Helena Tecedeiro

Opinião

Foi de lágrima ao canto do olho que a mandei para o primeiro dia de aulas

A primeira vez que deixei a Mariana na escola, ela ainda nem tinha cinco meses. Eu ia voltar ao trabalho depois da licença de maternidade e a minha bebé foi para a Academia dos Miúdos. Claro que se me apertou o coração quando a deixei no infantário, mas vê-la ao colo da funcionária tranquilizou-me. Ela estava bem. Como estava bem quando a fui buscar. E no dia seguinte e nos restantes. Desde que lhe mudassem a fralda, dessem o leite e brincassem com ela, a Mariana estava feliz. Não chorei. Como não chorei quando a deixei na CEBE com 3 anos e ficou a brincar na sala e depois a explorar todo o espaço exterior da nova escola. Muito menos chorei quando entrou para o 1.º ano. A escola era a mesma, os colegas também e a professora Carla viria a ser adorada pela minha filha. Mas foi de lágrima ao canto do olho que hoje a fiquei a ver ir debaixo do chapéu-de-chuva para o 5.º ano na Delfim Santos.

Helena Tecedeiro

A arte de tirar cortiça do tio Zé

Quando se passa pelas estradas do Alentejo, é cenário comum o daquelas árvores de tronco avermelhado em contraste com os ramos escuros e rugosos. São sobreiros aos quais acabaram de tirar a cortiça. Tirar. Porque a cortiça não se recolhe nem se apanha, tira-se. De nove em nove anos, os homens sobem ao sobreiro e com o seu machado, a sua arte e o seu amor tiram a cortiça, um material usado nas rolhas das garrafas de todo o mundo e de que Portugal é o maior produtor.

Opinião

Entre souvlakis, cervejas e um voto para Tsipras

Noite quente de julho, a praça Syntagma cheia de gente. Música, gritos e bandeiras espantariam qualquer turista, mas não no verão passado em Atenas. A dois dias do referendo às medidas de austeridade impostas por Bruxelas, os gregos assaltavam as barraquinhas de souvlakis (pequenas espetadas de carne) e de cerveja na mão esperavam para ouvir Alexis Tsipras. O primeiro-ministro sobe ao palco na sua camisa branca. Sem gravata, claro, que essa só quando a crise acabar é que o líder do Syriza admite voltar a usá-la. Já longe dali - que vida de turista, mesmo jornalista, não é ouvir discursos de políticos - não ouvi o que Tsipras disse, mas com certeza repetiu o apelo ao voto do não, aquele oxi que enchia os cartazes, num derradeiro desafio à União Europeia após meses de negociações. No dia 5, os gregos faziam-lhe a vontade, o não vencia com mais de 60% dos votos. Festa nas ruas, souflakis, cerveja. O primeiro-ministro voltava a Bruxelas com a bênção dos eleitores e legitimidade renovada. Mas... quando menos seria de esperar... e depois de uma maratona de 14 horas... Tsipras saía com um acordo para o terceiro resgate. O campeão antiausteridade, eleito em janeiro com uma mensagem de desafio aos credores, cedia às pressões da União Europeia. A indignação não tardou. Foi já de Portugal que vi o Syriza dividir-se. A ala esquerda desafiar o líder, recusando votar as medidas que ele negociara. Novo volte-face, Tsipras demite-se, afasta os dissidentes, volta às estrada para convencer os mesmos gregos que em julho o ouviram apelar ao não no referendo. Estamos em setembro, o calor continua, as barraquinhas de souvlakis e cerveja voltam à Syntagma. O "rapaz manhoso, sempre com um sorriso na cara", como lhe chamara a oposição, é o mesmo, a mensagem é outra. Mas os gregos voltam a votar nele. Porque não há melhor? Talvez.

crónica

Nos Golã a ver a guerra na Síria

Ta-ta-ta. Ta-ta-ta. No cimo da colina a olhar para a Síria lá em baixo o som de tiros é tudo menos inesperado. Mas não se pense que foi a Frente Al-Nusra a disparar contra o Exército Livre da Síria. Ou este contra o Estado Islâmico. Ou os jihadistas contra tropas de Assad. É o Exército israelita a treinar. A base mais próxima fica um pouco abaixo, nas nossas costas, e apesar de não os vermos, há por ali inúmeros soldados em manobras. Afinal estamos nos Montes Golã. Um território que já foi Síria mas ocupado por Israel desde 1967. Do alto da montanha avista-se aquela Síria onde a guerra já fez mais de 250 mil mortos desde 2011. Um verdadeiro inferno que, num dia frio de dezembro quase parece impensável estar ali, a menos de 3 km de onde brincam as crianças do kibbutz Merom Golan. A verdade é que no alto dos Golã se veem mais turistas do que soldados. Uns brasileiros barulhentos sobem as escadas que vão dar ao posto de observação da ONU. Ali, dois militares apontam os binóculos à Síria, mexem no computador portátil antes de dobrarem a bandeira e regressar ao quartel-general, mais abaixo.