior vitória dos tories desde 1987, quando Margaret Thatcher conseguiu o seu terceiro mandato.

Leonídio Paulo Ferreira

China bate EUA e já é o gigante diplomático

A China acaba de ultrapassar os EUA como a maior potência diplomática se tivermos em conta o número de representações no exterior, 276 no total, incluindo 169 embaixadas. Os americanos, líderes desde longa data, são agora segundos, com 273, das quais 168 com estatuto de embaixadas. O terceiro lugar é ocupado pela França, e Portugal é um muito honrado 23.º, segundo o Global Diplomacy Index do Lowy Institute, think tank australiano.

Leonídio Paulo Ferreira

Cuidado com a máquina multiplicadora de países

Não vale a pena procurar a Finlândia, a Polónia, a Albânia, a Eslovénia, nem sequer a Noruega ou a Irlanda com cores próprias. Quem olhar para um mapa da Europa datado de 1900 vai ter dificuldade em contar 20 países independentes, e de certeza não encontrará 24, que será o número daqueles que participarão no próximo ano na fase final no Europeu de Futebol. Hoje o continente conta com mais de meia centena de países, com a última vaga de novidades a ter surgido na década de 1990, quando três federações comunistas implodiram, uma delas, a Jugoslávia, de forma violenta, outra, a Checoslováquia, por via pacífica, e a terceira, a gigantesca União Soviética, de forma híbrida, com conflitos nacionalistas mais ou menos localizados, alguns a perdurar até hoje. Sim, houve a reunificação alemã, uma exceção.

Leonídio Paulo Ferreira

Nuclear: quem tem, quem deixou de ter e quem quer

Guerrilha comunista na Grécia, bloqueio soviético de Berlim Ocidental ou Guerra da Coreia são alguns dos acontecimentos possíveis para datar o início da Guerra Fria, que alguns até fazem remontar à partilha da Europa em esferas de influência por Churchill e Estaline ainda o nazismo não tinha sido derrotado. Mas talvez 29 de agosto de 1949, faz agora 70 anos, seja a melhor opção, afinal nesse dia a União Soviética fez explodir a sua primeira bomba atómica e o monopólio da arma pelos Estados Unidos desapareceu. Sim, foi o teste em Semipalatinsk que estabeleceu o tal equilíbrio do terror, primeiro atómico e depois nuclear, que obrigou as duas superpotências a desistirem de uma Guerra Quente.

Opinião

Contei à minha filha que os nossos impostos salvaram mestre Gregório

Foi o Estado, fomos todos nós, que salvámos os sete pescadores do barco atuneiro "Sete Mares" que naufragou ao largo da Madeira. O avião da FAP que os avistou e a lancha NRP Hidra que, apoiada pelo navio-patrulha NRP Tejo, os resgatou sábado foram os protagonistas, e as duas tripulações os heróis do dia, mas o essencial é que o salvamento não foi fortuito, mas sim resultado de um esforço coletivo do qual todos nos devemos orgulhar.

Opinião

Como é que se diz ingratos em grego?*

Há muitas explicações para a derrota eleitoral do Syriza. Vão desde o acordo sobre o nome da Macedónia do Norte até à má gestão do combate aos mortíferos fogos de 2018, passando pelas acusações de ter prometido resistir à União Europeia e no final acabar por negociar com esta um terceiro resgate à Grécia. Mas, na realidade, a Alexis Tsipras o eleitorado fez pagar o ter sido o rosto da austeridade, necessária mas brutal num país que é mais pobre do que durante anos as estatísticas nacionais fizeram crer. E Kyriakos Mitsotakis surge como o rosto da esperança, um político em teoria sem culpas na crise, se bem que o mesmo não se pode dizer da Nova Democracia, que ganhou com cerca de 40% e que graças ao bónus de deputados para o vencedor deverá ter maioria absoluta.

Leonídio Paulo Ferreira

Rainha conheceu mais presidentes americanos do que Fidel. Com Trump são já...

Isabel II encontrou-se agora pela segunda vez com Donald Trump e o mínimo que se pode dizer é que a vida de rainha a preparou bem para lidar com presidentes americanos. Conheceu pessoalmente 12, incluindo Harry Truman quando ainda era princesa. E pode gabar-se de ter dançado com Gerald Ford e até andado a cavalo com Ronald Reagan, como mostram fotos de época tiradas em 1982 no castelo de Windsor. Curiosamente, a monarca britânica nunca se encontrou com Lyndon Johnson, presidente entre 1963 e 1969.