Bernardo Pires de Lima

Bernardo Pires de Lima

A geopolítica da vacina

O processo de vacinação em curso é o passaporte para o início da recuperação das economias, progressivamente aliviadas de confinamentos e socialmente normalizadas. Dizem os especialistas que ultrapassada a emergência pandémica e o período de vigilância sanitária, cuja mistura ainda nos angustia, passaremos a conviver com o vírus de forma endémica, habituada e sazonal. A duração disto é uma incógnita, o que não desmerece os entretantos. E, nestes, há muito em jogo: a vacina transformou-se num instrumento de poder, influência, prestígio e posicionamento estratégico. Se quiserem, deu origem a autênticas superpotências da saúde pública, dando à diplomacia da vacina um cunho que pode ir da salvação gloriosa de terceiros à chantagem por vantagens políticas. Será assim a natureza humana: é na desgraça que se revela.

Bernardo Pires de Lima

Ilusão e realismo

A administração Biden tem sido arrumada sem sobressaltos, casos ou atropelos, recorrendo à experiência e à determinação de muitos que serviram presidentes democratas no passado recente. Só esta normalidade já é um feito político, no meio do caos administrativo deixado por Trump e do cerco democrático exposto pela invasão ao Capitólio. Tal como um presidente divisionista arrasta propositadamente multidões para a irreversibilidade da trincheira, também um presidente de perfil oposto tem mais capacidade para pacificar a sociedade, negociar legislação bipartidária, ser um promotor mais construtivo de soluções na frente externa. Se liderar pelo exemplo não é premissa oca, também a liturgia política precisa de dignidade restaurada.

Bernardo Pires de Lima

O exemplo americano

Ser o primeiro na história alvo de dois impeachments não devia enobrecer nenhum político, mas envergonhá-lo eternamente e a todos os seus apoiantes. Há um ano, num contexto pré-covid e com a reeleição na mira, as bancadas republicanas no Congresso uniram-se para proteger um presidente alvo de acusações de obstrução à justiça e abuso de poder. A sua popularidade, sempre constante, atingia os 45% e as condições para atacar a eleição presidencial cimentavam o culto do chefe. Hoje, o contexto é totalmente diferente.