Joana Petiz

Joana Petiz

Saber gerir a crise

Três meses depois - e com milhares de pessoas a ficar para trás -, percebeu-se que é preciso simplificar e começar a vacinar pelos mais velhos, em vez de o fazer aos soluços, conforme se vai lembrando que existem pessoas expostas ao risco por toda a parte. Os responsáveis foram obrigados a ver que a vontade de proteger quem mais se expõe é subjetiva e injusta. Subjetiva, porque não se vê ninguém clamar, por exemplo, pela inoculação urgente dos funcionários do supermercado, que sempre garantiram que os portugueses - quantos deles infetados? - podiam continuar a comprar comida. Injusta porque desadequada da realidade da doença: quanto mais novas faixas se acrescentavam (governantes, doenças associadas, classes profissionais como os professores, etc.), mais para trás ficavam os velhinhos, que mereciam e precisavam de proteção urgente. Se o método dos SMS não estava a resultar, havia que detetar o erro e emendá-lo com rapidez.

Opinião

Eutanásia com efeitos secundários

Foi o período mais negro das últimas décadas. Na última semana de janeiro, um mês depois do Natal, morreram em Portugal 4711 pessoas, quase metade delas vítimas de covid. Medidas de emergência todas ativadas, meios de socorro esgotados, pessoal e recursos dos hospitais para lá da linha vermelha. Enquanto isso, em São Bento - enquanto Portugal chorava os seus mortos e se afligia com os que estavam em risco de se somar a esse número terrível - 136 deputados aprovavam a despenalização da morte assistida.

Joana Petiz

Um país debaixo de água

Mais de seis milhões de euros a mais por dia. É esta a dimensão do monstro do endividamento das famílias portuguesas desde que chegou a pandemia. Não é só crédito novo, boa parte deste valor global - que engorda as dívidas dos portugueses para um bolo que só há quatro anos teve dimensão semelhante - chega à boleia das moratórias, que adiam pagamentos para depois de setembro. Mas a questão é precisamente essa: quando o prazo das moratórias terminar, as prestações têm de voltar a ser pagas. As do momento, acrescidas do que ficou para trás - que em muitos casos engloba juros e capital emprestado. E cuja fatura vai chegar, em muitos casos, a famílias que perderam rendimentos ou ficaram mesmo sem o emprego.

Joana Petiz

E se a ministra achar que festivais são coisa de gente pouco civilizada?

Tempos estranhos estes que vivemos. O governante que tem a tutela da Igualdade assume que não concorda com a lei que abriu a todas as mulheres a possibilidade de recorrerem à Procriação Medicamente Assistida e portanto não facilitará, não mexerá no assunto e diz ao povo que já se deve sentir feliz por ele não voltar atrás. O que tem a pasta da Saúde, por se opor ideologicamente à Interrupção Voluntária da Gravidez, recusará desbloquear problemas que existam na gestão desse serviço de saúde e em caso de dúvida ou parcos meios privilegiará sempre outros serviços. O responsável pela Justiça, não concordando com o casamento entre pessoas do mesmo sexo, não tocará em qualquer iniciativa que pretenda facilitar a vida a quem o deseje contrair.

Joana Petiz

Washington anestesiada - ou conformada

Nada de novo no Memorial de Lincoln, business as usual na Casa Branca. As cartas que espalharam engenhos explosivos por moradas selecionadas de ponta a ponta do país (acredita-se que há ainda três por incluir no lote, segundo as últimas na América) fizeram soar os alarmes no governo e no Congresso e sobretudo na imprensa. Mas a vida por cá segue igual, como se não houvesse já possibilidade de choque ou como se os americanos tivessem perdido a capacidade de se alarmarem com terrores internos.

Opinião

Há mais pessoas a viver na Amadora do que eleitores do PAN

Uma mentira não se torna verdade por ser repetida muitas vezes, nem mesmo quando se espalha nas redes sociais. Eu até acredito que haja alguma ingenuidade a justificar as afirmações do PAN, quando os seus militantes e apoiantes dizem que a maioria dos portugueses apoiam as suas causas - as redes sociais tendem a ter esse efeito: vamos vendo o que os nossos amigos ali põem, as suas reações ao que partilhamos e convencemo-nos de que aquela pequena amostra traduz verdades absolutas. Mas não é por isso que deixam de ser construções de uma realidade, artificialidades, apenas entendidas como verdades por aquele conjunto de indivíduos que se revê nessas ideias e as tem continuamente alimentadas por esse circuito fechado.

Joana Petiz

E as sardinhas, senhores?!

Como uma horrenda coleção apresentada fora de horas, a notícia repete-se sempre na primavera-verão: ai Jesus, que se vão acabar as sardinhas e é preciso proibir já a pesca. Os portugueses, que são doidos por elas - de longe os maiores consumidores da Europa -, começam a enlouquecer com a perspetiva de ficarem em carência e logo se reviram de vontade de provar as primeiras do ano, pequeninas e gordinhas e a pingar no pão. Os pescadores, esses vão aos arames com a perspetiva de lhes estragarem boa parte do difícil negócio que lhes põe o pão na mesa. E lá tem de vir o ministro da pasta dizer que a coisa não é bem assim, que umas semanas sem pescar e as quotas estão repostas e tudo acabará em bem, com uma almoçarada de sardinha assada e sem faltar no prato nos festejos dos Santos.

Opinião da direção

De volta às ruas

Entre greves, manifestações e outros protestos, março ainda não chegou ao fim e já é talvez o mês de mais forte contestação desde que o PS começou a conduzir o governo, apoiado pelos partidos à sua esquerda. E o líder da CGTP avisa que é de esperar que as coisas ainda se tornem mais intensas em abril - o primeiro sinal é a greve sem serviços mínimos que promete lançar o caos em Lisboa já na próxima segunda-feira, quando os trabalhadores dos comboios da CP, da Fertagus e até de mercadorias deixarem as carruagens paradas, em nome de um aumento salarial intercalar. Mas não estão sozinhos. Médicos e enfermeiros afirmam que as promessas que lhes foram feitas não foram cumpridas, professores continuam à espera de progressões que só chegaram a alguns e muitos outros funcionários do Estado, mas também de empresas privadas, reclamam por terem visto frustradas as suas expectativas. E a todos eles encaixa como natural voltar à luta que parecia ter deixado as ruas desde que a geringonça tomou as rédeas do país.

Opinião da direção

Aceitar as diferenças

Numa das reuniões do European Muslim Network, que reúnem em Bruxelas speakers de todos os países, discutia-se há tempos a islamofobia, com descrições vívidas sobre os maus-tratos sentidos na Turquia, na Alemanha, em Espanha, em França, na Bélgica. Até que um relato destoou dos demais: "Vivo em Portugal há mais de 50 anos e ali tratam-me como amigo. Não sou o outro, sou o deles, embora saibam que tenho uma religião diferente. Nunca senti isso a que chamam islamofobia." Eram as palavras de Abdool Vakil que espantavam de tal forma a audiência que chegaram a perguntar-lhe se Portugal era o paraíso.

Opinião da direção

O sarampo (ainda) mata

Resultado de um grande trabalho conduzido ao longo de décadas, fortemente baseado na vacinação, Portugal anunciava há um par de anos as boas notícias transmitidas pela Organização Mundial da Saúde: o país conseguira a erradicação não apenas do sarampo mas de outras doenças altamente contagiosas e perigosas como a rubéola, a malária, a varíola e a poliomielite. Longe vão os tempos em que um diagnóstico de sarampo era encarado com a preocupação que nos merecem as doenças que matam. Mas talvez já não seja bem assim. No ano passado, o sarampo voltou a aparecer e a matar em Portugal - e se tomarmos a Europa como exemplo, os casos de sarampo registados alargam-se para 2573 (o quádruplo do ano anterior), com 35 casos mortais, todos eles de crianças não vacinadas. Neste início de ano, ouvimos falar em novos casos - são pelo menos sete confirmados e mais de 30 suspeitos - e não podemos deixar de nos surpreender com o ressurgimento de uma doença que aparentemente tinha sido erradicada. Acontece que, enquanto nos países africanos, por exemplo, se multiplicam as campanhas a apelar à vacinação para conseguir reduzir os números negros da mortalidade associada a doenças que por cá temos a sorte de não conhecer, pelo menos em toda a sua força, por toda a Europa tem-se assistido ao movimento contrário. A erradicação deste tipo de doenças parece ter gerado em certas comunidades a crença de que as vacinas não eram fundamentais - alguns indo ao extremo de as considerar mesmo tóxicas. E à falta de obrigatoriedade (só há oito países europeus onde é obrigatória a inoculação contra o sarampo, por exemplo), um número crescente de pais optaram por não vacinar os filhos. O resultado deste movimento está à vista, mas os seus efeitos podem agravar-se - basta ver que o sarampo é a doença mais infecciosa que se conhece (a média de contágio é de 90% das pessoas que entrem em contacto com alguém infetado) e está no top 3 das mais mortais da história da humanidade, logo a seguir ao VIH e à malária. Era importante que todos nos lembrássemos destes números.