Vice-almirante Gouveia e Melo: "Este é o combate da nossa geração"

Henrique Gouveia e Melo era o favorito para suceder, este mês, a Mendes Calado, como Chefe de Estado-Maior da Armada, mas aceitou sem hesitar a nova missão. Admite que tem pela frente um "desafio difícil" e passou a noite passada em claro a começar a preparar-se para o enfrentar

Conta-se na Marinha que se há momento em que, num misto de teimosia e autoconfiança, Henrique Gouveia e Melo, desafiando tudo e todos, mostrou ao limite a sua fibra foi num episódio que ocorreu no porto de São Tomé e Príncipe, há pouco mais de dois anos.

Tinha viajado no grande navio reabastecedor Bérrio, juntamente com uma comitiva oficial onde estava, entre outros Marcos Perestrello, atual presidente da Comissão de Defesa Nacional, e o Almirante Silva Ribeiro, atual Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas (CEMGFA).

Transportavam uma ambulância, oferta dos bombeiros voluntários de Gouveia, na Guarda, para o país. Como o porto não tem capacidade para atracar navios de grande porte, como era o reabastecedor, era preciso fazer descer a viatura para uma pequena barcaça e daí para terra.

O guindaste do navio, na opinião de técnicos, engenheiros e outros presentes não tinha essa capacidade. Estavam a desistir quando Gouveia e Melo, na altura Comandante Naval (responsável por todas as operações da Marinha), disse alto. "Esperem!" Fez cálculos, verificou ângulos, mediu o vento e a ondulação.

Deu algumas instruções para posicionar o guindaste e, perante a incredulidade dos que assistiam, saltou para a dita barcaça. "Agora podem descer a ambulância que eu fico aqui dentro", terá declarado, pelo que contou ao DN uma das pessoas que assistiu. Devagarinho, a dita carrinha foi descendo e pousou suavemente na barcaça. O vice-almirante levantou-se, muito sério, e subiu o seu 1,93 m de corpo delgado e hirto para o Bérrio.

Quando lhe recordamos esta história e lhe perguntamos se não tinha tido medo, se não tinha sido uma loucura, porque a ambulância podia ter-lhe caído em cima, responde, irónico: "Se isso tivesse acontecido também não tinha que me justificar depois".

"All hands on deck"

Pede para não falar mais de histórias passadas - embora elas lhe estejam coladas à pele e sirvam para o definir como oficial superior das Forças Armadas - e passar ao presente, à nova missão que tem pela frente como coordenador nacional do Plano de Vacinação do ministério da Saúde. Esta noite passou-a em claro, admite, a ler e reler tudo o que relacionado com este plano e a começar a organizar o trabalho.

Está desde janeiro de 2020 nas funções de Adjunto para o Planeamento e Coordenação do EMGFA e apanhou logo em março a pandemia. Todo o planeamento para manter as Forças Armadas protegidas e ativas veio da sua equipa. Formação nos lares e nas escolas, sistema de saúde militar, ciberdefesa, inovação e até uma equipa "de conhecimento" que pesquisa todas as novidades científicas sobre a covid-19 - tudo está sob sua coordenação.

É meticuloso, paciente, tão paciente como aprende a ser alguém que viveu 22 anos da sua vida dentro de submarinos no fundo do mar, como foi o caso de Gouveia e Melo, que comandou o Barracuda e o Delfim. "Vivemos braço com braço, num sítio fechado, por longos períodos. A liderança tem de ser feita pelo exemplo e pela competência", descreveu ao DN quando falámos, em novembro, sobre a importância da sua experiência de vida para o trabalho de apoio à gestão das camas dos hospitais de Área Metropolitana de Lisboa.

Tem a reputação de ser "o homem das missões impossíveis, tornando-as possíveis", como destacou ao DN um oficial da Marinha que acompanhou o seu percurso, dando como exemplo o facto de ter sido Gouveia e Melo quem "organizou toda a estrutura, meios, recursos, para receber , em 2010, os dois novos submarinos, Arpão e Tridente, que foi uma verdadeira revolução, à época, na Marinha". "Só alguém com uma grande capacidade de liderança como é este oficial general é que é capaz de motivar e agregar pessoas para algo tão diferente", diz, não estranhando, por isso, a sua designação.

Gouveia e Melo respira fundo do outro lado da linha. "É difícil, mas não é impossível. Vai obrigar muita gente a colaborar em trabalho de equipa, com funções e responsabilidades bem definidas", diz ao DN o vice-almirante.

"Não sou eu Gouveia e Melo, não é um militar a comandar, que vale por si. Temos todos de trabalhar em equipa. O ministério da Saúde está na frente de combate há 11 meses"

E completa: "All hands on deck (todas as mãos no convés) é uma expressão muito utilizada nas Marinhas de todo o mundo e que significa trabalho de equipa. Isto para dizer que não sou eu Gouveia e Melo, não é um militar a comandar, que vale por si. Temos todos de trabalhar em equipa. O ministério da Saúde está na frente de combate há 11 meses. O que vamos fazer é ajudá-los a tornar a organização mais eficaz. Tenho um filho médico na linha da frente, sei bem todo o esforço que está a ser feito. Este é o combate da nossa geração. O combate de todos".

Corria, nos meios militares, que era Gouveia e Melo, 60 anos, o favorito para suceder a Mendes Calado, o atual Chefe de Estado-Maior da Armada (CEMA), o que deveria acontecer este mês, uma ambição última para o final de carreira.

O Almirante Melo Gomes, ex-CEMA conhece bem Gouveia e Melo e sabe que "aceita esta missão patriótica, sabendo que poderá não ter outra oportunidade. Perante o que está em causa, nunca iria colocar o seu interesse pessoal à frente do país, o dever vem sempre primeiro".

"É respeitado na Marinha por quem não teme competência e odiado pelos que se acomodam às conveniências e aos lugares"

Salienta que "é uma das melhores cabeças da Marinha. Pensa e decide com ponderação e eficiência. É um excelente organizador e possui uma grande capacidade de liderança. Tem um sentido de servir sem protagonismo (silent server). É respeitado na Marinha por quem não teme competência e odiado pelos que se acomodam às conveniências e aos lugares".

Foi com "preocupada satisfação" que Melo Gomes soube da nomeação. "É um cargo muito difícil, tem de correr bem. Tem de ter todo o apoio da liderança da Saúde", assevera.

Para já o novo coordenador nacional do Plano de Vacinação vai manter o seu quartel-general no gabinete do 5.º piso do Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA), onde dispõe de todo o apoio logístico necessário e onde escolherá os militares que precisa para reforçar a sua equipa e que serão depois destacados para onde for necessário.

Pensar fora da caixa

Nesta noite elencou as suas três prioridades (ver em baixo): reforçar a organização do processo de vacinação; investir na capacidade de resposta; responsabilizar as estruturas intervenientes. "Penso que é muito importante que as responsabilidades estejam bem definidas, separar o planeamento da execução, para se ganhar resiliência. Neste mês vão chegar quase mais meio milhão de vacinas e há que encontrar formas mais eficientes e rápidas de as administrar. Criar centros de vacinação, concentrando recursos em centros de saúde com capacidade, é uma hipótese".

"Tem grande capacidade de pensar fora da caixa e encontra sempre uma solução engenhosa para os problemas. É um dos melhores oficiais das Forças Armadas que conheço, muito competente.

Marcos Perestrello conhece-o desde que foi secretário de Estado da Defesa, na anterior legislatura do governo PS. "Tem grande capacidade de pensar fora da caixa e encontra sempre uma solução engenhosa para os problemas. É um dos melhores oficiais das Forças Armadas que conheço, muito competente. Alia capacidades extraordinárias de planeamento estratégico, comando e execução, qualidades raramente juntas numa só pessoa", retrata.

Perestrello soube do episódio de S.Tomé, mas não assistiu à famosa parte final, por já estar em terra em reuniões.

No PSD, que tem defendido desde há vários meses um maior protagonismo dos militares nas operações de combate à pandemia, Gouveia e Melo colhe igualmente respeito. "O que conheço do vice-almirante é uma cultura de rigor e uma cultura operacional que pode fazer a diferença. É uma pessoa muito afirmativa", afirma Ana Miguel, a coordenadora para a Defesa do grupo parlamentar do PSD.

"A vacina tem de ser tratada como um bem raríssimo. Neste momento, com caos diário, o PSD espera que as Forças Armadas consigam colocar ordem"

"Sempre defendemos um maior envolvimento das Forças Armadas neste processo. Toda a aplicação de recursos humanos e materiais tem de ser muito eficaz, sem desperdícios. Não há margem de erro. Por isso é importante aproveitar a cultura de disciplina e organização das Forças Armadas", afiança. Conclui: "A vacina tem de ser tratada como um bem raríssimo. Neste momento, com caos diário, o PSD espera que as Forças Armadas consigam colocar ordem".

As três prioridades do vice-Almirante

Reforçar a organização do processo

Gouveia Melo, com a cultura de organização militar que tem, considera prioritário, que "as responsabilidades estejam bem definidas, separando o planeamento da execução, porque assim o processo ganha resiliência. É assim que funciona no Estado-Maior-General das Forças Armadas desde início da pandemia, com o vice-almirante a assumir a coordenação de todo o planeamento, a partir do quartel-general do Restelo e, em Oeiras, o tenente-general Marco Serronha dirige as operações no Centro de Comando das Operações Militares.

Investir na capacidade de resposta

Com cerca de meio milhão de mais vacinas a chegar este mês, é preciso encontrar "formas mais eficientes e rápidas de vacinar". Entende que podem ser criados centros de vacinação, concentrando recursos em centros de saúde com mais capacidade, no limite do aconselhável.

Responsabilizar as estruturas intervenientes

"Não pode haver desresponsabilização. Se cada instituição tem uma lista de pessoas, segundo critérios, para ser vacinadas têm que cumprir", afirma Gouveia e Melo. Na sua opinião, deve ser usado "todo um leque de consequências, administrativas, disciplinares e criminais para quem não cumpre e responsabilizar os dirigentes das instituições".

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