Afonso Camões

Afonso Camões

Queixem-se do populismo!

Em fila para a vacina, vemo-los armar os anzóis, que há mais peixe graúdo a disputar a lota dos interesses. Tarde e más horas, com eleições à vista, os partidos vão tentar, nos próximos dias, chegar a um acordo para emendar a lei eleitoral autárquica que os dois maiores fizeram aprovar no verão passado, criando dificuldades acrescidas às candidaturas independentes. A pressa daqueles é filha do medo de que estas criem o seu próprio partido e ameacem o cartel dos instalados.

Afonso Camões

A nova Arca de Noé

Cansados da pandemia e tolhidos pelo confinamento, atiramos a cabeça às nuvens e sonhamos com a próxima viagem. É nesse espírito que a União Europeia acelera a criação de um "passaporte sanitário" para salvar a campanha de verão. Eufemismos à parte, o "certificado digital verde", como prefere chamar-lhe António Costa, visa facilitar a livre circulação no contexto da covid-19 e atestar se o seu portador foi vacinado, se tem anticorpos ou deu negativo em teste recente.

Afonso Camões

Se a vacina fosse de roer!

A máscara dos nossos dias disfarça-nos o sorriso e ajuda a encobrir um país sem dentes para algumas nozes. Literalmente! Por mais que as televisões os escondam - e que até uma produtora tenha pago a dentadura do cidadão Fernando Jorge da Silva dos Santos, a quem chamamos de "Emplastro" -, faltam dentes a mais de metade da nossa população. Discreto, por entre a mórbida contagem dos números da pandemia, o último Barómetro Nacional de Saúde Oral revela que 70% dos portugueses vivem com falta de dentes naturais, e que a onze em cada cem compatriotas faltam mais de seis dentes. Ora, explicando os avós que é pela boca que a saúde começa, aí temos o estado da arte em matéria de saúde pública.

Afonso Camões

Marcelo e a espada de Eanes

Ainda bem. E que o Senhor o acrescente!, diria a minha sogra da reeleição de Marcelo. Eu acrescento que, por mais que festejemos um e justifiquemos os outros, o problema é o outro - ou pior, são outros. Um é aquele que multiplicou por sete o número de votos arrebanhados à esquerda e à direita, resultado da incapacidade do sistema para responder às chagas dos nossos dias: desemprego, medo, miséria, fome, doença - o calvário de gente, muita gente, gente nossa, com rosto, o da desigualdade persistente, que gera populismos, violência e ódio. Em jogo, diante de nós, encontram-se duas lógicas: a dos partidos tradicionais e a da sociedade. As eleições de domingo demonstraram que elas deixaram de coincidir.