José Mendes

José Mendes

Nova primavera, velho outono

O país está a braços com a saída de um duro confinamento, procurando o justo equilíbrio entre a retoma da atividade económica e a observação das regras sanitárias. Nas ruas, as pessoas exteriorizam sentimentos mistos, alternando, por vezes na mesma frase, esperança e desalento, coragem e medo. Sinais da incerteza. A alegria apressada com que vejo mulheres e homens a aprontar esplanadas, sorrindo nervosamente para os transeuntes na expectativa de os ver clientes, remete-me para uma cena de filme da Segunda Guerra, em que as pessoas se atropelavam no lapso que decorria entre dois bombardeamentos sucessivos, num frenesim de quem tudo queria viver e fazer naquela brecha de paz. As crianças e os jovens voltaram a popular a urbe, trouxeram o colorido das suas roupas e mochilas e os gritinhos de adolescentes que rivalizam com o chilrear primaveril da passarada. A meu ver, os idosos parecem ser o motor da retoma. Vejo-os mais confiantes, à conversa nas esplanadas, aos pares, ou na frutaria. Nas inevitáveis rasantes pelos passeios, apuro os ouvidos e ouço-os falar das vacinas. Que agora se sentem mais seguros e que em breve poderão retomar as tertúlias dos bancos de jardim, fazendo-se companhia e desejando muito voltar a ter os netos ao alcance de um olhar.

Opinião

Suez, Panamá e outros nós górdios

Em nome da Companhia de Suez, dou a primeira pancada de alvião neste terreno que abrirá às raças do Oriente a civilização do Ocidente." Estas foram as palavras de Ferdinand de Lesseps, o empresário francês que liderou a construção do Canal do Suez, proferidas sobre o deserto onde, 10 anos depois, a obra haveria de nascer. A citação é de Eça de Queirós, um dos raros portugueses que assistiram à inauguração, em 17 de novembro de 1869, numa das suas quatro crónicas em forma de carta, publicadas neste nosso Diário de Notícias entre os dias 18 e 21 de janeiro do ano seguinte.

José Mendes

O risco dos especialistas

As crises têm o condão de destapar ativos que, de outra forma, permaneceriam na sombra, longe dos holofotes e, frequentemente, longe das decisões. A história está pejada de exemplos, um pouco por todo o mundo. Em Portugal, temos ainda bem viva a romaria de especialistas de economia que se atropelavam nas páginas dos jornais ou nos estúdios de televisão e de rádio durante a crise da dívida pública de há dez anos. Desde o ano passado, repete-se a revelação de novo exército de especialistas, agora versados em pandemias, vírus, confinamentos e até desconfinamentos.

José Mendes

"Ainda por aqui ando"

Bucareste, junho de 2019. Aterro no aeroporto internacional para participar no Conselho Europeu do dia seguinte. Como tinha um par de horas de folga, resolvi ir à Sala Polivalente do Dínamo assistir ao jogo de andebol que opunha a Roménia a Portugal e que era decisivo para nos apurar para o Europeu de 2020. Chego em cima do intervalo. À passagem da equipa a caminho do balneário, desço junto do campo e grito "Humberto." E ali estava ele, um dos nossos guarda-redes, com o seu largo sorriso. Aproximou-se e respondeu-me: "Ainda por aqui ando, professor!"