Guilherme D'Oliveira Martins

Guilherme d’Oliveira Martins

O estranho visitante

Tenho-o visitado por estes dias. Está orgulhoso por continuar a atrair as atenções, ao fim de quatro séculos. É verdade que teve uma vida intensa e atribulada, mas o tempo deu-lhe o justo reconhecimento, como excecional pintor, pelo seu caráter próprio e inovador, pelo modo como soube interpretar os ambientes, como pôde lidar com a luz e as suas cambiantes e, sobretudo, pela capacidade de compreender o género humano. Se não se tivesse dedicado à sua arte, teria sido decerto um magnífico encenador dramático. Os seus retratos estruturam-se segundo uma harmonia de cores e um movimento que se destaca em fundos discretos, capazes de evidenciar a apresentação teatral, com recurso a um diversificado guarda-roupa que a historiadora de arte Luísa Sampaio enaltece, salientando a originalidade dessa faceta do artista - através de ornamentos orientais faustosos (correntes de ouro, armaduras, capacetes, chapéus de plumas). Trata-se de um rico desfile teatral que implica a rigorosa caracterização das figuras que nele participam.

Guilherme D'Oliveira Martins

O Convento dos Capuchos

A flora que conhecemos na serra de Sintra é constituída por árvores peregrinas vindas do Oriente, troféus da Índia, trazidos por D. João de Castro, que mudaram a paisagem e o clima desse lugar que entusiasmou Lord Byron. A Penha Verde, encantadora para William Beckford, está na origem desse povoamento. As ermidas, as fontes, as casas nobres e os maravilhosos pontos de vista definem um lugar paradisíaco. Mas o 4.º vice-rei da Índia deixou a seu filho D. Álvaro uma misteriosa disposição testamentária, que chegou aos nossos dias. Falo-vos do Convento dos Capuchos, fundado em 1560, na sequência de um sonho, de encher estes picos da serra "de ermidas e de suas vitórias, uma coisa cheia de humildade e de grandeza - desterro para poetas, construído por poetas", no dizer de Raul Brandão. "Suspenso entre a abóbada do céu e a planície ilimitada", ali se descobre "tudo quanto há de grande, o céu, a terra, o mar". E quando o rei Filipe I veio a Sintra afirmou que possuía a ventura de ter nos seus reinos o mais rico e o mais pobre dos conventos, pensando no Escorial e nos Capuchos.

Guilherme D'Oliveira Martins

Atenção à cultura

Na transição depois da pandemia, importa considerar as mudanças com audácia e determinação. As desigualdades agravaram-se interna e externamente, pelo que temos de nos preparar, num contexto de incerteza geoestratégica, para os desenvolvimentos da crise climática, para os desafios na energia e na saúde e para as exigências de uma recuperação económica que não pode seguir o paradigma das últimas décadas. Os ganhos de curto prazo e a lógica de lucros ilusórios devem ceder o passo à aposta em investimentos reprodutivos, respeitadores da biodiversidade, que salvaguardem o desenvolvimento sustentável e a equidade intergeracional. As medidas excecionais em curso na Europa têm de ser, pois, preventivas e preparatórias, para não insistir nos erros passados, que culminaram na crise de 2008, esquecendo uma economia humana, justa e equitativa. Aprender a viver com o desconhecido e a incerteza, entender a complexidade, cuidar da natureza, evitar o endividamento e a prevalência do egoísmo dos que têm e esquecem as provações, eis o que está em causa.

Guilherme D'Oliveira Martins

António Osório

O ofício de advogado levou-me a ser discreto como poeta. As pessoas preferem, naturalmente, bons profissionais do foro a excelentes poetas." António Osório confessou-se assim a Ana Marques Gastão em entrevista ao DN (24.3.2001). A pequena frase diz-nos tudo sobre o que foi um amigo que tanta falta nos faz. Exímio cultor do seu ofício, viveu a poesia como respirava o ar que nos faz existir. E a sua exemplar poesia foi o modo de exprimir a riqueza do espírito. Ser advogado foi "um serviço, uma entrega, uma fidelidade: advocatus, o que é chamado em auxílio". Com orgulho lembro-o como meu bastonário, exemplo numa profissão tão vulnerável e exigente. Não me cansarei de dizer que, como advogado, foi dos melhores e que a sua memória tem de ser muito lembrada - pelo saber, pelo espírito de justiça, pela compreensão do direito e da lei como sinais de humanidade e da dignidade do ser.

Guilherme D'Oliveira Martins

"Cavaleiro Andante" 

A minha geração teve uma relação especial com a revista Cavaleiro Andante, dirigida por Adolfo Simões Müller. Apesar da resistência que encontrávamos em alguns dos nossos professores de Português relativamente às histórias de quadradinhos, hoje referidas como 9.ª Arte ou Banda Desenhada, por influência francesa, pudemos encontrar no Cavaleiro Andante e na sua escola um bom aliado na demonstração de que era possível ter qualidade no uso da língua e no incentivo à leitura. A revista que recebíamos ao sábado, com prazer e alvoroço, permitia termos bons argumentos a favor da qualidade das narrativas ilustradas. Recordo os debates amenos, mas incisivos, no Liceu Pedro Nunes, com alguns professores resistentes e a evolução no sentido do reconhecimento de que esse era um importante contributo para a boa leitura. E assim fomos vendo passarem para o nosso campo os antigos críticos.

Guilherme D'Oliveira Martins

5 de Outubro

Os 111 anos da proclamação da República Portuguesa levam-nos à consideração de três momentos da nossa história que nos conduzem ao entendimento atual de democracia - em nome do constitucionalismo liberal consagrador dos direitos fundamentais, da separação de poderes e da soberania popular. Falamos de 1820, 1910 e 1974. E assim, a Revolução do Porto de 24 de agosto de 1820 constituiu, para nós, a consagração do moderno Estado de direito. Esse acontecimento, apesar de todas a vicissitudes, desde a fugaz tentativa de regresso do poder absoluto até à Regeneração de 1851, que viria a tornar a Carta Constitucional de 1826 uma lei fundamental legitimada por um poder constituinte, deu início à democracia atual. E as datas de 5 de outubro de 1910 e de 25 de abril de 1974 constituem os dois outros vértices que continuam e afirmam o que Jaime Cortesão designou como fatores democráticos na formação e na afirmação de Portugal, desde as mais longínquas raízes históricas, abrangendo a fundação, as Cortes, o municipalismo, a influência dos povos das cidades e dos mesteres, a causa do Mestre de Avis em 1383 ou a Restauração da Independência de 1640.

Guilherme D'Oliveira Martins

Economia e cultura

Nunca choraremos bastante nem com pranto / Assaz amargo e forte / Aquele que fundou glória e grandeza / E recebeu em paga insulto e morte." Sophia de Mello Breyner disse-o no Livro Sexto, em homenagem sentida ao duque de Coimbra, o infante D. Pedro das Sete Partidas (1392-1449), filho de D. João I e D. Filipa de Lencastre, defensor determinado da necessidade de reflexão e ação planeada para responder aos desafios da pátria. Na célebre Carta enviada de Bruges em 1425 ou 1426 a seu irmão D. Duarte, que hoje merece ser relida com atenção, de tão atual, delineou o método da vontade de um povo, bem orientada pela persistência do trabalho, contra a tentação do improviso, que não é qualidade, mas doença terrível. O caso português é bem ilustrativo. Avançámos quando soubemos ligar a audácia dos objetivos ao cuidado da ação. Por isso, dizia o infante: "Bem creio, Senhor, que seis que tivessem vontade de desembargar e fossem diligentes em seu ofício fariam mais que cinquenta que tal vontade não têm." Morto tragicamente em Alfarrobeira, contou com a determinação de seu neto, o Príncipe Perfeito, num sério caso de fidelidade, para que não fosse esquecida a sua lição.

Guilherme D'Oliveira Martins

Com Edgar Morin...

No dia em que Edgar Morin completou 100 anos, recebendo com entusiasmo as mensagens dos amigos, Vasco Wellenkamp apresentou na Fundação Gulbenkian o espetáculo Amar Amália, singular encontro entre a criatividade e o talento da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo e a força das palavras do fado. E a memória de Graça Barroso ali esteve também, inesquecível. Foi uma coincidência feliz, já que Morin ama intensamente, no fundo de si mesmo, as raízes ibéricas, no genuíno sentido da palavra sefardita. Ao ouvir a Gaivota, de Alexandre O'Neill e Alain Oulman, o Barco Negro ou Partindo-se - nos ritmos compassados do coração português, encenados por Wellenkamp, sentimos que Edgar estava connosco. Como esteve tantas vezes, nas vicissitudes da oposição à ditadura ou, apaixonadamente, na "revolução dos cravos" - "momento de êxtase na história portuguesa que, como todos os grandes êxtases da história, nos marcou para sempre com a sua poesia, iluminadora e fugitiva", antes que o mundo voltasse a cair na prosa. Edgar Morin lembra esses tempos inolvidáveis e a fraternal amizade com Helena e Alberto Vaz da Silva e António Alçada Baptista.

Guilherme D'Oliveira Martins

A tertúlia de moinho de vento

O debate de ideias não pode ser desvalorizado. O intelectual não pode ser substituído pelos comentadores das ideias gerais. Concordo com o meu amigo Luís Castro Mendes sobre a importância de sermos mais exigentes neste domínio. A democracia só progride através da ligação entre a capacidade de ver o futuro e de encontrar catalisadores de energias no sentido de responder à necessidade de tornar a sociedade melhor. Não há ação coerente e eficaz sem pensamento, e não há reflexão séria sem capacidade de ouvir. Não há projetos relevantes se não os basearmos na experiência e nos bons exemplos. Infelizmente, prevalece a tentação de limitar o debate político ao imediatismo e aos efeitos teatrais. Se olharmos atentamente a história política percebemos que só pode haver resultados práticos positivos se houver planeamento de médio e longo prazos e capacidade de mobilizar duradouramente as vontades da sociedade. As reformas estruturais não se confundem com o método do café instantâneo, é fundamental tempo e é ilusório julgar que se muda a sociedade contando apenas com opiniões superficiais ou modas passageiras. Eis por que razão urge refletir, dialogar, debater e encontrar soluções duráveis que possam antecipar, prevenir e mobilizar.

Guilherme D'Oliveira Martins

Amava sobretudo a liberdade

António Alçada Baptista era um contador de histórias inesgotável. E a amizade era fecunda fonte de contentamento. Era absolutamente extraordinário ouvi-lo, fruto de uma memória prodigiosa, que manteve pela vida fora e que lhe permitia fixar pormenores, sinais e sentidos. Era a lembrança viva de quem amava sobretudo a liberdade. Recordo o entusiasmo com que partilhava episódios como o do padre Anchieta sobre uma viagem no sertão brasileiro. Com urgência em regressar a uma aldeia recôndita, o jesuíta pediu aos carregadores rapidez na caminhada. Contudo a andança era muito longa e, na terceira jornada, os índios pararam inesperadamente. O padre indagou sobre o motivo da interrupção e a explicação não se fez esperar: "Temos vindo depressa de mais e a nossa alma ficou lá para trás. Temos de esperar que ela regresse, pois sem ela não podemos continuar."

Guilherme D'Oliveira Martins

Luís Salgado de Matos

O Luís Filipe Salgado de Matos era das pessoas mais argutas e inteligentes que conheci. Investigador exímio, conversador inesgotável, era capaz de ver para além do imediato e das aparências, com quem dava gosto estar e conviver. Os temas que estudou (o Estado de Ordens e as relações institucionais das Forças Armadas e da Igreja) foram marcados pela originalidade e pelo modo próprio de analisar criticamente ideias feitas ou simplificações. Quantas vezes, em centenas de horas de convívio, ouvia placidamente os circunstantes e, aparentemente, sem discordância formal, com a sua voz inconfundível, mudava a perspetiva ou os ventos que pareciam dominar aquele ambiente.