Adolfo Mesquita Nunes

Adolfo Mesquita Nunes

O perigo da desintermediação política

Já aqui escrevi sobre a pressão do tempo nas nossas democracias, um dos nossos maiores desafios. Com uma economia digital que consegue resolver cada vez mais problemas em cada vez menos tempo, estamos a criar como que uma geração de impacientes, incapaz de lidar com a espera, com o atraso, com a falta de imediatismo - terreno fértil para populistas de resposta simples para problemas complexos e bem mais complicado para os defensores da democracia liberal, que acreditam em procedimentos e instituições e contrapesos.

Adolfo Mesquita Nunes

Espaço para a dúvida

A discussão política sobre a eutanásia parece fazer acreditar que se trata de tema simples, sem grande complexidade, uma simples questão de lógica. De um lado ou do outro, ela aparece sempre envolta em certezas absolutas, juízos muito rigorosos sobre o porque sim ou o porque não - uma questão civilizacional que não consente hesitações ou meio-termo. E onde há certezas absolutas não se permite dissensão, e é por isso que as certezas absolutas são tão perniciosas numa democracia.

Adolfo Mesquita Nunes

Como é que os vamos encontrar, se estiverem calados?

Não é fácil lidar com as declarações de André Ventura. Não se trata de falta de adjetivos para as descrever ou qualificar, nem sequer de ausência de repúdio ou desconforto ou descontentamento. Trata-se antes de algo mais complexo, de algo que convoca uma análise política, estratégica e maquiavélica, e que acaba por se resumir a esta questão: qual é a melhor forma de estas declarações, de estas posições, que considero inadmissíveis, serem trucidadas pela História, acabarem irrelevantes, inconsequentes?

Adolfo Mesquita Nunes

O mundo como ele é

Num estudo de opinião realizado em 2017 pela Ipsos e pela Fundação Gates, que entrevistou pessoas em 28 países, 52% das pessoas afirmaram que a proporção da população mundial que vive em extrema pobreza aumentou nos últimos 20 anos. Ou seja, a maioria pensa que a pobreza está a aumentar quando, de facto, está a suceder o oposto. E pior, estas pessoas identificam os últimos 20 anos, precisamente a vintena em que a pobreza mais e mais rapidamente desceu, como sendo anos de aumento de pobreza.

Adolfo Mesquita Nunes

Adelino Amaro da Costa e a moderação

Nunca me vi como especial cultor da moderação em política, talvez porque tivesse crescido para ela em tempos de moderação, uma espécie de dado adquirido que não distingue ninguém. Cheguei mesmo a ser acusado do contrário, pela forma enfática como fui dando conta das minhas ideias, tantas vezes mais liberais do que a norma, ou ainda pelo meu especial gosto em contextualizar a minha ação política e governativa numa luta pela liberdade.

Adolfo Mesquita Nunes

Mil e uma noites

A mera possibilidade de alguém se sentir ofendido por um discurso, um gesto, um argumento, e de, a partir desse sentimento, que é tão pessoal, lançar uma acusação ou campanha de desqualificação contra quem o proferiu ou ensaiou, constitui hoje um dos mais fortes limites e condicionantes do debate público. Não se trata de desconfiar de novas fronteiras para a linguagem, porque esse movimento sempre existiu e é indissociável da natureza humana. Nem se trata de ignorar o poder da palavra, a força que dela emana e que pode carregar ódio e amor que se transformam em gestos e lanças. E muito menos se trata de só ver a liberdade de expressão de quem primeiro opina, como se essa não valesse tanto quanto a liberdade de quem responde.