Leonídio Paulo Ferreira

Opinião

O regresso dos talibãs

Ao contrário da intervenção militar de 2003 no Iraque que levou à queda de Saddam Hussein, a guerra que os americanos iniciaram no Afeganistão dois anos antes nunca teve a legitimidade posta em causa. Afinal os talibãs eram os anfitriões de Ussama bin Laden, o responsável pelos atentados de 11 de setembro de 2001 contra as Torres Gémeas de Nova Iorque e o Pentágono em Washington, que mataram quase três mil pessoas. E o ataque lançado no início de outubro de 2001 foi precedido de pedidos dos Estados Unidos para que o regime afegão entregasse o chefe da Al-Qaeda, podendo assim evitar a punição, que chegou primeiro com bombardeamentos aéreos e mísseis e finalmente através de tropas no terreno.

Leonídio Paulo Ferreira

Falcão palestiniano

Condenado a cinco penas de prisão perpétua por terrorismo em 2004, Marwan Barghouti tem dedicado os anos detido em Israel a aprender hebraico. Dedicar-se à língua do inimigo é um pormenor que aqueles que o comparam a Nelson Mandela gostam de realçar, pois nas quase três décadas passadas atrás das grades o político sul-africano, campeão da luta contra o apartheid, também aprendeu africânder, o idioma derivado do holandês que falavam os mais convictos defensores do regime racista branco que durou oficialmente até às eleições multirraciais de 1994.

Leonídio Paulo Ferreira

O nuclear britânico

O anúncio do reforço do arsenal nuclear britânico é um sinal das ambições do Reino Unido, com Boris Johnson a querer afirmar o poderio tecnológico do país depois da saída da UE e ao mesmo tempo mostrar que não pretende apoiar-se em demasia no aliado especial que dá pelo nome de EUA. Mais do que o efeito prático de passar de um objetivo de redução para 180 ogivas (definido em 2010) para um objetivo de incremento para 260 a partir das 195 atuais, a decisão do primeiro-ministro mostra uma determinação de o Reino Unido depender sobretudo de si, que tem raízes na experiência histórica do país e não tão longínqua assim.

Leonídio Paulo Ferreira

D. Aida, 105 anos, falante de patoá

Soube ontem da morte de Aida de Jesus, aos 105 anos, e recordei-me com grande carinho das aulas de Antropologia no ISCSP, em que a professora Ana Maria Amaro fazia às vezes questão de nos mostrar um pouco do seu patoá, crioulo macaense falado durante quatro séculos e hoje ameaçado de extinção. Ainda há dois anos o South China Morning Post publicou uma reportagem sobre essa língua que mistura o português e o cantonês e palavras vindas de outras partes da Ásia por onde andámos desde os tempos de Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque. A ilustrar o artigo do grande jornal de Hong Kong estava uma fotografia de Aida de Jesus sorridente, na hoje cidade dos casinos. E o título era "O patoá, a língua moribunda de Macau, e a macaense de 103 anos que a fala".

Leonídio Paulo Ferreira

Cenoura e cacete na versão Biden

Theodore Roosevelt destacou-se pela fórmula da cenoura e do cacete que usou para impor a influência dos Estados Unidos nas Caraíbas na primeira década do século XX. Joe Biden, o mais velho presidente americano, parece estar a seguir a fórmula do mais jovem de todos os antecessores, pelo menos em relação às ambições nucleares do Irão. E o ataque de sexta-feira contra milícias às ordens de Teerão no leste da Síria bem pode ser entendido como uma cacetada dada depois de os ayatollahs terem rejeitado as primeiras cenouras oferecidas pelo novo presidente. Estas vão da reabertura de negociações multinacionais até uma revisão das sanções repostas durante a presidência de Donald Trump, passando pela facilitação das viagens de diplomatas iranianos às Nações Unidas.

Leonídio Paulo Ferreira

Com Jacinda não se brinca, com a covid também não

Lembra-se de Jacinda Ardern, a primeira-ministra neozelandesa que ganhou a admiração ao ter um bebé já no cargo (depois de se ter zangado durante a campanha com as perguntas sobre os seus planos de maternidade) e pedir ao marido para ser ele a tirar o essencial da licença? E que também foi extraordinária a conciliar a sociedade depois de um extremista ter atacado duas mesquitas e matado mais de 50 muçulmanos? E depois se destacou pela forma decidida como combateu a covid-19? Ora, Jacinda continua uma mulher de armas: agora ordenou o confinamento total (tirando farmácias e supermercados) em Auckland durante três dias após terem surgido três novos casos, com os infetados a serem um casal e a filha. Não brinca em serviço esta governante. E faz muito bem.

Leonídio Paulo Ferreira

Eanes, o Império e a Catalunha

"Sem Império dificilmente teríamos mantido a independência em certas épocas. Seríamos uma Catalunha "menos"", disse o general Eanes, reagindo à retirada dos brasões coloniais da Praça do Império. Mesmo proferida noutro contexto, a afirmação do antigo Presidente sobressai quando se está em fim de semana eleitoral na Catalunha, região de Espanha em que, em vez de escolher um governo, cada votação se tornou um braço-de-ferro entre os campos espanholista e independentista. O eleitorado costuma partir-se quase ao meio, mas o sistema tende a dar uma ligeira maioria no parlamento de Barcelona à soma dos partidos que defendem o corte com Madrid e desta vez não deverá ser diferente, mesmo que o socialista Illa, até há pouco ministro espanhol da Saúde, seja o favorito.

Opinião

Apostar na Índia para contrabalançar a China

No dia em que visitei pela primeira vez o Lok Sabha, a câmara baixa do parlamento indiano, percebi a razão de a democracia não só ter sido escolhida pelos pais fundadores Nehru, Gandhi e Patel em 1947, ano do fim da colonização britânica, como ter sobrevivido nestes já 74 anos de independência. A multiplicidade de tipos físicos, também de vestuário, que vi nos deputados corresponde a uma diversidade na população, com religiões e línguas a coexistir numa certa harmonia. Ao contrário do vizinho Paquistão, independente na mesmíssima meia noite de 14 para 15 de agosto, nunca na Índia os militares ousaram tirar o poder aos civis.

Opinião

E se a amizade de um sultão do século XVIII contar mais para a geopolítica do que Trump?

Não faltará quem queira ver no acordo de cooperação militar assinado em outubro entre o ministro da Defesa marroquino e o seu homólogo americano a explicação para o reconhecimento, dois meses depois, por Washington, da soberania de Rabat sobre o Sara Ocidental. Claro que a venda de armas é importante para a política externa americana, e Donald Trump começou logo a sua presidência com um gigantesco contrato assinado com a Arábia Saudita, assim como também serve os países compradores porque os coloca sob uma espécie de proteção dos Estados Unidos. Mas a estreiteza das relações entre os Estados Unidos e Marrocos não tem dois meses, nem sequer duas décadas (há quem note a cooperação com a CIA nos interrogatórios aos prisioneiros da Al-Qaeda capturados no Afeganistão e no Iraque), mas sim mais de dois séculos.

Leonídio Paulo Ferreira

O segundo incêndio do Capitólio

Num final de tarde de há mais de dois séculos, o Capitólio em Washington foi posto a arder. A jovem nação americana calculara mal a relação de forças com a Grã-Bretanha, antigo colonizador, e numa guerra que durou entre 1812 e 1814 não só ambicionara anexar o Canadá como, frustrada pelo fracasso, incendiara York, a atual Toronto. Em retaliação, os britânicos desembarcaram no Maryland, derrotaram a tentativa de resistência dos americanos e marcharam sobre a capital. O Capitólio, ainda em construção mas já sede do Senado e da Câmara dos Representantes, foi deixado em chamas, e a Casa Branca também.

Leonídio Paulo Ferreira

Biden fecha o túnel entre a Casa Branca e o Vaticano

Al Smith em 1928 tanto foi diabolizado como o anticristo como acusado de querer construir um túnel entre a Casa Branca e o Vaticano e perdeu as presidenciais, John Kennedy foi eleito em 1960 depois de obrigado a garantir que a sua lealdade era à América e não ao Papa, mas Joe Biden venceu agora as eleições e pouco destaque se deu ao facto de ser católico, na verdade apenas o segundo a ser presidente em quase dois séculos e meio de história.

Leonídio Paulo Ferreira

Ainda Biden não se sentou e Xi já lhe está a fazer xeque

Ainda é cedo para perceber o alcance do novo acordo comercial patrocinado pela China e que abrange uma quinzena de países da Ásia-Pacífico, incluindo Japão, Coreia do Sul e Austrália, mas basta envolver 2,2 mil milhões de consumidores, um terço do comércio global e um quarto do PIB mundial para ser tido em conta, incluindo nos Estados Unidos, onde se está a dois meses de Joe Biden assumir a presidência, com o contrariar da ascensão chinesa como principal desafio, uma das poucas linhas de continuidade com o derrotado Donald Trump.

Leonídio Paulo Ferreira

Até onde irá a paciência de Biden com a China?

Em resposta a um pedido de Richard Nixon para comentar a Revolução Francesa, o primeiro-ministro Zhou Enlai terá respondido "ainda é cedo para avaliar". Sabe-se hoje que o delicioso episódio ocorrido durante a histórica visita a Pequim em 1972 é de certa forma falso, pois o intérprete do presidente americano veio há pouco tempo esclarecer que tudo não passou de um mal-entendido, já que o primeiro-ministro chinês achou que Nixon se referia ao Maio de 68 e não aos acontecimentos de 1789. Mas, como dizem os italianos com certa graça, se non è vero, è ben trovato, pois exemplifica a proverbial paciência chinesa, e afinal uma civilização com mais de 3000 anos não se pode basear numa ideia de pressa.