Fernando Alves

Fernando Alves

O sapo de Carybé não queria ser boi

Hector Páride Bernabó, filho de um andarilho da Toscana para quem o mundo era já ali, e de uma brasileira de Posadas, nasceu argentino até mais ver num outro 7 de fevereiro, há 110 anos, e foi juntar as primeiras letras em Génova até que a ânsia de mundo do pai o levou ao Rio. No Clube de Regatas do Flamengo deram-lhe o nome de um peixe da Amazónia e ficou Carybé para nossa alegria. Trabalhou com Cortázar em El Diario, tocou pandeiro para Carmen Miranda, ilustrou todas as edições brasileiras dos livros de Gabriel García Márquez a partir de Ninguém Escreve ao Coronel e um dia ficou preso a uma cidade. O amigo Rubem Braga explicou a coisa assim: "Carybé não se inspira na Bahia, é a Bahia que se inspira em Carybé." O grande cronista chegou a imaginar que os baianos se transfiguravam nos desenhos de Carybé, o "Capeta Carybé", como lhe chamou Jorge Amado, amigo superlativo.

Fernando Alves

Os pés ao caminho

Quando os átrios dos aeroportos eram grandes rossios de gente acenando a viajantes, passei horas observando como estes caminhavam ao encontro de um abraço ou passavam de olhar alheado, lembrando aventureiros chegados de desenterrar tesouros em Nínive ou de descobrir cidades perdidas. Há tipos que, de tanto voarem sentados, parecem caminhar como se o chão tivesse pedais. Outros deslizam como se desenhassem uma coreografia ou adivinhassem rios subterrâneos. Alguns arrastam os pés empurrando a sua casa de rodas, um olhar de Sísifos asténicos.