Henrique Burnay

Henrique Burnay

Entre a miss simpatia e ganhar o Euromilhões

Uma das maiores dúvidas sobre Portugal e a União Europeia é saber o que é que o país quer da Europa. O dinheiro dos fundos, importações mais baratas, acesso a mercado, padrões europeus na legislação, da proteção dos consumidores às regras sobre ambiente, da concorrência à liberdade económica. Tudo isso, evidentemente, mas tudo isso é mais ou menos o mesmo que os restantes parceiros da UE também querem. A pergunta inicial, porém, é outra.

Henrique Burnay

Thatcher morreu, Reagan também e o capitalismo não se sente nada bem

O pós-liberalismo da direita começou em muitos lugares ao mesmo tempo, mas foi nos Estados Unidos de Donald Trump que foi mais evidente. Apesar da preferência por reduzir impostos dos maiores contribuintes, a administração Trump nunca foi entusiasta das grandes empresas e do mercado livre, que associava à globalização e à deslocalização e, consequentemente, às desgraças da classe média-baixa americana, os left behind. Orbán acredita que entre Soros, os grandes grupos de comunicação social e as elites de Bruxelas há um conluio antinacionalista que quer acabar com a sua e com todas as soberanias, em nome de uma suposta ordem global. No Reino Unido, Boris Johnson é absolutamente diferente de Trump, mas procura em parte o mesmo eleitorado e promete-lhe mais ou menos o mesmo: protegê-lo de um mundo competitivo que torna algumas indústrias, profissões e regiões obsoletas. Essa é, aliás, a sua contradição insanável: o pressuposto do Brexit é tudo menos um Reino Unido open to the world. Ou, se for, necessitará de muita política social para compensar o que prometeu. Na Polónia, a democratização e a integração europeia, em vez de sustentar os valores tradicionais, exigem um pluralismo adversário de uma visão ultraconservadora e soberanista que vence eleições. E os exemplos podiam continuar.

Henrique Burnay

A Europa não entende nem se entende

Joe Biden passou a semana passada a procurar relançar a aliança ocidental. Começou por visitar o Reino Unido, reuniu-se com os sete grandes da economia e da democracia global, com os aliados militares da NATO, e depois com a União Europeia. E então, sim, com Putin, que tratou como um líder de uma potência. O que, ambos sabem, a Rússia já não é. Pelo menos como já foi. Mas num cenário em que a maior preocupação dos americanos é a China, controlar os russos, mantendo-os satisfeitos pela relevância e dentro de limites aceitáveis, ou pelo menos previsíveis, pode ser o melhor possível para uns e outros.

Henrique Burnay

Política de sofá

Recep Tayyip Erdogan entra na sala com Charles Michel à sua direita e Ursula von der Leyen à sua esquerda. Quando se aproximam dos lugares, Erdogan dirige-se ao seu, uma poltrona dourada, e Michel não hesita em sentar-se na outra, à direita do presidente turco. Von der Leyen fica de pé, imóvel, solta um "ah" entre o espantado e o ofendido, até que se senta no lugar que lhe tinha sido reservado, no sofá, à direita e longe de Erdogan. O que aconteceu depois, durante a reunião, tornou-se irrelevante. Para a história ficou o sofagate.