Adriano Moreira

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A intervenção na crise mundial

A Revolução Portuguesa de 1974 não impediu que essa nossa notoriedade fosse assumida pelos novos representantes do país na estrutura jurídica e política que os caracterizava e que teve expressão rápida na presidência assumida na Assembleia Geral, a presidência do Conselho de Segurança, e em departamentos históricos, em que é de reconhecer o brilho do atual secretário-geral, o português António Guterres. O conceito com que ele caracteriza o risco de a ONU estar a ser empurrada para o "pântano" tem o respeito profissional que lhe é concedido pelos responsáveis internacionais.

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A decisão americana

O passivo da decisão americana, decidindo retirar a intervenção militar no Afeganistão, desencadeou uma inesperada insegurança da articulação dos ocidentais, derivada das consequências impostas em relação aos interesses gerais. Tratando-se de uma considerada, num passado próximo, grande potência, parece hoje uma União dividida entre a liderança do recente vencido presidente, e a liderança do sucessor, que não viu a sua decisão respeitada pelos valores que assume, mas que as circunstâncias articularam com uma problemática inquietante para os aliados ocidentais, e para agravamento da situação mundial.

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Assis

Nestes perturbados dias em que o uso das palavras agressivas articula previsões e medos sobre os possíveis conflitos e agressões militares, que parecem subalternizar as preocupações, que deviam estar sempre presentes, com a guerra da pandemia, global, é seguramente útil lembrar o esforço das lideranças espirituais que, durante a Grande Guerra de 1939-1945 levou ao anúncio da "alegria da paz com lágrimas" pelos sofrimentos inesquecíveis. Durante o período que se seguiu, e com a liberdade geral da Europa que sofreu os adiamentos que continuaram a promover sofrimentos inseparáveis da longa falta de uma ordem em paz e cooperação, o Papa Francisco, com a visita que fez ao Iraque, e o respeito que lhe dispensaram, fez também relembrar a convicção manifestada durante a Guerra de 1939-1945, da intervenção das Igrejas na defesa da paz.

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O diálogo a cinco

O anúncio do fim da Guerra Mundial de 1939-1945, para o qual sempre recordo o inspirado anúncio de um jornal francês, com a afirmação de que se tratava de "um anúncio feliz cheio de lágrimas", sentimento que apoiou reconstruir o projeto mundial de uma paz global. Foram e continuam a ser necessárias as instituições que participam no esforço de realmente implantar, para todas as espécies humanas, a dignidade, o direito e a justiça. Numa data, a nossa, em que na própria União Europeia se discute se a Europa está a caminho de "refazer-se ou desfazer-se", encontrei lembrança na Universidade de Salamanca, na estrutura chamada Diálogo a Cinco, criada em 2013, e ali organizada na Faculdade de Direito da Complutense. A iniciativa defendeu que, mesmo nas ações regionais, devem intervir representantes de ministérios importantes (Negócios Estrangeiros, Justiça, Educação, Ministério da Cultura) com três líderes religiosos e quatro académicos. A universidade organizou a sua conferência internacional, seguindo o critério estabelecido, insistindo no tema dos direitos humanos, da liberdade religiosa e nas minorias.

Adriano Moreira

Valores e riscos

Não é fácil assumir o declarado futuro de todas as soberanias num tempo em que se tornaram já evidentes desafios não previstos nos estatutos e projeções verbais de futuro, quando novos desafios se apresentam na vasta liberdade desse futuro, que não é respeitadora daquele que tenha sido projetado no mundo e provavelmente assumido. Foi o que muito agressivamente se levantou quanto à violação da institucionalização do globo pela ONU, que identifica os riscos que enfrenta, e apela à responsabilidade consciente dos poderes, em primeiro lugar políticos, mas com visão mundial.

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Vésperas europeias

Quando, sobretudo depois de duas guerras mundiais, as meditações e propostas do futuro à antiga sede da "luz do mundo", ficaram algumas exortações que atraíram os espíritos dos inquietos sobreviventes dessas desastrosas guerras. Sendo uma das decisões mais exigentes o fim do colonialismo ocidental, uma das declarações mais imperativas de esperança foi a prece de Nelson Mandela, quando, ao receber o Prémio Nobel (10.12.1993), falou em nome dos "seres humanos incontáveis que tanto dentro como fora do nosso país [África do Sul] tiveram a nobreza de espírito de se atravessar no caminho da tirania e da injustiça sem ambicionarem qualquer proveito próprio".

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Conferência europeia

Foi anunciado oportunamente que haveria uma conferência sobre o futuro da Europa, talvez uma "nova esperança democrática", a realizar em 2021/2022, segundo anunciou e analisou o Rameses de 2021. Iniciou-se no Porto, com a intervenção, na Cimeira Social do Conselho Europeu, do presidente nosso primeiro-ministro. Os temas anunciados foram ligados ao de "governar com o povo", ser "um conselho e não uma refundação", imposta pela crise em que todos se encontram, causada pela covid-19.

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O clarim

Depois do fim da guerra mundial de 1939-1945, cuja paz foi anunciada, segundo a imprensa francesa, com alegria e muitas lágrimas, e o fim das dependências do império mundial, esperava-se que finalmente o "credo dos valores" permitisse regressar à paz de todos os continentes, com relevo para o mantido amor à África. Recentemente, duas académicas de lúcida intervenção, foi da África, e sobretudo dos africanos, que se ocuparam com, entre outros valores, o papel das mulheres.

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A evolução da ONU

Depois da guerra de 1914-1918, a evolução da Sociedade das Nações, com um estatuto dissolvente dos impérios europeus, por intervenção dos EUA que não assinaram o estatuto, foi destinada ao total apagamento do projeto pela guerra mundial de 1939-1945. O estatuto da nova organização, a ONU, já não teve em vista a redefinição da estrutura das políticas europeias, antes alargou o projeto ao globo, com a decisão de terminar com o regime colonial. De novo a raiz da estrutura foi ocidental, com domínio decisivo das grandes potências vencedoras da guerra, mas com um princípio aristocratizante da hierarquia pela convenção do direito de veto no Conselho de Segurança, concedido às consideradas grandes potências (EUA, Inglaterra, França, Rússia, China), com o erro de anos a impor a presença de Taiwan, onde se refugiara o exército nacionalista vencido, o que desde logo fez correr a previsão de que, designadamente, os EUA teriam de enfrentar a China num futuro incerto, previsão que hoje está verificada, não apenas na área económica, mas na área de poder marítimo que despertou os desafios.

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O sermão

A viagem do Papa Francisco à "Terra de Abraão", rezando a Missa ao pequeno grupo de cristãos que sobrevivem à brutalidade do Daesh, não se limitou a mais uma vez surpreender o mundo com a visita que incluiu o agradecimento do Iraque, mas também gravar nas memórias do mundo em crise pela pandemia que não distingue nem etnias, nem culturas, nem poderes políticos, a sua não esquecível lembrança: "vós sois todos irmãos", como é o sentido do "Padre Nosso", isto é, Pai de "todos", e não apenas "Meu Pai".

Adriano Moreira

Neutralidade colaborante

Não é de esperar uma avaliação complacente, em qualquer relação diplomática, da tolerância com que a lealdade tradicional das potências em causa esqueça a injusta violação de interesses, normalmente de mais fracos, sofridos para conseguir cooperação leal às urgências que finalmente serviram o interesse defendido pela cooperante. Existe uma situação destas nas relações de Portugal com os EUA, e atendendo à realidade da ética do atual presidente dos EUA e às relações entre os dois países, incluindo na cooperação e defesa, seria oportuno reavaliar.