Isabel Capeloa Gil

Isabel Capeloa Gil

Depois de acabar de vez com a cultura

Depois de acabar de vez com a cultura, fica o vazio. Ou talvez não. Portugal é um país sem política de cultura. O que não é necessariamente mau, se pensarmos que qualquer projeto programático tem sempre laivos de controlo e se há coisa a que a cultura deve, por natureza e missão, resistir é a ser instrumento do Estado. A história tem demonstrado que entre esta sensibilidade intelectual e a prática real há um abismo imenso. Não faltam os filhos do(s) regime(s) e a lógica distributiva das migalhas que os governos lançam abaixo da mesa da arte encontra sempre clientes habituais. Neste estado amorfo, surgiu a pandemia, que parecia vir para acabar de vez com a cultura. E, no entanto, ela move-se. Move-se nos processos de reinvenção de artistas suspensos, na depauperada, mas resiliente, programação dos subfinanciados museus nacionais, nos banhos de público da programação musical logo que foi possível o regresso dos espetáculos, na sede de cultura de um público que não desiste.

Isabel Capeloa Gil

A vida pública dos católicos

No exercício da vida pública, declarar-se católico parece ser hoje arriscado. Perante um secularismo superficial que denuncia supostas "hegemonias", quando justamente se quer afirmar como tal, ou face a revisionismos antissistema que fazem uso da religião como arma política, dizer-se católico, livre, cosmopolita e democrata constitui quase um ato de resistência. Em Portugal, o "republicano, socialista e laico" de Mário Soares, que, aliás, sempre respeitou o pluralismo religioso e a Igreja Católica, não tem equivalente de fé.

Isabel Capeloa Gil

Virtudes públicas vícios privados

Criou-se em Portugal a curiosa perceção de que qualquer iniciativa privada, porque pode visar o lucro, constitui um ato de esbulho. Pelo contrário, a coisa pública é gerida por profissionais impolutos e a ação do Estado é sempre benéfica, porque quer o bem de todos, sem distinguir nenhuns. Em tempos de pandemia, louvou-se a força do Estado e a derrota do "mercado". Transformados em caixas de ressonância de agendas políticas, os media projetam estas narrativas que apelam ao gosto, sempre simplista, da vox populi.

Isabel Capeloa Gil

Um erro de cálculo

Uma primeira crónica em tempo de pandemia não pode falar de árvores e flores. Vivemos tempos negros com impactos ainda imprevisíveis, apesar das estimativas e projeções de quebra do PIB, instabilidade social, mortalidade covid e não covid, impacto sobre as aprendizagens e outros dados mais soft e não menos importantes como o reflexo na nossa saúde mental. O Presidente da República resumiu a inépcia das políticas e também da ação coletiva dos portugueses quanto a esta terceira vaga pandémica a um "erro de cálculo". Os decisores políticos não anteciparam o que se avolumava no horizonte, a população, excelente na primeira vaga, desmobilizou a sua militância protetora.