Festa do Avante

Thomas Fischer

Reflexões sobre a Festa do Avante!

Reflexões sobre a Festa do Avante! Por favor, menos preconceito e mais abertura para o debate construtivo sobre a normalidade possível em tempos de pandemia. A questão da realização da festa deixa-me dividido. Compreendo as reservas de natureza sanitária manifestadas por algumas pessoas. Eu próprio tenho uma série de cuidados no meu dia-a-dia. Evito ir à praia ao fim de semana e mantenho a distância social, mas vou ao cinema, já fui à feira do livro e a ideia de ir à Festa do Avante! não me assusta. Reconheço ao PCP uma capacidade de organização, mais que comprovada em municípios com presidentes de câmara eleitos pela CDU. Será preciso uma grande dose de cegueira ou de maldade para não reconhecer alguma originalidade revelada pela CGTP no seu comício de 1 de maio deste ano que, pelo menos do ponto de vista sanitário, não deu motivos para preocupação. Gostava de ver como o PCP cuida da segurança na Festa do Avante! Gostava de ver não apenas se a organização cumpre as regras estabelecidas. Gostava de ver que soluções o PCP encontrou para organizar este grande evento em tempos de pandemia. Sim, sou da opinião que precisamos de criatividade e de novas ideias. Se estas ideias vêm da festa do Avante do PCP ou da festa do Chão da Lagoa do PSD-Madeira ou do Santuário de Fátima, do FC Porto, do Festival Nós Alive ou da Festa da Nossa Senhora da Agonia em Viana do Castelo é-me completamente indiferente. Acho simplesmente que devíamos procurar novos caminhos entre a proibição ou a autorização de determinados eventos. Não estou a defender o modelo sueco. Mas achei interessante, por exemplo, uma proposta de os Verdes na cidade alemã de Colónia que se pode resumir no corte de trânsito em certas ruas em determinados horários da noite para criar espaço para o convívio ao ar livre. Como é óbvio, isso exigiria equipamentos e dispositivos para garantir o distanciamento social. Admito que será impossível viver sem restrições e proibições. Mas vemos que só as proibições e imposições encontram, às vezes, pouca compreensão, sobretudo entre a malta mais jovem. Vejo com preocupação que não assistimos apenas a situações de incumprimento (em Espanha e na Alemanha mais que em Portugal), mas também ao crescimento da adesão a movimentos anti-máscaras criados ou infiltrados por elementos da extrema-direita (que querem, como será óbvio, capitalizar um agravamento da pandemia). Alegramo-nos com a chegada de turistas britânicos, e parece que ninguém pergunta quantos deles poderão estar infetados. As praias estão cheias. A feira do livro (cuja organização saúdo) está a ser bem frequentada. Alguém me diz porque o vírus há de propagar-se de preferência na festa do Avante de uma forma que alguns comerciantes decidam fechar as lojas e alguém lança na internet uma petição a exigir a quarentena obrigatória para os participantes da festa? Compreendo aqueles que, neste verão, sentiram falta dos festivais de música e compreendo a ânsia dos adeptos de futebol de poderem voltar aos estádios. Mas nada disso justifica a diabolização da festa do Avante à qual temos vindo a assistir. Nos 37 anos que vivo em Portugal acho que nunca vivi um clima de ódio e de intolerância como agora. Para este ambiente contribuí, obviamente, não apenas a polémica sobre a festa do Avante. Já o "Chega" tem vindo a contaminar o ar que respiramos. O que faz falta é termos um clima de conversa construtiva sobre o que se pode fazer e o que não se pode fazer nestes tempos de pandemia, de conversa sobre novas soluções. Jornalista alemão a viver em Portugal há 37 anos