Adriano Moreira

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O aviso contra a desordem

O ilustre escritor que é José Carlos Gentili, presidente honorário da Academia de Letras de Brasília, escreveu, entre os seus numerosos textos, um livro intitulado Lagoa dos Cavalos (2012), um romance histórico do Brasil, que Adirson Vasconcelos sintetizou escrevendo: "Levanta e discute temas de ontem e de hoje que nos levam a pensar na igualdade de direitos, na liberdade de pensamento e na solidariedade humana." Este "contar a história do povo nordestino" implicou citar, na própria capa, um grito humano do padre Cícero Romão: "É preciso dar um basta à anarquia."

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Os perigos do mar

Desde a origem da CPLP, pareceu a observadores deste acontecimento que a sua circunstância no futuro a criar realidade, além da participação no ensino, na investigação, nos valores da livre governança assumida, devesse ser incluída a ambição de uma frota de origem, no futuro seguramente longínquo, repartida mas articulada ao espírito e à capacidade da CPLP. É certo que o problema financeiro, no que respeita a tão específica interdependência, tem sempre de estar presente, especialmente quando já em 2013 se vaticinava, em avaliação, a ameaça de um Século sem Bússola, como já foi 2020.

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A mensagem

Fez 100 anos de idade o, na guerra, jovem Benjamin Ferencz (nasceu em 1920) que, bem entrevistado por Mafalda Anjos na Visão, como que deixou enumerados imperativos éticos que indica como esperando, desde o fim da guerra de 1939-1945, obediência internacional. Lembrado no livro de memórias intitulado, na tradução, Palavras Que Tocam a Alma. A importância histórica deste homem, que me leva a repetir antigos comentários, tem que ver com o facto de ter viabilizado a posição expressa pelos grandes líderes da vitória, Roosevelt, Churchill e Estaline, por terem decidido o castigo penal dos responsáveis, vencidos na guerra, pelos cometidos crimes contra a humanidade.

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Cartas morais

A brutalidade da pandemia que demonstra ser global, sem distinção de etnias, culturas ou crenças, suscitou a perda como que militar de vidas e o enfraquecimento da estrutura legal da ordem internacional. Todavia conseguindo as organizações científicas chegar à criação das vacinas essenciais para vencer a batalha que envolve todos os seres vivos, o facto, ainda com dificuldades, determinou a reanimação do tema que tornou eternas as Cartas Morais de Lúcio Aneu Sêneca, quando se ocupa das "Vantagens da Velhice" (Carta XIX) sobre a vida breve, com estas palavras dirigidas ao seu amigo Lucílio: "O que vivemos é um ponto, e ainda menos que um ponto, e ainda por cima, esta coisa tão pequena, para maior engano, a natureza a dividiu a fim de dar-lhe aparência de um prolongado espaço de tempo; de uma porção faz a infância, de outra a mocidade, de outra a adolescência, de outra uma certa descida da adolescência à velhice, e de outra à própria velhice."

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A barbárie

O avanço da inteligência artificial, que abrange a própria segurança e defesa, teve por isso um avanço exigido e modernizante, no domínio da proliferação dos armamentos autónomos, a exigir a tradicional resposta normativa que condiciona as tecnologias de natureza militar. A esperança de submeter a tecnologia a regras de imperativos éticos corresponde a procurar um futuro mais equilibrado do globalismo organizado, não garante facilmente a militarização geral ética dessa inteligência de resultados agravados pela falta de participada consciência, o que torna a competição dos emergentes mais gravosa e inquietante, salvo no caso de a investigação conseguir aliar o avanço dos imperativos éticos à exigência ética do uso dessas armas. O surpreendente é que neste ambiente, onde se procura pôr em vigor uma espécie de ética, não apenas a estrutura da ordem nacional e global seja violentamente abalada e destruída pela pandemia, mas também pela barbárie, não dos "robôs" libertos do prometido normativismo, mas de agentes humanos que não são modelos de combatentes, mas assassinos.

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Fundamentalismo terrorista

Quando o presidente da França foi surpreendido pelo cruel assassinato de Samuel Paty, professor de História e Geografia, em Conflans-Sainte-Honorine (Yvelines), por um jovem muçulmano, que o decapitou por ter utilizado caricaturas de Maomé numa das suas aulas, assumiu a indignação da França, afirmando que esta manteria a liberdade de ensinar, e a prática da vítima seria mantida: infelizmente, uma série de assassinatos cresceu em diferentes lugares da França, e depois fora, obrigando, para além das medidas de segurança e justiça, a recordar o famoso estudo de Nicolas Sarkozy, sobre O Estado, as Religiões e a Esperança, concluindo que "os muçulmanos já são a segunda religião da França", e advertindo "contra o fundamentalismo laico e contra o fundamentalismo religioso", acrescentando que "a República é uma maneira de organizar o universo temporal. É a melhor maneira de viver em comum. Mas ela não é a finalidade do homem: há ao mesmo tempo uma afirmação espiritual que a República não deve negar, mas que não é também de sua competência".

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As imigrações

A força da unidade europeia, além das questões científicas, culturais, e até religiosas, tem um princípio global que é o de que nenhum Estado membro tem capacidade para enfrentar isolado os desafios deste mundo sem bússola. Os conflitos, incluindo militares, foram historicamente numerosos, e o fim atual não está suficientemente longe para ter ganho o quadro histórico em que será apenas considerado sem ter já consequências em relações tensas e por isso perigosas. O infeliz Brexit é lembrança de que os princípios inspiradores da União podem ainda ser abandonados, mas também é possível que o Brexit obrigue o Reino Unido a reparar a de novo necessidade de garantir a sua unidade plural de Nações, e saber que definição trarão as próximas eleições para um estadista que é primeiro ministro que ganhou a questão entre Remainers e Brexistas simplesmente por ter sido escolhido pelos membros do seu partido.

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O Brasil e a Europa

Há anos, escrevi no Diário de Notícias um artigo que intitulei "O Brasil e a Europa", de que o ilustre José Carlos Gentili se ocupara nas academias de História e das Ciências de Lisboa, publicando depois um livro intitulado O Futuro da Europa Passa também pelo Brasil? Presidente de honra perpétuo da Academia de Letras de Brasília, o seu interesse pelo tema de que se ocupou em 2017 deve atualmente exigir uma atenção indispensável aos que se ocupam da situação atual, não apenas no próprio Atlântico, mas na conjuntura da América Latina - América de Jefferson. Lembra que este amigo do padre Correia da Serra "temia" que o seu futuro (da América Latina) fosse constituído de uma sucessão de despotismos militares, durante longo tempo. Para eles, a América Latina não tinha a tradição anglo-saxónica de liberdades, nem mesmo a concorrência de denominações religiosas que impediram o estabelecimento por parte do Estado de alguma Igreja, e que portanto trabalhou em prol da liberdade religiosa e, consequentemente, em nome da democracia. Infelizmente, o nosso tempo confirmou a opinião de Jefferson, e a anarquia que ali se verificou confirma que estava certo na opinião, sendo hoje plural a convicção da ingovernabilidade injusta das populações submetidas a poderes que não seguem a justiça natural.

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Tempo de perdas

A já longa duração desta guerra contra o destruidor covid-19 transforma esta época num tempo de perdas, isto é, de parcelas que crescem e desaparecem da vida que foi habitual. Entre todas, a mais humanamente cruel é a eliminação progressiva da sociabilidade. Não apenas na medida em que são os afetos a perderem a liberdade de existirem, mas também os que, mantendo a função, tendem para a submissão ao teletrabalho, que faz evoluir o sentido da empresa que cultiva a solidariedade dos interventores. Andrew Roberts, que escreveu a considerada melhor biografia de Churchill, recorda ali que George Bernard Shaw, no seu Revolucionist"s Handbook, escreveu que "o homem sensato adapta-se ao mundo; o insensato persiste em adaptar o mundo a si mesmo. Todo o progresso depende, pois, do homem insensato". Parece seguro que Churchill, ao celebrar os seus 80 anos no Westminster Hall, e lembrando que a sua nação se espalhara pelo mundo fazendo prova "do seu coração de leão", tivera a "sorte de ser chamado a soltar o rugido". No tempo desta guerra contra a vida, sendo inevitável a globalização da crise, a suficiente atenção à ecologia, à impedida vida social, corre sem que a intervenção de líderes como Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, ou do ministro alemão da Economia tenham evitado que, não obstante reconhecerem a necessidade de um "trabalho comum", este tenha sido bem definido, mantendo-se o lamento do prémio Nobel egípcio (2008) Mohamed el-Baradei ao dizer: "Não encontro suficiente liderança nem visão do mundo." É esta visão do mundo que parece ter realidades não coincidentes entre os que, sendo titulares do tradicional poder político, agregam, mas enfrentam o ataque atual e futuro da pandemia, aos programas políticos globalizados, e outros raros como que fogem da pandemia para salvaguardar o que os sustenta com o habitual Estado espetáculo. O presidente dos EUA conseguiu pregar contra a chamada confusão dos números de avaliações e a realidade das perdas humanas, e até, ao sul do continente, o presidente do Brasil chega a valorizar o seu inovador alto cargo gritando que não é coveiro. O Estado espetáculo parece ressuscitado, como que ignorando a responsabilidade, não assumindo o ataque da pandemia sem partilhas do globalismo, que neste caso dispensa a vigência do castigo divisor da Torre de Babel. Não é que a inovação da ciência e da tecnologia sejam dispensadas, com um normativismo sustentável, para salvaguardar e fazer até progredir o planeta, mas não parece indicado que a pandemia possa ser considerada sem prioridade, atitude contrária à que institutos, universidades e profissionais demonstram e executam, orientando programas que os governantes assumam procurando um novo direito internacional. É inquietante que alguma dessas instituições deixe de poder avaliar o rigor das notícias que afirmam que "Donald Trump está do bom lado da história", e que seja ouvida e registada uma voz, não identificada, segundo a qual "poderia surgir uma guerra civil se o senhor Trump não fosse eleito". Mas, entretanto, o mesmo presidente que assumiu o leme de reafirmar a grandeza dos EUA mostrou-se demorado e distante da compreensão do ataque brutal do coronavírus, de que culpou a China, com a qual assume um confronto Pequim-Washington, visto o exercício daquela no sentido de recuperar o mar que tinha abandonado quando o movimento da ocidentalização foi iniciado por Portugal. Os EUA enviaram dois porta-aviões para a região, mas, mostrando não temer o confronto, o evidente é que a China reforçou a sua marinha, notando-se que terá em uso 600 modelos de combate, enquanto o seu ministro dos Negócios Estrangeiros declarou, em 3 de julho, que a "instabilidade no mar da China do Sul era a atividade militar em grande escala de um certo país que não é da região e se encontra a milhares de quilómetros e mostra os seus músculos". Existem outros motivos, designadamente o que se passa com a política chinesa de acabar, em relação a Taiwan, com o método da específica legalidade, mas, como tem sido regra, a ponderada senhora Merkel é moderada nas relações com a China, parecendo admitir que a falta de prudência impedirá o diálogo que deve ser mantido "em todas as suas dimensões". A memória de Tianammen (1989) ajuda a esperar que a voz da ONU seja compreendida, e que é a salvaguarda da paz do Golfo, e da sobrevivência dos humanos, que está ameaçada, não impedindo o que o muçulmano Amin Maalouf chamou "o desajuste do mundo". São os vivos, sem distinção de etnias, religiões, culturas, que estão a ser postas globalmente em perigo. A Assembleia Geral da ONU assumiu em 1998, como lembra Hans Küng, "a firme determinação em facilitar e promover o diálogo entre culturas e declarou, contra todas as cassandras que profetizaram um choque de culturas, sendo 2001 o ano do diálogo de culturas", onde cabem as etnias, crenças, história e paz. Faz parte da esperança.

Adriano Moreira

Nossa Senhora das Perguntas

Num ano em que o mar é um espaço subitamente contestado, estando significativamente agravada a relação entre os EUA e a China, havendo uma declaração militar daquele Estado prevendo que dentro de 15 anos será a guerra que surgirá entre as duas potências, temos esperança de que o eleitorado americano faça alterar o panorama, conseguindo tornar a recuperar ponderação em quem governa, tendo presente que o desastre é global, se a batalha contra o ataque pelo covid-19 não for vencedora. Mas sendo evidente que o mar exibe uma mutação de ambições, e também de criminalidade inquietante, o interesse português é cuidar de conseguir ter à disposição decisores e meios de que possa dispor, sem esquecer a vontade marítima de sempre. Numa data em que o problema da relação europeia com as religiões desta vez tem como causa frequente a falta de recursos financeiros para manter os templos, uma situação, por exemplo, visível em França, acontece que entre nós se afirma um movimento no sentido de fortalecer o culto da Nossa Senhora da Nazaré, uma das mais antigas tradições marianas. Trata-se de a Nossa Senhora ter salvo o guerreiro D. Fuas Roupinho, no seu promontório da Nazaré, impedindo que o cavalo que montava se precipitasse no mar. A sua fé, a aparição de Nossa Senhora da Nazaré, e o milagre inspiram não esquecer o martírio que foi, numa data em que não era pacífico o trabalho ao longo da costa, tendo por causa os ataques frequentes, sendo basilar que não há futuro definível sem consciência do passado.

Adriano Moreira

O passado cultural

Depois de a peste negra (1347-1352), vinda de países do Oriente, se ter propagado pela Europa, sem que a opinião dos povos conseguisse concluir se estava a ser castigado por "influências astrais ou resultado das nossas iniquidades" (Boccace, 1348), este continente que foi chamado "pequeno, aberto, bem situado", não obstante as divergências, por vezes armadas, internas, ultrapassou essas dificuldades e assumiu a ocidentalização do globo com a aventura das grandes descobertas iniciadas pelo talento do príncipe Henrique, o Navegador, que viveu entre 1394-1460.

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Almirante Vieira Matias

A criação da ONU, não obstante ter mantido um critério do Conselho de Segurança que aristocratizava os cinco detentores do direito de veto, mostrou que tinha nesse ponto inquietações com hierarquias militares, e respetivas capacidades, porque no que toca à Assembleia Geral a utopia de criar um novo mundo de igualdade das etnias, culturas, religiões, esperando que os princípios do "mundo único", isto é sem guerras, e "a terra casa comum dos homens", animariam a real cooperação global, porque nenhum Estado teria sequer o poder de enfrentar, isolado, nem a criação da nova estrutura internacional nem os prováveis desafios possíveis.