Joana Amaral Dias

Opinião

Voo rasteiro

Ora vejam o que escrevi num jornal, em Janeiro de 2019: "Décadas a discutir um novo aeroporto e, de repente, está decidido, é no Montijo. Mais do que tempo para tomar uma opção fundamentada, mas qual quê. Portugal no seu melhor. Empurrou-se com a barriga, deixou-se a Portela rebentar pela costuras e, quando a solução passou de necessária a emergência, decide-se com os pés e em cima do joelho. Montijo e pronto." Credo. Afinal, nessa altura não houve decisão alguma (entretanto veio a covid e os aviões sumiram) mas a história repetiu-se mais de três anos depois, agora com Pedro Nuno Santos. Isto quando se junta a guerra pela sucessão no PS com tantos interesses que tentam abocanhar o lombo de uma obra colossal, é o diabo. Fora isso, eis o melhor retrato lusitano: a coisa custa a descolar, não levanta voo, parece que estamos sempre no mesmo sítio, em constante ladainha, lenga-lenga. Lembra aquele velhinho filme O Feitiço do Tempo com um Bill Murray novinho. Permanentemente discutimos os excessos de burocracia, o serviço nacional de saúde e as urgências, os incêndios, o crescimento anémico, a corrupção e, claro, o aeroporto da capital.

Joana Amaral Dias

A cara vai nua

Em Portugal o número de casos de covid aumentou 58% na última semana. Já o número de disparates de pseudo especialistas deve ter subido alguns 72%. A justificação, logo repetida ad nauseum, responsabiliza o abandono das máscaras pela situação epidemiológica. Sem delongas, conclui-se e afirma-se que a nudez facial é a causa. Bem rápida esta nova ciência, não acham? Sucede que se trata apenas de uma correlação e não de uma relação causa-efeito. Uma correlação é apenas isso mesmo - pode ser achada entre o acto de comer tremoços e a capacidade de jogar gamão. Não significa que A leva a B. Aliás, se a retirada de máscaras explicasse o aumento de casos, o que dizer dos diversos países que estão há muito mais tempo sem máscara e sem que se verifique esta subida, ou o que inferir da estabilidade dos números quando se introduziram as máscaras em espaços fechados? Que achar do acréscimo quando se tornaram obrigatórias as mordaças ao ar livre? Aí os papagaios da narrativa já não concluíram lestos que as máscaras são prejudiciais, pois não? De facto, a ciência não se faz assim, a olho e com palpites e o jornalismo também não se constrói desta forma, acrítica e vendida. Estas derivas são apenas pseudo ciência e propaganda, respectivamente.

Joana Amaral Dias

Eufemiza-me

Sabemos que a "operação especial" de Putin é uma invasão. Muito bem. Óptimo. De igual forma, sabemos que a "operação israelita" foi um pelotão de fuzilamento da jornalista na Palestina e até um aviso para não aparecerem mais repórteres. Executar Shireen Abu Akleh com total impunidade só em figura de estilo pode ser classificado como "confrontos" ou "repressão". Da mesma maneira, sabemos que o "direito de resistência" da Finlândia ou da Suécia juntando-se à NATO é mesmo uma declaração de guerra. Talvez irreversível e aniquilando as poucas alternativas restantes. Pois é. Hipocrisias e ingenuidades à parte, não é preciso ser-se versado em Relações Internacionais ou em Negócios Estrangeiros para entender que a comunicação e as interacções entre Estados se regem por interesses e estão subordinadas a uma lógica de poder. Esta guerra na Ucrânia é uma guerra por procuração, um triângulo bélico, tal como assumido pelo próprio secretário da Defesa norte-americano Lloyd Austin.

Joana Amaral Dias

A paz & o pão

Até à guerra na Ucrânia, a estratégia dos governantes ocidentais foi de enfraquecimento de Putin? Até ao 24 de Fevereiro, essas elites defenderam a diplomacia? E se até muito recentemente os líderes do mundo dito civilizado nada fizeram nesse sentido (ou até investiram no oposto), porque é que acharemos que, numa situação de alta tensão onde depressa todos correm como galinhas sem cabeça, irão finalmente pugnar pela paz? Será que não estimularão antes o ódio, a insaciável sede de vingança? Infelizmente, parece que sim. Mas esperemos que não.

Joana Amaral Dias

As crianças que se lixem

A Maria fez seis anos em Agosto de 2019 e entrou para o primeiro ano nesse Setembro. Estava muito entusiasmada com a perspectiva de aprender a ler e a escrever, descobrir os números. Sucede que, em Março de 2020, uns meses depois, a sua escola fechou. Aulas online nesta idade? A professora fala, fala, pergunta, estimula, interage e, no fim, a Maria diz-lhe: o seu gato é muito bonito. Em casa, os pais têm disponibilidade limitada - entre o teletrabalho da mãe e o fecho do negócio do pai (medidas covid), que o atirou para uma depressão e, de seguida, para uma frustrante procura de emprego, só restos sobram. Dinheiro para explicadores? Não há. Em Setembro de 2020, Maria foi para o segundo ano da escola. Pouco tinha aprendido e o início de 2021 trancou-a outra vez em casa. Novo calvário. Agora, em setembro de 2021, com oito anos, Maria ingressou no terceiro ano da escola. Não sabe escrever nem ler. É analfabeta. Contas de somar lá vai fazendo algumas, gosto pela escola há pouco e adição aos telemóveis há muita. Ainda tinha ginástica num clube perto de casa, mas, após sucessivos abre e fecha, os pais desistiram. Não tem mais grupos de amigos e no prédio poucos falam.

Joana Amaral Dias

A vida de um submarino 

Gouveia e Melo não é quem parece ser. Ou não é quem aparenta e querem que pareça. Os seus últimos seis anos, o seu passado recente (pelo menos esse) revela um homem apostado em urdir intentonas contra colegas, em engendrar rasteiras que derrubem quem lhe faça frente ou apenas dele discorde. As intrigas que moveu contra Silva Paulo (comandante de mar e de guerra) e contra Cunha Lopes (director-geral da Autoridade Marítima e comandante-geral da Polícia Marítima) são a prova factual de que estamos perante alguém com poucos escrúpulos e ilimitadas ambições. O então vice-almirante foi arguido nos dois processos (como, aliás, foi noticiado por este mesmo jornal) e se a legítima resposta de Silva Paulo acabou arquivada, já a exigência de reposição de justiça por parte de Cunha Lopes foi mais longe. Para estancar o escândalo, numa estratégia de contenção de danos, o actual Chefe do Estado-Maior da Armada optou por um acordo em tribunal, acabando por lavrar um pedido de desculpas à vítima - que, devido à conspiração fora exonerado (decisão que foi anulada) e acusado de corrupto. Afinal, quem são os malandros? Enfim, tratam-se sombras espessas, ainda por cima contrárias à cultura castrense e à honra militar, que deixam nódoas gordurosas na alva farda de Gouveia e Melo relativamente ao qual, estranhamente, depois de tudo isto, a Marinha não moveu um processo disciplinar. Mas o que é ainda mais tóxico e daninho é o como se lava este pretérito sujo com silêncios e com as tentativas de endeusar o vice-almirante de camuflado missionário e abnegado. Caramba! Eleito figura do ano, homenageado, medalhado e agora promovido, de novo passando por cima de um colega a meio de um mandato, jogado borda fora como se fosse comida estragada. Pintado como impoluto, de uma masculinidade virginal, o militar é inspiração para extensas hagiografias enquanto faz mitose em entrevistas rosa e arco-íris (não era alguém de baixo perfil?), sublimando insanáveis contradições (ora quer ser político ora rejeita, ora quer voltar à task force ora não). Lá o globo de ouro foi merecido.

Joana Amaral Dias

Veneno em semente

Está disposto a viver assim para sempre? Desculpe a pergunta incómoda, mas nesta altura é esta a questão que se coloca. Senão, vejamos. Com uma assembleia da república em dissolução, os deputados aprovaram uma lei que habilita o Governo a determinar a uso de máscara na rua sem que para isso necessite da aprovação do parlamento. Ou seja, mais um cheque em branco em via verde que estes partidos políticos ofereceram a este executivo, beneplácito e cumplicidade que, de resto, dominam desde março de 2020. Já tínhamos tido aberrações como crimes decretados por resolução do conselho de ministros (sem passar pela assembleia da república) e, por exemplo, relativamente ao teletrabalho, sublinhe-se que a matéria laboral é da competência do Parlamento, inclusive obrigando a ouvir representantes dos trabalhadores e das entidades patronais.

Joana Amaral Dias

Tralha maluca

O Partido Socialista tem um trilema. Primeiro, sofre de um grave problema de relacionamento com o Tribunal de Contas (TC) - porventura com todos os que escrutinem a sua acção -, depois padece de conflitos com as políticas de habitação e por último - mas não menos importante - apresenta uma difícil relação com a verdade. Vamos por partes. Em Janeiro de 2020, depois de um relatório do Tribunal de Contas declarar que o preço de venda de onze imóveis da Segurança Social à Câmara de Lisboa foi inferior em 3,5 milhões ao valor de mercado, o PS soltou as mandíbulas. "Deve ter sido escrito por mentecaptos, lido por mentecaptos e sancionado por mentecaptos. São a tralha toda da maluqueira nacional", declarou o deputado do PS Ascenso Simões sobre os respectivos juízes.