João Lopes

João Lopes

Da vida das marionetas

Nas últimas décadas, com a consolidação comercial dos chamados blockbusters - e, em particular, através do marketing das aventuras de super-heróis com chancela dos estúdios Marvel -, a atualidade informativa do cinema passou a ser dominada pela inventariação das receitas dos filmes. Para alguns discursos jornalísticos, o box office foi mesmo escolhido como padrão único de caracterização do fenómeno cinematográfico. As reflexões sobre a arte de fazer cinema tornaram-se minoritárias, por vezes denunciadas como dispensáveis e até suspeitas.

João Lopes

A sindicalização da cultura

O Estatuto dos Profissionais da Área da Cultura, promulgado a 13 de novembro (em vigor a partir de 1 de janeiro de 2022), ficará como um facto importante nas políticas culturais do ano que está a terminar. Como está escrito na apresentação oficial do documento: "A partir de agora, pela primeira vez em Portugal, todos os profissionais da área da Cultura têm aquilo pelo qual tanto se lutou durante várias décadas: um Estatuto que combate a precariedade e os falsos recibos verdes no setor e que aumenta a proteção social em todas as eventualidades, como o desemprego, a doença, a parentalidade, as doenças profissionais, entre outros."

João Lopes

Números e factos do cinema português

Consulto os mais recentes números das bilheteiras de cinema em Portugal, publicados pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA). No fim de semana de 7/10 de outubro, 007: Sem Tempo para Morrer vendeu 59.683 bilhetes; no mesmo período, o filme português A Metamorfose dos Pássaros teve 1.206 espectadores - contas redondas: 50 vezes menos que a nova aventura de James Bond. Entretanto, o filme de 007, estreado na semana anterior, já foi visto por 246.478 pessoas.

João Lopes

Uma personagem à espera do amanhã

Apresentado na secção Boca do Inferno do IndieLisboa (a decorrer até 6 de setembro), o filme americano She Dies Tomorrow, escrito e realizado por Amy Seimetz, é um genuíno OVNI, por certo um dos mais fascinantes objetos que este ano chegou aos ecrãs portugueses. Mesmo a sua eventual inscrição no género de terror, começando por ser duvidosa, acaba por se revelar inadequada: nada no que nele acontece decorre desse marketing obsceno que, à custa de casas assombradas e personagens de adolescentes obrigatoriamente estúpidos, tem saturado o mercado até à náusea.

João Lopes

Na companhia do nosso assistente virtual

Eis um discurso otimista, produto de algumas das mais discretas, e também mais poderosas, convulsões culturais que vão transfigurando o mundo em que vivemos: "O desenvolvimento de sistemas de voz em aplicações móveis, sites da internet, telemóveis e smartphones decorre do crescente interesse dos consumidores em estabelecer diálogo com os seus dispositivos técnicos." Quem o diz é Donald Buckley, em artigo de opinião no Variety (5 agosto), ele que desempenha funções de consultor da Open Voice Network, associação que se define como "neutra, sem fins lucrativos", tendo como objetivo fundamental o "desenvolvimento de diretrizes para os padrões e a ética que tornarão a voz um elemento de confiança para os consumidores."

Opinião

Face ao olho gelado da câmara

Penso na facilidade com que, através de manchetes delirantes e efémeras, se aplica a palavra "chocante". Objectivo: designar aquilo que, supostamente, abala as estruturas de toda a sociedade. Trata-se de um jogo pueril: na semana seguinte, eventualmente daí a poucas horas, o "choque" de uma notícia, acontecimento ou filme acaba substituído por um qualquer sucedâneo, igualmente superficial e fugaz. Adoptámos o "choque" ("bom" ou "mau", não é essa a questão) como um valor cultural.