Editorial

Rosália Amorim

Transformar derrotas em vitórias?

O Orçamento chumbou. Costa perdeu ou Costa ganhou? Costa continuou a falar para a esquerda até ao último segundo, durante o debate que antecedeu a votação na generalidade do Orçamento do Estado 2022, ontem no parlamento. "Basta que a esquerda do PS não some os seus votos aos votos da direita para que o Orçamento possa ser viabilizado", lançou António Costa em jeito provocador. De nada valeu. O chumbo estava anunciado e confirmou-se. Ninguém cedeu. Como num duelo automóvel, em que dois carros correm a alta velocidade um contra o outro, nenhum cedeu, nenhum se desviou do caminho.

Leonídio Paulo Ferreira

Há muito Japão além de Murakami

Haruki Murakami tornou-se um fenómeno em Portugal desde que cá chegou Norwegian Wood e por isso não surpreenderá que o novo livro, uma coletânea de contos intitulada Primeira Pessoa do Singular, se transforme num campeão de vendas. Confirma a notoriedade da cultura japonesa entre nós, seja a nível popular, como é o caso do manga e do anime, seja num plano mais erudito, basta pensar na retrospetiva sobre Akira Kurosawa que no ano passado esteve no lisboeta Nimas ou o ciclo dedicado a mestres desconhecidos do cinema japonês programado para o Cinema City Alvalade em novembro e depois para o Porto.

Leonídio Paulo Ferreira

Lanças turcas em África, incluindo na lusófona

Angola, um dos três maiores exportadores de petróleo em África, recebeu agora a visita do presidente turco, num périplo que o leva também à Nigéria (outro gigante petrolífero) e ao Togo e eleva para 30 o número de países do continente que Recep Erdogan já visitou nestas quase duas décadas no poder em Ancara, primeiro como chefe do governo e depois como chefe do Estado. É impossível não identificar uma clara estratégia para África por parte do líder turco, não só por causa das constantes visitas, mas também pela multiplicação do número de embaixadas. São já 43, e a 44.ª deverá ser aberta talvez ainda neste ano em Bissau, na sequência de uma visita à Guiné no final de 2020 pelo ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlüt Çavusoglu, personalidade que pelo cargo e pela confiança pessoal é o braço direito de Erdogan nesta ofensiva diplomática que tem muito de económica.

Rosália Amorim

"Busca do prestígio" pode ser "doença do espírito"

A sabedoria e a forma como usa as palavras continuam a surpreender-nos. O Papa Francisco fez referência aos três ataques que ocorreram nos últimos dias, em três países, e veio lembrar ao mundo que "a violência é uma derrota para todos", durante a oração do Angelus, na Praça de São Pedro, no Vaticano, em Roma. O Papa referiu-se ao ataque de quarta-feira na cidade norueguesa de Kongsberg, quando um homem armado com um arco e flechas matou cinco pessoas; ao atentado suicida contra uma mesquita xiita no sul do Afeganistão, que causou pelo menos 60 mortes; e ao assassínio do deputado conservador britânico David Amess, na sexta-feira, quando estava a reunido com eleitores do seu círculo eleitoral, no leste de Inglaterra.

Rosália Amorim

Não é tempo para ilusionismos

O país respira mais confiança. O turismo está de regresso e tem futuro neste território à beira-mar plantado. Nas ruas, de norte a sul, voltamos a ver e a ouvir os turistas a puxarem os seus trolleys, a agitação dos tuk-tuks, aviões no ar e, no caso de Lisboa, os cruzeiros de grande porte já voltaram a atracar no rio Tejo. O mesmo está a acontecer nos arquipélagos dos Açores e da Madeira que, neste ano, foram redescobertos pelos lusitanos e atraem cada vez mais estrangeiros. Sim, o turismo tem futuro e as exportações nacionais agradecem! Há muito caminho para fazer, mas cada vez com "mais sustentabilidade", como afirmou Luís Araújo, presidente do Turismo de Portugal, na conferência "Pandemia, e depois? A sustentabilidade como resposta", que decorreu nesta quinta-feira, em Cascais.

Leonídio Paulo Ferreira

Sarkozy e os ideais da República

Numa V República francesa que foi fundada por Charles de Gaulle, uma figura épica, e que teve também entre os seus presidentes um estadista da qualidade de François Mitterrand, não é de crer que Nicolas Sarkozy tenha deixado grande marca. Mas ao ser agora condenado a um ano de prisão por ter ignorado todas as leis (e os alertas que lhe foram chegando) sobre limites de financiamento eleitoral na campanha de 2012, o antigo presidente serve de prova viva da força da ideia republicana de igualdade perante a lei. Até porque quando violou a lei não era um simples candidato, mas sim o próprio chefe do Estado em busca de um segundo mandato.

Leonídio Paulo Ferreira

Atenção ao homem do SPD

Com os trabalhistas britânicos remetidos ao mais pequeno grupo parlamentar desde 1935, o Partido Socialista francês também em mínimos históricos e o Partido Democrata a ser apenas a terceira força em Itália, o triunfo do SPD nas legislativas alemãs de domingo significa a possibilidade de voltar a haver um governo de um dos quatro grandes países da Europa Ocidental chefiado por alguém do campo social-democrata. Para isso será necessário que Olaf Scholz transforme os magros 25,7% da sua vitória nas urnas (mesmo assim uma subida de 5,2 pontos percentuais em relação a 2017) nos alicerces de uma coligação que o leve a chanceler, substituindo a democrata-cristã Angela Merkel, de quem era até agora ministro das Finanças, no quadro de uma aliança governamental que durava há oito anos.

Joana Petiz

A lixeira do mundo na luta pelo ambiente

Enquanto a Europa e os EUA traçam planos ambiciosos para proteger o ambiente - uma urgência que não é discutível -, a China e a Índia sozinhas conseguem manter a procura mundial de carvão estável, mesmo com as quebras de produção que a pandemia trouxe ao mundo. E mesmo com todos os esforços do Ocidente para eletrificar e limpar as suas economias. São dois terços da procura mundial de carvão concentrados em dois países. Alimentar estes dois gigantes em franca expansão significa, de acordo com a Agência Internacional da Energia, que tão cedo o mundo não se livra destas centrais e das consequentes emissões, com Pequim a liderar o consumo, apesar do compromisso recentemente assumido por Xi Jinping de se juntar à luta pela descarbonização.

Opinião

Punidas pelos crimes dos maridos

Leonor, que assinava como Alcipe e ficou para a história como Marquesa de Alorna, é um grande nome da poesia portuguesa, mas o que muitas vezes se esquece é que viveu a infância e a juventude prisioneira num convento por causa do envolvimento da família no célebre caso dos Távora, uma suposta tentativa de assassínio de D. José por figuras da nobreza. Além de Leonor, também a mãe e a irmã passaram quase duas décadas encerradas num convento lisboeta, até D. Maria I subir ao trono e desfazer muito daquilo que o pai (com a ajuda do Marquês de Pombal) tinha feito.

Opinião

O bater de asas dos submarinos

Pode a China, sem dar um passo, provocar elevada tensão entre potências aliadas ocidentais, como os Estados Unidos da América e a França? Ao que tudo indica, sim. E o presidente francês, Emmanuel Macron, não teve com meias medidas: chamou a Paris os embaixadores em Washington e Camberra como sinal de protesto pela aliança EUA/Reino Unido/Austrália para a região Indo-Pacífico implicar a compra, pelas autoridades australianas, de submarinos nucleares de fabrico norte-americano, em vez de submarinos franceses a diesel.