Daniel Deusdado

Daniel Deusdado

A vivermos este ano como se fosse o último

Não é só cá que o turismo está em carga máxima. Tentei há semanas alugar um carro de sete lugares em Montreal, Canadá, para uma viagem de trabalho no final de julho. Das oito rent-a-car no aeroporto (Avis, Sixt, Hertz, etc.), nenhuma tinha um único de dimensões maiores. O mesmo nas rent-a-car da cidade. E idem na cidade mais próxima, Quebec. Encontrei finalmente um último, num site (Turo) onde particulares alugam carros - um Ford de 2010, com muitos, muitos quilómetros. Escusado será dizer quão absurdo está o custo dos voos.

Daniel Deusdado

A revolta das mulheres continua sem dia marcado

É tão violento o recuo do Supremo Tribunal norte-americano nos direitos das mulheres face ao aborto quanto a inominável opressão afegã na obrigação de uso da burca pelas mulheres. Entretanto, as violações, frequentemente levadas a cabo pelas hordas de exércitos invasores ao longo da história, estacionam de novo à nossa frente. Estamos em 2022 e somos confrontados com a aparente novidade de a Rússia, enquanto país, ter um comportamento social dominante tão misógino que se torna num excremento civilizacional a flutuar no século XXI. A idade moderna vive a sua idade média.

Daniel Deusdado

Matarruanos do lítio impedem glorioso futuro

"Congo belga". Foi com esta surpreendente comparação que um alto quadro da União Europeia aludiu, numa conversa privada, ao problema da violenta pressão para que Portugal seja a salvação europeia na exploração do lítio. Estudos não faltam e todos dizem a mesma coisa: temos muito. O maior filão europeu. A pergunta seguinte, no entanto, é esta: mas que lítio? Como explorá-lo? Quais as consequências? E é assim que, de forma aparentemente avisada, a Galp desistiu de construir a fábrica de transformação do lítio, a norte, para a colocar em Setúbal. Presume-se que pela sensata razão de que não adianta escavacar as montanhas do Alto Minho, Trás-os-Montes ou Serra da Estrela para obter apenas 10% de lítio por tonelada de pedra extraída.

Opinião

A Ucrânia é Auschwitz da nossa geração

O medo é uma ficção. Um "bluff". Putin sabe que os direitos humanos estão no coração de cada pessoa de bem deste planeta, por mais que tenhamos aprendido a ignorar os migrantes afogados, os povos em fuga de guerras, ou pura e simplesmente os envenenados do Kremlin. Mas há limites: ver morrer em direto os ucranianos, hora a hora, na sua própria terra, invadida sem qualquer legitimidade, é um novo teste de indiferença que finalmente não vamos conseguir passar.

Opinião

As eleições são entre Rio e Pedro Nuno Santos

Caso prático: Jerónimo de Sousa disse esta semana, com a candura habitual, que o PCP esteve sempre disponível para evitar o chumbo do orçamento. A sua flexibilidade era tal que aceitava um aumento do salário mínimo apenas para 800 euros, em vez de 850. Foi o inflexível António Costa que não aceitou. Recorde-se que o valor era de 665 euros até anteontem e o Governo propunha (e concretizou) um aumento para 705 euros acrescido de um plano de aumentos sucessivos até 750 euros. Questão: não tendo António Costa maioria absoluta, o que lhe exigirá Jerónimo de Sousa para aprovar um novo orçamento? Volta atrás depois de ter feito cair um Governo?

Daniel Deusdado

Negacionismo ou pânico: encurralados na DGS

Só nos faltava perder o respeito pelos médicos e epidemiologistas. Esse é o fator que em caso nenhum deveria ser alienado nesta pandemia. Mas corre o risco de acontecer se o público perceber que a pressão dos especialistas de saúde pública não se altera em função da realidade. A crise exige estas cautelas em curso, mas precisa também de uma perspetiva que valorize o caos psicológico de medidas extremas e do dano económico acumulado. Sem isso não haverá proporcionalidade nem esforço coletivo.

Daniel Deusdado

Não vacinar crianças é como ignorar África

Problema 1: a velocidade de mutação da sars-cov-2 é a maior ameaça no presente e sucede tanto mais veloz quanto mais pessoas não lhe oferecem resistência vacinal. Nessa medida, a prioridade mundial - inúmeras vezes repetida - deveria ser a de vacinar a esmagadora maioria da população que queira participar neste esforço humanitário de combater um coronavírus novo, agressivo, mutante, pandémico, de forma a torná-lo apenas endémico. Para isso é preciso vacinar África onde há países com números inacreditáveis (New York Times - https://www.nytimes.com/interactive/2021/world/covid-vaccinations-tracker.html): Congo com 0,2% da população (caso mais extremo) mas onde a populosa Nigéria não ultrapassa os 3% - a média, aliás, do continente africano. Não por acaso, a nova mutação vem da África Austral porque a lotaria das mutações agressivas também resulta das probabilidades de contágio sem resistência.

Daniel Deusdado

O 'bluff': suicídio da esquerda inútil

O estado de maioridade de Catarina Martins resultava mais da sua capacidade em desafiar/sacar algo a António Costa do que ser uma mera soma de equilíbrios entre o PSR e a UDP dentro do tumultuoso Bloco, onde quem grita mata nunca ultrapassa o que diz esfola. Tal como em 2011, no famoso chumbo do PREC IV, o Bloco fica colado à sua razão - que é do tamanho da sua inutilidade - e em nada se distingue do PCP. O povo da esquerda interroga-se: vão ganhar o quê? Não tentaram sequer marcar pontos concretos para as pessoas na discussão do Orçamento da "especialidade"?