Guilherme d' Oliveira Martins

Opinião

Árvores companheiras

O meu Avô Mateus ensinou-me o nome das árvores, como fizera consigo o velho professor José Jorge Rodrigues, de Boliqueime, freguesia que dedica ao velho mestre-escola uma rua junto à praça principal, invocando o pedagogo, para quem não seria possível compreender o mundo e a liberdade sem amar a natureza, conhecendo-a nos seus mais insondáveis segredos. E a minha Avó Ana tinha as melhores mãos do mundo para plantar, enxertar, cuidar do seu jardim e das suas figueiras, que produziam os melhores figos, desde junho até ao Outono. Foi assim possível entender, desde que me conheço, que, antes de tudo a Cultura começa por ser a dos campos, a agricultura, do semear, do colher, do plantar e do cuidar.

Guilherme d' Oliveira Martins

A Nau de Ícaro

Cultor de símbolos, interrogador de mitos, revelador de enigmas, Eduardo Lourenço, que teria feito ontem 99 anos, assinalados em Almeida com um memorial de Graça Morais, é o pensador do regresso português à Europa e de uma nova emancipação. Os últimos anos do ensaísta foram marcados pela reflexão crítica sobre o tempo desse retorno e sobre o desafio de uma nova responsabilidade, centrada no encontro com a modernidade - já que sem memória não há futuro. E leia-se um texto de 1993. "No Museu Real de Bruxelas pode ver-se um quadro de Peter Breughel, o Velho, "A Queda de Ícaro". Apesar do caráter trágico da fábula, esta pintura exprime um sentimento de paz, quase de serenidade. O símbolo da ambição humana mergulha no mar no meio da indiferença de tudo o que o envolve, homens concentrados no seu trabalho, baía serena com algumas barcas, natureza adormecida como num sonho, que acabaria melhor do que o de Ícaro. À direita do quadro, não longe do ponto onde o herói desaparece nas águas calmas, sobressai uma imponente carraca pintada com a minúcia flamenga característica do grande pintor. Tal é a minúcia que podemos ver no alto dos mastros duas bandeiras com as armas de Portugal, o escudo com as "quinas", em memória das cinco chagas de Cristo".

Guilherme d' Oliveira Martins

Só temos o "Planeta A"

Quando se multiplicam os alertas sobre a destruição da natureza e da sociedade humana, a guerra da Ucrânia, em plena Europa, envolve ameaça nuclear, crimes hediondos contra a humanidade, milhares de mortes, genocídio e desprezo pelos mais elementares princípios e regras do Direito e da Justiça, da Carta das Nações Unidas e da Declaração Universal dos Direitos Humanos, pondo tudo em causa e prenunciando um desastre imprevisível. Daí a atualidade da série documental, realizada graças à cooperação entre a RTP e a Fundação Gulbenkian, "Planeta A", composta por nove episódios, sobre o problema das alterações climáticas, com as preocupações, os alertas e as soluções que têm sido ou têm de ser encontrados nos quatro cantos do mundo. Ao longo de mais de dois anos, o ator João Reis viajou pelo planeta em busca de perguntas e respostas, procurando factos, testemunhando situações e ouvindo cientistas, investigadores e ativistas de todo o mundo. Como disse o realizador Jorge Pelicano um dos objetivos do trabalho é "mostrar" a realidade, porque "as palavras já existem há muito tempo". A sustentabilidade não se restringe a questões ambientais, mas abrange muitos outros temas, na economia, na sociedade e na cultura.

Guilherme d' Oliveira Martins

1820, 1834, 1910, 1974

As quatro datas que encimam esta crónica representam momentos fundamentais da História Portuguesa, relativamente ao constitucionalismo e à conceção democrática liberal da vida política e da cidadania. Num momento em que vivemos na Europa uma estranha guerra em que está em causa a soberania dos povos e a tentativa de um tirano tornar letra morta regras essenciais do direito e da paz, devemos tirar as lições da história política, pela afirmação da democracia como sistema de valores centrados na dignidade humana e nos direitos fundamentais da pessoa humana, e não como um modo de organização das sociedades. Ao contrário do que alguns proclamam, as democracias iliberais são grotescas contradições nos seus termos. O elemento liberal corresponde ao reconhecimento da liberdade das pessoas, como pedra angular da vida em sociedade. Não é o mercado que tudo comanda, mas sim a salvaguarda do bem comum pelo reconhecimento da autonomia individual. A liberdade económica é uma consequência da cidadania inclusiva e apenas faz sentido se as diferentes gerações dos direitos humanos forem escrupulosamente respeitadas - direitos individuais, direitos sociais económicos e culturais, direito ao desenvolvimento humano e à sustentabilidade. E na presente circunstância é o Direito da Paz e o Estado social de direito, centrados no primado da lei, na legitimidade do voto, na legitimidade do exercício e no respeito da justiça, que têm de ser arduamente defendidos. E temos de afirmar que muito do que assistimos é, tantas vezes, um grave atropelo dos mais elementares direitos, desde os juízos na praça pública sem a possibilidade de defesa até aos crimes contra a humanidade que os últimos dias têm revelado. Como poderemos pôr em causa o primado da lei e da justiça?

Guilherme d' Oliveira Martins

O regresso dos fantasmas

Assistimos ao regresso dos fantasmas. Quem conheça a história russa sabe que esta corresponde a uma longa sucessão de acontecimentos de afirmação imperial e de colonização. Como disse Berdiaev: "Um problema difícil apresenta-se incessantemente ao russo: o dilema de organizar o seu vasto território. A imensidão da Rússia e a ausência de limites ficou gravada na estrutura da alma russa." Aí está a raiz do drama, de alguma cegueira e do risco de perdição. Muito já se disse sobre a Rus de Kiev, sobre a relação com Bizâncio, sobre a conquista dos tártaro-mongóis, sobre a Horda do Ouro, sobre a arte de Alexandre Nevski de articular inimigos antigos como russos e mongóis, sobre o Grande-Ducado de Moscóvia, sobre a herança de Constantinopla e a Terceira Roma... A diversidade de fatores presentes dificulta sempre as análises objetivas. Os dois primeiros czares Ivan III, o Grande, e Ivan, IV, o Terrível (os russos traduzem por temível...) delinearam a presença nos portos de águas frias do Báltico, e nos portos de águas quentes do mar Negro, e projetaram o avanço asiático: Canato de Kazan (1552), Sibéria Ocidental (1555), Astracã (1556), Sibéria Central e Oriental (1620-50), oceano Pacífico (1671) e Alasca (1742). Pedro, o Grande, fundou o Império Russo (1721), aspirando a ser potência com legitimidade ocidental, e Catarina II prosseguiu a grande expansão oriental a sul da Ásia Central. Esta é a história da imensidão russa.

Guilherme d' Oliveira Martins

"Os Corvos"

De 1953 a 1967, o DN publicou ao domingo, sempre na mesma página, sem assinatura, mas com a marca indelével que todos sabiam de quem era, sob o símbolo da caravela e dos corvos de Lisboa, uma crónica semanal. Tratava-se dos imperdíveis "Os Corvos", da autoria de Leitão de Barros, de que foram publicadas duas preciosas coletâneas, uma até 1959 e outra até 1961, ilustradas por João Abel Manta - com título de sabor queirosiano: "Sobre a Nudez Nacional da Publicidade o Manto Diáfano da Tipografia". Reunia-se nessa gaiola um bando de corvos saídos de uma negra capoeira para dizerem, sem apelo nem agravo, de sua justiça... E assim se liam algumas bicadas certeiras nos "passarões" do tempo, como outrora As Farpas tinham alvejado a estupidez citadina. Nada de Lisboa passava despercebido ao cronista, desde a recuperação de Alfama, numa causa partilhada com Afonso Lopes Vieira, às ruínas do Carmo, ao restauro do Castelo, às vicissitudes da Avenida da Liberdade, passando pela falta de atenção à zona ribeirinha de Lisboa (causa pela qual tanto clamou no deserto), sem perder de vista a limpeza, o turismo e a hotelaria, na altura tão esquecidos. Atente-se num exemplo apenas, com o título "Alta Incultura": "Nunca saem destes passarocos elogios com água na boca. Mesmo quando dizem tolices, é a seco. (Além disso, os "corvos" estão de licença ilimitada sem vencimento - a única coisa sem limites que o Estado consente - e não têm pretensões nas altas esferas, pirâmides ou prismas). Assim, é sincero o seu aplaudir a este primeiro enlace que se vê dado nesta semana (a visita do ministro da Educação às agremiações populares) entre a nossa alta cultura e a nossa cultura popular - as duas manas sempre de relações frias, com pernóstica preocupação de não invadirem os respetivos "ladrilhos" de que a pura e simples CULTURA é feita." Os temas são muito diversos, avultando o combate ao mau gosto, à incivilidade, à pompa e à prosápia, ao ridículo, à mediocridade, à inveja e à censura. Joana Leitão de Barros e Ana Mantero em Leitão de Barros - A Biografia Roubada (Bizâncio, 2019) dão-nos o indispensável retrato, tantas vezes inesperado, do ambiente que rodeava a personalidade multifacetada e plena de imaginação, sem a qual não podemos compreender o Portugal do século XX.

Guilherme d' Oliveira Martins

Almanaque perpétuo

Abraão Zacuto (1450-1522), rabino, astrónomo, matemático e historiador, fez publicar em Leiria no início de 1496 o célebre Almanaque Perpétuo, que demonstra a qualidade excecional do homem de ciência - conselheiro de D. João II e de D. Manuel, num momento alto de cooperação de saberes de que as navegações portuguesas beneficiaram decisivamente. A ele se deve o aperfeiçoamento do astrolábio e a opinião favorável que deu para a viagem à Índia. Mesmo assim foi uma das vítimas da expulsão do povo judeu, não lhe valendo a muita admiração que lhe votaram os reis de Portugal e o progresso científico que tornou possível. Zacuto é um exemplo do método do planeamento rigoroso que permitiu a definição das missões marítimas e os seus importantes resultados, longe de qualquer improviso ou cedência ao curto prazo.

Guilherme d' Oliveira Martins

Homem dos sete ofícios…

José-Augusto França, com a perspicácia que sempre lhe conhecemos, afirmou que "Cottinelli Telmo foi talvez o artista modernista mais inteligente da sua geração". E quando nos deparamos com a obra multifacetada do artista, reconhecemos que nos múltiplos campos em que interveio deixou marcas de originalidade, de inovação e de uma curiosidade excecional. Minucioso conhecedor do período em que o artista viveu, J.-A. França pôde evidenciar o papel desempenhado pelo arquiteto entre os seus contemporâneos num período muito rico de renovação das artes e do pensamento. Cottinelli (1897-1948) foi arquiteto, desenhador, cartunista, argumentista, decorador, músico, cineasta da Canção de Lisboa, poeta, ensaísta, articulista, comunicador nato. António Ferro e Duarte Pacheco escolheram-no pelas suas múltiplas aptidões como arquiteto-chefe da Exposição do Mundo Português (1940). E teve a missão impossível de coordenar 12 arquitetos, 19 escultores e três pintores, entre os quais Almada Negreiros. São múltiplas as marcas da obra que nos deixou, desde a Estação de Sul e Sueste à Standard Elétrica, passando pela Alta de Coimbra - sem esquecer, enquanto presidente do Sindicato dos Arquitetos, o lançamento do Congresso dos Arquitetos de 1948 e os caminhos totalmente novos que então suscitou, falecendo pouco depois num acidente trágico. Teve assim um papel essencial, abrindo um novo tempo, no fim da guerra, marcado pela entrada em cena de uma jovem geração de arquitetos, profissionais e artistas, pela exigência de democratização das novas gerações e pela emergência de uma corrente orientada para o fomento, ditada pela "Linha de Rumo" de Ferreira Dias, depois da morte de Duarte Pacheco (1943) e com a saída de António Ferro do SNI (1949).

Guilherme d' Oliveira Martins

Comunidade de cidadãos...

A Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), ao celebrar 25 anos de vida, está confrontada com a exigência de corresponder à necessidade de assumir uma maior relevância na cena internacional, em linha com as profundas alterações que ocorrem no mundo. Não bastam as boas intenções. É necessário considerar as dificuldades e os ventos adversos com que a organização se tem debatido. E importa ter presente que falamos de uma comunidade que reúne países com uma língua comum, mas com culturas diferentes. A língua portuguesa tem presença em todos os continentes, mas não é uma realidade uniforme, abrangendo várias línguas e tradições. Os crioulos do português são exemplos de uma extraordinária riqueza.

Opinião

"Dias e dias..."

Esta peste que nos assolou ainda vai dar muito trabalho. Mesmo com a vacinação completa, precisamos de mil cuidados. A máscara veio para ficar. Antes, admirávamo-nos com o facto de os orientais que nos visitavam ostentarem máscaras cirúrgicas que nos intrigavam. O facto é que sabemos muito pouco desta doença. Tem havido muita literatura, atual ou antiga, e milhentos especialistas (que, em bom rigor, se confundem entre eles). A ciência tem muito para dar e muito para aprender, e a verdade é que é extraordinário como ao fim de um ano já contamos com vacinas, que são preciosa ajuda. E a solidariedade? Mas não conquistámos nem a imunidade de grupo, nem qualquer certeza sobre proteção e invulnerabilidade. Houve muitas vítimas, diretas e indiretas, prudência e imprudência, responsabilidade e irresponsabilidade... No nosso panorama literário duas obras da mesma autora - uma saída antes da pandemia e outra depois, merecem referência especial.

Guilherme d' Oliveira Martins

D. Maria da Glória

Começo por pegar ainda no tema da última crónica - os jacarandás em flor. Numa noite destas, o meu amigo Miguel Sousa Tavares assinalou-me com inteira justiça o seguinte: "Esqueceu-se da Avenida da Torre de Belém, que só tem jacarandás e que, além disso, é a mais bonita rua de Lisboa." Sendo verdade que apenas dera exemplos, só tenho de concordar, sem mais justificativos - com um forte abraço de estima antiga. E esta primavera tem conseguido que usufruamos uma das mais belas florações dos últimos anos, e estamos felizes por isso!

Guilherme d' Oliveira Martins

Imperfeita e preciosa

Ao considerar a democracia portuguesa como "imperfeita e preciosa", a propósito do oportuníssimo discurso do Presidente da República na sessão parlamentar comemorativa do 25 de Abril de 1974, Clara Ferreira Alves usou duas palavras apropriadas ao valor insubstituível da liberdade. Mais do que um discurso de circunstância, o Presidente preferiu uma reflexão séria e aprofundada sobre o presente, que não esquece as raízes e se projeta como responsabilidade no futuro. "Olhar (a história) com olhos de hoje e tentar olhar com os olhos do passado que as mais das vezes não é fácil de entender, sabendo que outros nos olharão no futuro de forma diversa dos nossos olhos de hoje" - eis o que está em causa. A missão é ingrata, bem o sabemos, já que julgar o passado com olhos de agora seria exigir aos que viveram esse tempo que "pudessem antecipar valores ou o seu entendimento para nós agora tidos por evidentes, intemporais e universais, sobretudo se não adotados nas sociedades mais avançadas de então"... De facto, revisitar a história obriga a muitas precauções - para que não se caia na fácil tentação de "passarmos de um culto acrítico triunfalista exclusivamente glorioso da nossa história para uma demolição global e igualmente acrítica de toda ela". Importa aprender a olhar, em especial pondo-nos no lugar dos outros. Por exemplo, usar os olhos "que não são os nossos, os do antigo colonizador, mas os olhos dos antigos colonizados, tentando descobrir e compreender, tanto quanto seja possível, como eles nos foram vendo e julgando, e sofrendo, nomeadamente onde e quando as relações se tornaram mais intensas e duradouras e delas pode haver o correspondente e impressivo testemunho". De facto, não há diálogo se não for possível ir além das atitudes e dos preconceitos de cada um. Importa trocar experiências e usar o sentido crítico como método biunívoco. E há a precaução, porventura mais sensível de todas - a consideração dos vários tempos nas nossas vidas. "aqueles de nós portugueses que têm menos de 50 anos não conheceram o império colonial nem nas lonjuras nem na vivência aqui no centro. O seu juízo é naturalmente menos emocional, menos apaixonado". Mas devemos distinguir, como salientou o Presidente da República, a posição de "muitos jovens das sociedades que alcançaram a independência contra o império português e viveram depois décadas conturbadas pelos reflexos de vária natureza da anterior situação colonial". De facto, a história nunca pode ser vista de um só lado. Falamos de fenómenos complexos e diversos, de existências diferenciadas, de interpretações que têm de recusar a simplificação.

Guilherme d' Oliveira Martins

No coração de Portugal…

Falávamos normalmente dos mais diversos temas, mas naquele dia deu-me conta de um projeto novo que o entusiasmava, a produção de queijo da serra, seguindo por métodos modernos uma tradição antiga, nas pisadas de seu avô. E pediu-me que recolhesse elementos sobre as origens antigas desse precioso alimento, que para muitos é o melhor queijo do mundo. Conversámos longamente e verifiquei que o Jorge sabia praticamente tudo o que era relevante. Como era seu hábito, já planeara a ação até ao ínfimo pormenor. Apenas desejava reforçar o valor do património cultural - permitindo aos futuros consumidores a consciência de que beneficiavam de uma experiência única. No fundo, disse-mo tantas vezes, com a argúcia e a inteligência conhecidas, e nunca encontrei melhor definição, a cultura reúne o que recebemos das raízes, da memória e da herança dos nossos antepassados, à capacidade de fazer da vida um fator de permanente aperfeiçoamento. E, não por acaso, a etimologia da palavra cultura, que usamos, tem que ver com o campo, no qual semeamos e colhemos. Para cultura do espírito, os gregos falavam de paideia e os latinos de humanitas - e o Jorge ao lembrar Mangualde dos seus antepassados, fazia-o sentindo o mais puro património, genético e imaterial, com que se constrói a cultura moderna.