António Araújo

António Araújo

A tourada das touradas

O verdadeiro e autêntico ocorreu na Paris de França, inícios de 1959. E meteu um motorista, como sempre, que se fazia passar por polícia e recrutava as meninas para as festas. Entre os presuntos implicados, nem mais nem menos do que o presidente da Assembleia Nacional, André Le Troquer, um homem de 74 anos que perdera um braço nas trincheiras da guerra de 14-18, antigo deputado socialista e nome grande da Resistência, figura próxima do general De Gaulle, com quem desceu os Campos Elísios no glorioso Dia da Libertação. As raparigas, essas, algumas das quais menores, eram recrutadas entre jovens aspirantes a artistas e bailarinas, razão pela qual o escândalo ficou conhecido como dos ballets roses, os originais, de Paris de França. As orgias decorriam, imagine-se, na própria sede da Assembleia, o Palais-Bourbon, no edifício da Ópera e na residência oficial do presidente do parlamento, o Pavillon du Butard. No final, condenaram uma dúzia de idosos lúbricos, gente da alta, entre os quais Le Troquer, ainda que este, atendendo à provecta idade e aos muitos serviços prestados à pátria, tenha levado pena suspensa. Ostracizado da vida política, abriu um restaurante nas faldas de Montmartre, rue des Martyrs, e morreu pouco depois, como merecia.

António Araújo

Paris em Lisboa

Quem sobe a Rua Nova do Almada, rumo às elegâncias do Chiado trendy, talvez ignore que ele lá viveu. Já não existe sequer a Pensão Algarve, que o hospedou, nem a Livraria Barateira, à Trindade, onde também esteve. E é tanta a desmemória da cidade que até há pouco nem mesmo havia placa a assinalar tudo isso, a lembrar gerações mais novas que há 80 anos, finais de 1941, a II Guerra passou por aqui, Paris em Lisboa. Numa estada de cinco semanas, encarnou-a um homem jovem, de ar cinematográfico, que mais tarde pagaria com a vida a ousadia do seu gesto, a coragem da resistência.

António Araújo

A traição da tradição

A tradição já não é mesmo o que era. Agora, ao que parece, há até tradicionalistas e Tradicionalistas, e o que distingue uns dos outros é bem mais do que o uso de uma maiúscula. Em bom rigor, os Tradicionalistas são inimigos figadais dos tradicionalistas, pelo menos a crer em quem os acompanhou de perto e estudou a fundo, como foi o caso de Benjamin Teitelbaum, professor na Universidade do Colorado e autor de Guerra Pela Eternidade: o retorno do Tradicionalismo e a ascensão da direita populista, cuja tradução brasileira acaba de sair há pouco, pela Unicamp. Recomenda-se muitíssimo: Teitelbaum entrevistou e conviveu durante anos a fio com os próceres do Tradicionalismo - Steve Bannon, o russo Aleksandr Dugin ou o brasileiro Olavo de Carvalho, guru de Bolsonaro. O retrato que nos traz é assombroso.

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Para além do bem e do mal

Aquele caminho ficou para sempre com o seu nome, tantas as vezes que o percorreu, ruminando na solidão de si mesmo. Esteve ali uma larga temporada, de Dezembro de 1883 até à Primavera do ano seguinte, mas regressaria mais vezes. Não foram tempos felizes, esses: pouco antes, Lou, a grande amada, que por três vezes recusara casar-se com ele, rompera agora em termos irreversíveis, definitivos; e Richard, o seu antigo amigo, que tanto venerava, morrera em circunstâncias estúpidas em Veneza, de uma apoplexia cardíaca, depois de uma tempestuosa discussão com a mulher, que o acusava de andar tomado de amores por outra. Ele próprio não se sentia bem de saúde, para dizer o mínimo. Nas salas de jantar dos hotéis e das pensões onde dormia, afastava-se dos outros comensais, que o censuravam ou gracejavam com a sua dieta espartana, feita de chá fraco, ovos, um pouco de carne. Nem esses sacrifícios o poupavam à Blitzkrieg intestinal que o seu corpo lhe movia e que o fazia ficar prostrado na cama durante dias a fio, por vezes uma semana inteira, acometido de vómitos, de dores lancinantes nas têmporas e de diarreias agudas, como escreveu a sua biógrafa Sue Prideaux num livro saído entre nós em 2019 (Eu Sou Dinamite!, Temas e Debates).

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Uma baleia na sala

Miss P. foi ao Porto e trouxe de lá uma baleia. Um bicho enorme, portentoso de gigante, quase tão grande como a minha ignorância, que desconhecia ao completo que Sophia escrevera um conto inspirado no seu bisavô. Sophia com ph é Sophia de Mello Breyner Andresen, o conto chama-se "Saga" e está incluído no livro Histórias da Terra e do Mar, e o bisavô é, ou foi, Jann Hinrich Andresen, um homem que em jovem rumou ao sul, contra a vontade paterna, a bordo de um navio-veleiro vindo das Frísias, ilha de Förh. Jann fez fortuna na Invicta e, com ela, comprou uma quinta bela, com vistas de mar e tudo, onde existia uma casa enorme, portentosa de gigante, bem maior do que uma baleia. Nessa casa, diz Sophia na saga (ou a saga de Sophia), tudo era "desmedidamente grande", "desde os quartos de dormir onde as crianças andavam de bicicleta até ao enorme átrio para o qual davam todas as salas e no qual, como Hans dizia, se poderia armar o esqueleto da baleia que há anos repousava, empacotado em numerosos volumes, nas caves da Faculdade de Ciências por não haver lugar onde coubesse armado".

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A acupunctura em Odemira

Há pouco, Odemira entrou e saiu num ápice dos nossos noticiários, sem que tivéssemos o tempo e a clareza suficientes para sabermos se por lá se praticam, ou não, as artes da acupunctura. O ponto é mais relevante do que parece e Zeca Afonso debateu-se com ele já antes do 25 de Abril, ainda que A Acupunctura em Odemira só tenha visto a luz do dia em 1978, no álbum Enquanto Há Força, a par de pérolas como Barracas Ocupação, feita para a peça homónima de Richard Demarcy, dramaturgo francês e homem do Maio 68, que o ajudara na gravação de Grândola.

António Araújo

A peste e o absurdo

"Acabo de receber um manuscrito enviado por Malraux, o autor é um jovem que vive em Argel. Vou ler-vos as primeiras linhas" − foi assim, numa tarde de Abril ou Maio de 1941, que Jean Paulhan apresentou O Estrangeiro ao exigente comité de leitura da editora Gallimard. Não foi necessário muito para que todos concordassem que o texto deveria ser publicado, naturellement, sem reservas ou dúvidas. André Malraux fizera comentários entusiásticos, e o romance fora também lido e saudado, ao que parece, por Roger Martin du Gard.

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A vã cobiça

Cobiça, além de pecado, é nome de terra. Lá vive a primeira e a mais antiga das fãs, a fidelíssima, que desde há dezenas de anos não falha os cartões de Natal e de aniversário para o ídolo, nascido perto, a sete quilómetros dali, em Cachoeiro de Itapemirim, a qual, sendo terra, também é pecado, pois nela viu a luz. Luz del Fuego, nome artístico de Dora Vivacqua, mulher portentosa e poderosa, ardente feminista e escandalosa escritora, que dançava nua, envolta apenas em cobras, até ser covarde e misteriosamente assassinada na ilha do Sol, onde fundara a primeira colónia nudista da América Latina. A ela voltaremos muito em breve, que bem merece.

António Araújo

Across the 110th Street

Há vidas e vidas, mas a deste foi qualquer coisa. Não existirão, na verdade, muitas autobiografias que comecem com a descrição de um homicídio ou, melhor dizendo, de uma tentativa de homicídio, em que o autobiografado teve a mulher a apontar-lhe uma arma à cara, olhos nos olhos, e a disparar o gatilho, em fúria. A bala raivosa falhou o alvo por um triz, mas, segundo ele diz, deu-lhe um penteado novo, uma auto-estrada aberta no alto do couro cabeludo, quase da testa à nuca. Barbara, a mulher em fúria, era viúva do melhor amigo dele, Sam, que fora baleado no peito - e à queima roupa - pela gerente de um motel em Los Angeles, tendo as autoridades concluído que o homicídio fora justificado, porquanto, segundo garantiu a gerente, Sam tinha entrado pelo escritório do motel dentro, enfurecido e nu, em busca de uma mulher que conhecera nessa noite numa boate e que levara para o seu quarto, onde a despiu e tentou violar. A mulher conseguiu saltar por uma janela e fugir rua fora, seminua, espavorida, mas Sam, julgando que ela se abrigara no escritório do Hacienda Motel, foi até lá, em fúria, e acabou morto.

António Araújo

Que viva o porno!

Na manhã de 18 de Setembro de 1923, uma mulher que andava a fazer uma caminhada pelas montanhas de Santa Mónica descobriu no chão um sapato feminino, um casaco e uma carteira. No interior da carteira, uma nota bizarra, assinada com as iniciais P.E.: "Tenho medo, sou uma cobarde, tenho medo de tudo. Se tivesse feito isto há mais tempo, teria poupado muito sofrimento." A caminhante olhou para o fundo da ravina e viu o cadáver de uma jovem mulher. Receando meter-se em sarilhos, deixou os objectos nas escadas da esquadra da polícia de Hollywood e depois ligou para lá, a contar o que tinha visto.