Tudo começa com um brinquedo

Já se brincou com um simples pau ou uma bola. Hoje a tecnologia transformou o brinquedo. Na produção e no comércio. Mas nada está perdido: o digital não sobrevive sem o tradicional nem o rejeita

Hoje é dia de Pai Natal. As crianças já não deixam o sapatinho à lareira para de manhã saberem quais os presentes que recebem, a maioria já conhece os brinquedos esta noite. Tal como esta alteração de hábito, os brinquedos mudam, transformam-se e ganham novas formas que derivam da tecnologia e do efeito mediático das séries infantis televisivas. Mas há sempre outra forma de brincar. Um simples pau ou uma bola permanecem como brinquedos intemporais capazes de reunir gerações na brincadeira.

É nisso que aposta Hélder Gandra. Fez o curso de engenharia civil para ficar em casa dos pais a trabalhar em brinquedos. Aos 40 anos, com a ajuda do pai Alfredo, cria brinquedos feitos em madeira, entre a sua autoria e a recuperação dos mais tradicionais da cultura portuguesa. "A Oficina do Alfredo já existia. O meu pai restaurava móveis e arte sacra. Um dia disse-lhe: "Isto está a perder-se." Ele já tinha feito brinquedos e incentivei-o a fazer mais", recorda o artesão de São Pedro da Cova, Gondomar. Foi aí que surpreendeu a família. "Sei que dei um desgosto quando lhes disse: "Quero ficar em casa a trabalhar." Admite que a escolha foi determinada por razões filosóficas.

Alfredo, o pai, 66 anos, teve de aceitar. Encolhe os ombros e sorri. Pelo menos, o filho continua uma arte - a de trabalhar a madeira, não só brinquedos - a que dedicou toda a vida. "A minha intenção foi sempre não perder esta autenticidade", resume, no meio da oficina caseira onde trabalham. A aventura do brinquedo começou em 2004. "Foi uma coisa lenta. E onde vamos vender? Foi a pergunta que logo fizemos. Inscrevemo-nos na Argo, uma associação de artesãos de Gondomar e começamos", explica Hélder.

O artesanato escapa às regras de segurança dos brinquedos e, por isso, foi necessária uma abordagem nova. "Quis produzir um brinquedo de forma artesanal mas a cumprir todas as diretivas de segurança. Sem arestas, com tintas à base de água. Os pregos e cavilhas são em madeira, não há metal." E nasceram brinquedos, todos em madeira: carros da polícia ou dos bombeiros, táxis, camiões com báscula, piões, um robô ou uma simples vara para o jogo do pau, já um objeto mais adulto e recuperador da tradição portuguesa.

"São os brinquedos do futuro. O plástico não é recuperável, a madeira é", antevê Hélder, pouco importado se os seus artigos são os mais vendidos. "Estou satisfeito. Ganho a vida a fazer brinquedos. Não vou ficar rico, já sei, mas sobrevivo e sinto-me bem."

Criou página no Facebook e começou a vender. "Para todo mundo, Europa, Ásia, e América. E também fazemos venda para lojas nacionais". Em Portugal os seus brinquedos podem também ser adquiridos em lojas como os Armazéns Castelo ou a Alecrim.

"O pião sai muito. Não é o modelo tradicional português, este é integralmente feito em madeira, uma ideia que aproveitei do México. Hoje não se joga ao pião porque não há terra batida, este em madeira dá para jogar em todo o lado, até dentro de casa."

Além das tradições, Hélder criou um personagem próprio: o robô Asimov. "A ideia nasceu de ver os miúdos a brincar com o homem-aranha, o super-homem, todos de plástico. Saiu-me este androide, como digo, porque a madeira é um ser vivo e tem cheiro. As crianças ficam a conhecer o cheiro do pinheiro", explica este apreciador dos escritos do autor de ficção científica Isaac Asimov.

Hélder fabrica brinquedos às dezenas. Mas diz que nunca ficam iguais. "Como é de pequeno produtor, feitos à mão, acabam por ser todos diferentes, há sempre um acabamento novo." Sempre atento à conversa, o pai acrescenta que não usam madeiras tóxicas: "Não o fazemos, salvo em casos de pedidos por colecionadores."

Recuperam muita madeira de sobras, de excedentes de mobiliário e até de desperdícios. Hélder passou um dia na praia e viu um pedaço de madeira. Carregou-o. Agora vai às praias em busca. "Nem imaginam a quantidade e qualidade da madeira que dá à costa."

Se a postura na vida é definida por princípios, o artesão não se distancia do mercado. "Tenho a noção que qualquer coisa tem de saltar à vista. Competimos com grandes marcas que precisam dos heróis da BD. O nosso brinquedo é neutro, a criança não vai reproduzir o que viu na TV. Essa é a diferença."

"Não somos contra a tecnologia, mas para criar a base de criatividade e de formação de caráter os brinquedos devem ser simples. Falamos em crianças até aos 12 anos. Há aquele exemplo de dar uma folha em branco ou um folha já com desenhos para colorir. Qual é melhor para a criança ser criativa?"
Com este argumento, defende que os tablets e outras tecnologias devem chegar mais tarde. "Uma criança bem formada vai adaptar-se melhor à tecnologia. O brinquedo é a primeira ferramenta de aprendizagem, antes do livro." Para mostrar coerência e também "na senda de ganhar mercado", todos os brinquedos da oficina do Alfredo, têm reparação gratuita." É ao caso de um cavalo de baloiço. Custam 80 euros. "Mas não partem, podem colocar um adulto em cima que aguenta."

Em contraciclo com as granes marcas, o Natal não é o melhor período. "Vendemos menos. As promoções e o marketing dos cartões das grandes superfícies esmagam, as pessoas compram qualquer coisa nem que passado uma semana esteja tudo no lixo. Agora vendem drones que no mesmo dia se partem todos."

Um dos aspetos comerciais desta oficina passa por artigos que não são bem brinquedos. É o caso das Indian Clubs, uma espécie de alvo do bowling em madeira que serve para fazer ginástica. Outro é a vara de madeira. "Vendo até para Singapura ou Hong-Kong. Dão-se a esse luxo, já que os portes de envio são muito caros". A vara é mesmo apontada por Hélder como um exemplo de um certo alheamento nacional do cultura tradicional. "O jogo do pau é único, é português e ninguém quer saber."

De Paris com alma

Da produção, os brinquedos saltam para distribuição. Já se sabe que há grandes armazenistas e distribuidores. E há também que aspire a entrar no mercado com novas ideias, baseadas em brincadeiras do passado. A Almatoys nasceu há ano e meio na Póvoa de Varzim. Ana Figueiredo, nutricionista, e Nelson Gonçalves, engenheiro informático, criaram a sua empresa de comércio de brinquedos, com o objetivo de ter mais de 50% de tradicionais portugueses

"Fizemos uma viagem a Paris e não tínhamos comprado nada para os miúdos. Fomos a uma loja e ficamos encantados. Era tudo simples, muitos em madeira. Foi aí que nasceu a ideia", conta Ana. "Isso fez-nos pensar nos brinquedos do nosso tempo. Não tínhamos nenhuma ligação a este mundo", acrescenta Nelson.

"Começamos a procurar brinquedos da nossa infância. A ver que fabricantes portugueses ainda existiam e começamos a falar com eles", explica o autor do site que serve de principal plataforma de venda. Foram conhecer artesãos à zona de Valongo e Gondomar, concelhos no passado sede de dezenas de fabricantes como a Pepe a JAJ JATO de Alfena. Esta fábrica, com origem em 1928, já produziu milhares de brinquedos. Hoje ainda resiste, no caso do brinquedo mais pela paixão dos irmãos Penela. Produzem outros artigos como martelos de São João e tambores. "Ficamos com representação dos brinquedos. E vendem bem. O táxi tem muita saída e o avião também." Adquirem a artesãos da mesma zona artigos como bicicletas em madeira e lousas. Na zona de Leiria, encontraram um jogo de mini basket, da Moldemartin . "Temos um artigo raro, que é o Loto da Majora antiga. Eram as últimas caixas antes da marca fechar e conseguimos encontrá-los num armazém", diz Ana, realçando que esperavam encontrar mais variedade e mais empresas mas conseguem ter mais de metade dos produtos à venda como sendo genuinamente made in Portugal. Também compram em Espanha, onde há três grandes fabricantes espanhóis que resistem há décadas" e também alguns artigos oriundos da China.

Dos portugueses, "o que melhor vende são os puzzles" da Torre de Belém ou da Ribeira do Porto. "Atualmente não temos nenhum brinquedo que leve pilha."

Nelson Gonçalves diz que não rejeita os brinquedos tecnológicos, os próprios filhos os têm, sem que isso implique uma massificação junto das crianças. "Hoje os pais têm dificuldade em brincar. Pelo feedback que temos, os pais veem nos brinquedos da sua geração uma forma de interagir melhor com os filhos. Um Lego por exemplo une duas gerações e serve como partilha de experiências."

A venda é efetuada diretamente ao público através da internet - "Fazemos revenda mas não conseguimos ser competitivos" -, com os clientes a estarem sobretudo em Portugal. "Pensamos que seria mais para fora, por isso temos o site em inglês e espanhol, mas os portugueses são os que mais nos contactam". Do estrangeiro "há também pedidos, de todo o lado", com "emigrantes e turistas" à frente. "Podemos ter um australiano a procurar brinquedos portugueses ou um turista canadiano que esteve em Portugal e depois encomendou puzzles da Ribeira do Porto. Queria muito. Pagou 10 euros pelo puzzle e mais de 25 euros pelos portes de envio", recorda Ana.

Conhecedor da informática, Nelson criou o site, tirou as fotografias e, com Ana, fez os textos e as traduções. "A internet é a montra mas depois é o telefonema que resolve a compra. Muitos dos nossos clientes habituais têm 50 anos. O colecionismo de brinquedos tem força." No entanto, "nota-se o Natal, com uma procura diferente. Os puzzles e os jogos de mesa saem melhor, e brinquedos para os miúdos. O colecionador compra ao longo do ano e no Natal descansa."

Num espaço da moradia onde vivem que funciona como armazém há brinquedos que os mais velhos logo reconhecem. Pequenas máquinas de costura, as fisgas, os berlindes, o arco e a flecha, o cubo em madeira. Na maioria têm preços baixos. "O negócio complica com os portes que são caros. Um carro da Pepe custa 3 euros - um jogo de bowling é dos mais caros, 24 euros." Ana reconhece que a empresa funciona numa espécie de part-time, embora estejam sempre disponíveis . "Não conseguíamos viver só disto. Mas gostamos e enquanto for possível.. . Pelo menos, os nossos filhos, de 7 e 8 anos, podem dizer que têm uma loja de brinquedos em casa."

O renascimento da Majora

Fundada em 1939, no Porto, a Majora foi uma das grandes nacionais de brinquedos, em especial jogos de tabuleiro como O Sabichão, Monopólio, Jogo da Glória ou Loto. Este Natal é o primeiro no regresso da marca ao comércio. É numa gráfica, para os lados de Loures, à saída de Lisboa, que é "feito" - ou melhor montado - o jogo mais famoso da Majora. Entre ementas da TAP, pacotes de cartão de maços de tabaco e de produtos de beleza, calendários, o Sabichão foi por estes dias o rei da empresa da família Moluras. Desde 2013, que a fábrica de brinquedos dos tradicionais jogos de tabuleiro, então situada no Porto, deixou de existir e a marca passou em 2014 a ser propriedade do fundo de investimento Edge Ventures, holding do The Edge Group, por 600 mil euros. Hoje, as peças que formam O Sabichão - inventado há 54 anos - são feitas em vários pontos do País, montadas e embaladas na gráfica Onda Grafe.

"Eu sou o sabichão, eu sei tudo! Pergunta-me o que quiseres e eu respondo. Gosto de todos os temas..." Introdução feita, Florbela verifica todas a peças do jogo: dois ímanes, um espelho, chapéu de cartão, sete cartões com perguntas, um livro e o famoso boneco - um mago vestido a rigor, pintado à mão, tudo de forma artesanal. "Não dou uma caixa por terminada sem conferir que o sabichão dá a resposta certa, esta é a ciência do meu trabalho", comenta Florbela, de 46 anos, que já leva 11 como funcionária da Onda Grafe. Este ano, que marca o regresso do fabrico do jogo, destinado a maiores de 7 anos (e sem limite de idades), chegaram a Loures cerca de 3000 sabichões. Florbela demora uma média de 1m 45s a juntar as peças e a deixar a caixa pronta a seguir para as prateleiras. A estes quase dois minutos juntam-se cerca de seis meses de trabalho, o tempo que levou a relançar o jogo.

"Qual o clube em que Cristiano Ronaldo iniciou a sua carreira profissional?" A pergunta consta da folha com a temática do desporto. Florbela segura com todo o cuidado o sabichão e coloca-o em cima do espelho "mágico" e a varinha da sabedoria do boneco aponta para a resposta: Sporting Clube de Portugal. Tudo bate certo. Mas como é que o sabichão sabe tanto? Esse é um segredo que ninguém revela. "Isso era quebrar a magia do sabichão", diz Catarina Jervell, diretora geral.

A Majora considera-se uma empresa para a criança. "A marca passou por várias gerações e os seus jogos estão no imaginário de muitos portugueses . Temos um feedback muito positivo pelo regresso e o desafio é chegar às novas gerações", diz a responsável, confiante no futuro. " Os grandes fabricantes dos Estados Unidos apontam duas grandes tendências - os jogos de tabuleiro e os brinquedos tradicionais. É muito importante o convívio familiar e combater o isolamento das crianças". Catarina Jervell revela que a Majora fez um estudo em que se "concluiu que os pais gostam de brinquedos que impliquem interação entre a família." "Este mercado está a crescer aos contrário dos jogos digitais", assegura, sem virar costas ao digital "Este ano foi de lançamento da tradicional oferta. Para o ano desenvolveremos temas digitais. Objetivo é ter um equilíbrio entre jogos de tabuleiro e jogos digitais."

No mercado estão 33 produtos, 11 deles clássicos, como o Jogo da Glória, o Sabichão, Profissões. "Tudo muito virado para o suporte à educação." Há produção em empresas portuguesas mas uma grande parte é feita na União Europeia - Polónia, Alemanha e Bélgica. "Apostamos em fornecedores em Portugal. Não conseguimos é encontrar muita capacidade para fazer todos os componentes." Catarina Jervell tem a expectativa que "60 a 70% das vendas serão no Natal - para a industria do brinquedo será sempre um período importante". Os "produtos de qualidade, que dispensam pilhas nem requerem bateria" são a vantagem da Majora, diz a diretora geral, apontando que os jogos desenvolvem a "cultural geral, capacidade social, o aprender a perder, a ter estratégias". Por isso, trabalham com pedagogos para pensar os brinquedos e alargam as parcerias a entidades como a Ordem dos Biólogos, a Sociedade Ponto Verde, entre outros. "São sinergias para fazer melhores brincadeiras."

O digital do futuro ... e do passado

Chegamos então ao digital. Na nova era dos brinquedos, dominada pelas multinacionais que vendem a maioria dos brinquedos a nível mundial, surgiram empresas nacionais como a Science4You, que se dedica aos brinquedos científicos, aos tablets e a drones, num total de 300 brinquedos diferentes. Diz produzir 20 mil brinquedos por dia, vendidos em 35 países e que valem 18 milhões de euros este ano.

Este sucesso poderá explicar o surgimento de novas start-ups no setor. A Magikbee, de Braga, começou há um ano e fabrica um tablet que combina um jogo com peças tradicionais de madeira. "A ideia vinha sendo desenvolvida antes, quando lançamos uma campanha de crowdfunding. Só tínhamos um protótipo e víamos a ideia com um grande potencial de mercado", explica Hugo Ribeiro, um dos fundadores. Um ano depois estavam a comercializar o produto. Como nasceu a ideia? "Sou pai de duas filhas. A mais nova com três anos passava muito tempo ligada ao tablet. Percebi que era demasiado prejudicial, tinha pouca ligação a objetos físicos."

Com formação em economia, Hugo trabalha em marketing. "Conheci um sócio, Pedro Branco, investigador na Universidade do Minho em tecnologia interativa para educação, e decidimos avançar para o projeto em conjunto - encontrar soluções para pais que viam os filhos muito tempo no digital."

O Magikplay é o primeiro produto - "estamos a desenvolver novos" - e está apenas disponível na loja online própria e na loja da Amazon Launchpad- uma montra exclusiva para projetos inovadores

"Estamos com vendas para vários países. EUA, Reino Unidos Austrália são os principais, mas também Suécia, Dinamarca e Lituânia. São países onde se compra mais online, em Portugal ainda há muito receio." E aqui o Natal nota-se: "Chegamos um bocadinho tarde, estamos a aproveitar algum mas podia ser mais. Contudo os brinquedos educativos não são tão sazonais, são mais comprados ao longo do ano , ajudam as crianças a desenvolver capacidades."

Os criadores da Magikbee não se deslumbram com a tecnologia. "Há três, quatro anos começou a pensar-se que ia tudo para o digital, para as aplicações. Mas as tendências são cada vez mais juntar as melhores componentes físicas com as digitais - a experiência de contacto acrescenta muito mais valorização," reflete Hugo Ribeiro.

Sendo "desenhado, desenvolvido e produzido em Portugal", o magikPlay tem um "tablet que vem de fora. O software e todo o kit de peças são feitos em Portugal." Hugo tem a noção que se crescer "será difícil manter a produção totalmente nacional , devido aos custos." Para já, o que importa é criar novos produtos. "Vamos ter mais brinquedos educativos, teremos surpresas inovadoras em 2017."

Com Sílvia Freches

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