Adriano Moreira

Adriano Moreira

Os norte-americanos negros

Entre os numerosos problemas ameaçadores da vida habitual dos brancos que anunciaram a ocidentalização do globo, são frequentes as questões suscitadas pela assumida visão da história, que agora parece orientar intervenções de destruição de monumentos, talvez tendo como referência significativa atirar com a estátua de Colombo ao mar. Não é apenas naquela região que estão a verificar-se ações que parecem inspiradas pelo que se vai chamando populismo, uma expressão que deve investigações valiosas ao professor José Pinto, mas que não consegue abranger toda a ação do atual Governo dos EUA. O ganho da presidência de Trump, que nunca executara funções políticas, foi uma ação, facilmente considerada populista, mas, assumindo o poder, aquilo que aconteceu foi confirmar o dito de Canovan, que considerou o populismo uma sombra da democracia que pretende dominar. Neste período mais dominado pela destruidora covid-19, acontece que todo o processo parece mais utilizador do Estado espetáculo de Schwartzenberg. Uma das primeiras demonstrações está na questão do muro impeditivo das migrações, de custo financeiro transferido para sul.

Adriano Moreira

A crise do mundo único

Um dos valores implícitos na utopia da ONU, mas durante pouco tempo considerado exequível, foi o do "mundo único", isto é, no mais evidente, sem guerras, e uma ordem internacional obediente à justiça natural. Na última década, textos com a meditação de devedores preocuparam-se, com fundamento, com o que chamaram "o fim do mundo único", incluindo nas causas a evidência das chamadas "potências emergentes" (Índia, Brasil, África do Sul, Turquia), mas com a projeção maior na competição entre a América do Norte, a Europa, a China, a Rússia, algumas com o reconhecimento aristocrático de possuírem o veto do Conselho de Segurança da ONU. As circunstâncias crescentes do facto das emergências, antes do fim da década, deu relevo ao estudo, inquieto, sobre a evidência de ser contrapartida daquela política o reconhecimento do fim do mundo único, sendo abordadas questões económicas e sociais, crescendo a verificação de que a erradicação da fome não passava de um sonho piedoso, que na área da saúde a regra era a de que os pobres morrem mais cedo, as emigrações que transformaram o Mediterrâneo num cemitério fizeram que a islamofobia se desenvolvesse nos Estados procurados pelas migrações, as assimilações históricas unificadoras das nações não foram recordadas, os nacionalismos inspiraram partidos conservadores, mesmo reacionários. Este mundo de ruturas, com terrorismo e violências de surpreendentes organizações, o que exige defesa contra possível ameaça em dificuldade com impossível definição, causando por exemplo a chamada "inflação das legislações entre terroristas na África". Para evidenciar a gravidade desta referência, acrescente-se que a África do Sul, o país que a santidade de Mandela chamou de "povo arco-íris", tem hoje um mal que diminui a autoridade, menor sentido de obediência aos princípios democráticos que afetam a credibilidade presidencial. Esta perda de credibilidade, com linguagens frequentemente diferentes, leva-nos ao fim da década com o reconhecimento frequente de estarmos num mundo sem bússola. Para simplificar o sentido do conceito, nos aspetos mais pesados, a Assembleia Geral da ONU viu um claro afastamento do multilateralismo afirmado pelo presidente dos EUA, os mares são olhados e estudados como "perigosos", e neste Ocidente, que reclamou ser a "luz do mundo", a Europa sofre o enfraquecimento de confiança entre eleitorados que se afastam do dever de votar, nos EUA que perderam a confiança atlântica, e a América Latina em dissolução. Sendo de um interesse especial para Portugal, a primeira questão é sublinhar que a doutrina Monroe foi secundarizada por Trump, firme contra as migrações que tentam encontrar no território americano o futuro que perderam no seu, tem a benévola oposição ao governo na Venezuela de Nicolás Maduro, talvez consagrando uma rara atitude aceitável, que inclui o seu interesse de ser financiador em todas as economias da América Latina. É de admitir que tenha realmente presente a doutrina de Monroe, o qual recusou autorizar intervenção de potências europeias nos antigos territórios que lhes pertenceram. O caso do Brasil será sempre para Portugal um valor intocável, sendo o que mais interessa na situação global da CPLP. Os factos apontam para que, sem qualquer valor da antiga doutrina Monroe, a democracia está abalada, a perda de autoridade da religião católica traduz-se no ganho de espaço das igrejas evangélicas, incluindo os órgãos de soberania, parecendo que enfraquecem as estruturas do Estado, o que enfraquece o domínio dos órgãos sociais, culturais e até políticos, e progressivamente estende-se por toda a América Latina. O antigo domínio católico, objeto de críticas, tende para enfrentar com estas a intervenção do Papa Francisco, e favorecer algum regresso da influência dos EUA, onde os evangélicos também cresceram. Infelizmente, o mundo de ruturas e sem bússola para manter um multilateralismo útil não reconheceu ainda que se a unidade regressou foi no plano da epidemia contra todos os vivos, e que o pluralismo das ruturas políticas está a facilitar a urgência da unidade dos povos. Ao contrário, as fraturas multiplicam-se, todos os povos sofrem a epidemia, mas não podem ignorar-se as tentativas de imaginar um poder que se manterá aristocraticamente lúcido a impor a conduta alheia. Depois de conseguir vencer a epidemia que não distingue ambições soberanas, os povos feridos vão ter uma visão diferente da unidade dos vivos. A exploração aristocrática dos Estados não será consentida.

Adriano Moreira

De novo o mar

A interdependência global torna mais evidente que a Europa enfraquece a sua passada convicção de "luz do mundo", começando por recordar-se de que, cinco séculos antes de Jesus Cristo, Heródoto confirmava a incerteza, que viria a tornar-se divulgada, em 1873, pela lição de Vital de Blanche, na Universidade de Nancy, com o título "A Península Europeia, o Oceano e o Mediterrâneo" (François Lebrun). Agora, perdida a expansão do poder colonial, que foi chamado "La mainmise sur le monde", a União Europeia procurou, reanimando projetos seculares sempre abandonados, estruturar uma unidade que, sendo territorialmente de dimensão limitada, tem mostrado a compreensão, de líderes históricos, de que nenhum Estado tem capacidade de enfrentar os desafios que ameaçam o que podemos chamar a utopia da ONU, esta defensora, na própria Assembleia Geral, do justo dever da cooperação global. O saber europeu, neste domínio, não impediu o Brexit inquietante, quando, como que articulando o desaire, veio o surpreendente ataque global do covid-19 afetar as solidariedades mesmo do pequeno espaço europeu, as certezas sobre a estrutura internacional que o exemplo dos passados endémicos lembra ter habitualmente obrigado a mudanças, não sendo fácil admitir que todos se guiem pelo dever de enfrentar, financeiramente também, a crise do coronavírus, para vencer o ameaçador conhecido presente, mas sem bússola para alguma leitura exata do que será o futuro.

Adriano Moreira

O exercício internacional do racismo

A independência dos EUA foi decisão de homens que, como diria claramente Thomas Jefferson, assumam o direito à revolta sem assumirem serem eles próprios a longa mão europeia lançada sobre os vencidos, e extintos, aborígenes. De facto, a limpeza do território foi um exercício da diferença de raças, depois assente na importação de negros escravos, cujo estatuto mudaria pela guerra entre norte e sul, sublinhado pelo assassínio do vencedor Lincoln. Referindo-se por então à Europa na terceira pessoa, era como que pressionado pelo separatismo o Ocidente, até que as duas guerras mundiais exigiram as alianças. Daqui em diante, até ao anticolonialismo do século XX, o modelo colonial foi intitulado por Rudyard Kipling como sendo o "fardo do homem branco".

Adriano Moreira

Uma ação solidária

Quando se repara que para um académico, com a autoridade de Timothy Garton Ash, o facto mais desafiante para este "século sem bússola" é reconstruir a paz da relação dos EUA com a China, é "tornar as nossas sociedades históricas, livres, abertas, atrativas", e melhorar a aconselhada "abordagem estratégica" de Washington, a esperança não se restaura quando conclui que Donald Trump faz o oposto. Como Portugal, se não é como concluiu, para a história, Freddy Silva, A Primeira Nação Templária (2017), nesta data de luta contra a globalidade da agressão de covid-19, é a solidariedade global que espera dos Estados a decisão de vencer esta guerra para conseguirem, na paz dos vivos, finalmente uma ordem sem ataques entre raças, culturas, religiões, éticas, objetivos que não estão no conhecimento de quem apenas apregoa "America first", abusando do modelo do Estado espetáculo que Schwartzenberg identificou (1977).

Adriano Moreira

O Estado Espetáculo

Deve-se a Schwartzenherg a profunda avaliação do que chamou Estado Espetáculo (1977), num período em que os partidos organizavam congressos que usavam as técnicas teatrais para conseguirem a adesão dos espetadores à ideologia defendida sem necessária relação viável com o interesse do eleitorado chamado à sessão, uma prática que foi adormecida pelo sistema das comunicações, que tem outras exigências e regras. Mas quando as sociedades enfrentam ameaças, como a da pandemia em curso, é o regresso à busca do saber, com respeito pela solidariedade humana de todas as etnias, Estados, e culturas, que não espera qualquer uso da antiga prática.

Adriano Moreira

Reinventar o Estado

Com justificados propósitos mas enfrentando na mudança dos tempos o desafio de uma racionalidade sustentável e inovadora, multiplicam-se as evidências do desânimo sobre a viabilidade do Estado e a incapacidade de assumir uma resposta eficaz às surpreendentes novidades dos factos. Por exemplo, David van Reybrouck, uma autoridade na Bélgica, escreve sobre o espaço da União Europeia um livro com o título Contra as Eleições, analisando a crítica que acompanha o tema, em todo o caso apoiado por J.M. Coetzee, que na própria capa escreve, quanto ao seu país, que, segundo parece, "a eleição de nossos governantes, com o voto popular não logrou um autêntico governo democrático: este parece ser o veredicto da história que se desenrola diante dos nossos olhos... Talvez tenha chegado o tempo para essa ideia".

Adriano Moreira

A utopia da ONU

É crescente o facto de que a ONU está a enfrentar dificuldades, incluindo financeiras, num tempo em que a regra do multilateralismo e cooperação parece encontrar-se em crise, substituída por uma crescente disputa de emergentes. Esta circunstância parece dar relevo à nostalgia americana do breve tempo em que se falou do "império americano", cujo declínio seria fonte de preocupação, tornando-se frequente referir o passado método de governo de Obama como visível causa dessa decadência. É evidente a falta de intervenção do Conselho de Segurança, em face da frequente violação do imperativo do "mundo único", porque os métodos de intervenção dos emergentes - EUA, China, Japão, Índia - são a causa eventual de uma arena de riscos. Analistas referem já um mundo sem bússola, destacando-se o pessimismo de Barzun: "Permitam-nos que o estado de transição seja descrito no pretérito, como se fôssemos um cronista do ano 2300 a olhar para o passado. Como fez esse sábio antigo chamado Disraeli, não podemos enganar-nos, porque estudámos o passado e é bem conhecida a nossa capacidade de revelar o futuro quando este já ocorreu."

Adriano Moreira

Sem experiência

Foi o príncipe Otto von Bismarck (1815-98), estadista e chanceler alemão, quem enfrentou problemáticas várias, incluindo as relações com Roma, a cultura, a saúde, a realpolitik e o Estado social, apoiadas pelo livro do arcebispo William Temple (1881-1944). Era guiado pela prudência, procurando escrupulosamente avaliar a realidade e por isso deixando um aviso no sentido de que uma leviandade pode conduzir a um inesperado desastre: foi o assassínio, em Sarajevo, na Bósnia, em 24 de junho de 1914, do arquiduque François-Ferdinand, herdeiro do imperador Francisco José.