João Melo

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Entre o silêncio e o gueto

Em texto anterior, lembrei que a presença africana em Portugal, incluindo quer os berberes e os árabes do norte de África quer os indivíduos originários da região subsariana do referido continente, remonta ao século VII. Talvez devido ao atual aspeto cromático dos árabes e berberes do norte, em particular as suas elites, que passaram por um processo de embranquecimento histórico, a sua condição de indivíduos africanos tende a ser omitida, o que serve ao mesmo tempo para silenciar a contribuição africana em geral para a formação portuguesa e para alimentar o preconceito racial contra os africanos negros, na sua maioria oriundos do sul do Sara.

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Adeus, Waldemar

Partiste há escassos dias, mas, como talvez aconteça com todos, já sinto a tua falta. Tenho, pois, necessidade de lembrar-te. A memória, posta à prova por tantos acontecimentos, certamente me impedirá, fragilizada, precisões temporais e exatidões detalhísticas, mas não abalará a factualidade das experiências que vivemos em comum. O coração, principalmente, sabe e saberá para sempre das cumplicidades que alimentámos ao longo da vida. Nascemos com um ano de diferença, tu um ano antes de mim. Conhecemo-nos em Luanda no século passado, nos anos de fogo de 74 e 75, talvez antes da independência do nosso país, talvez logo a seguir. Já não sei quem apresentou quem a quem, mas, nessa época, éramos três: tu, eu e o Aguiar dos Santos, o Quim. Palmilhávamos a cidade de então. Os bairros: Terra Nova, Caputo, Bairro Popular, Vila Alice, Marçal, Rangel, Precol, Boavista. Conversávamos. Sonhávamos. Vivíamos.

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Tik-Tok, Tik-Tok, chegou a nova guerra fria

O presidente Donald Trump quer banir a grande rede social chinesa TikTok do território americano (e do resto do mundo?), com receio de que ela esteja a espiar os dados pessoais dos seus utilizadores. Essa decisão junta-se à guerra comercial desencadeada por Washington contra Pequim mal o atual presidente chegou à Casa Branca, bem como aos esforços da atual administração norte-americana para banir a Huawei da telefonia móvel G-5. Não nos esqueçamos, também, da insistência de Trump em responsabilizar a China pela pandemia da covid-19.

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Angola e o Acordo Ortográfico

Como observei no meu artigo anterior, Angola é o segundo maior falante de português em todo o mundo, depois do Brasil, o que lhe atribui responsabilidades acrescidas no que diz respeito às respetivas políticas, não apenas internas mas igualmente externas. Na minha opinião, que é rigorosamente individual e vale o que vale, o país tem negligenciado tais responsabilidades. A persistente ambiguidade e hesitação em tomar uma posição definitiva em relação ao Acordo Ortográfico de 1990, por exemplo, confirma essa atitude. Pela parte que me cabe, tenho muita dificuldade em entender a relutância de alguns setores em ratificar o referido acordo.

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A primavera americana

A América parece estar a viver a sua primavera. Ninguém o previu, mas, uma vez mais, ficou claro que acontecimentos singulares e inesperados podem "mexer" com o curso da história, provocando eventualmente mudanças drásticas e mesmo radicais. Ainda é cedo para saber todas as mudanças que o assassínio de George Floyd - mais um negro vítima do racismo americano, em pleno século XXI - poderá provocar, internamente, na principal potência mundial, mas os sinais já existentes permitem imaginar que serão mudanças importantes e significativas.

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A sombra do fascismo paira sobre o Brasil

O Brasil é um país que está no meu coração. Morei lá como correspondente de imprensa durante oito anos, de 1984 (cheguei um dia depois da emenda sobre as Diretas Já ter sido derrotada no Congresso) a 1992. Viajei pelo país, conheci muitas pessoas, fiz amigos fiéis que conservo até hoje, aprendi muito da sua história, do funcionamento do seu sistema político e da sua cultura, em especial literatura e música, que já conhecia antes (desde os meus tempos de adolescente em Luanda e dos primeiros anos em Coimbra, para onde fui estudar Direito, felizmente por pouco tempo), mas cujo conhecimento aprofundei nesse período. Alguns dos meus amigos brasileiros pertencem, precisamente, às áreas de jornalismo, política, literatura e música.

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África não é um laboratório

No dia 1 de abril, num programa transmitido pelo canal de televisão gratuito LCI (La Chaine Info), especializado em notícias, em França, o chefe dos serviços de medicina intensiva e reanimação do Hospital Cochin, em Paris, Jean-Paul Mira, perguntou a Camille Locht, diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (INSERM, em francês) em Lille, o que pensava da hipótese de realizar testes com a vacina BCG no continente africano, a fim de saber se a mesma poderia ser usada para tratar o covid-19.

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África e o mundo não podem desistir da Guiné-Bissau

A atual situação na Guiné-Bissau deve-se, em parte, a um aparente cansaço da comunidade internacional, a começar pelo continente africano, em relação à persistência do impasse histórico e político naquele pequeno país de língua portuguesa na África Ocidental. Mas, quando se trata da legitimidade dos processos democráticos, não pode haver cansaço: é imperioso insistir que os mesmos têm de fundar-se na força da lei e do direito.