Talhos apanhados com carne sem identificação da origem

Lei obriga a que o rótulo dos vários tipos de carne tenha a origem. Deco comprou 700 peças. Em 30% a informação não existia

A lei que obriga a que os rótulos das embalagens tenham informação sobre a origem da carne que consumimos tem 15 anos, mas continua por ser cumprida. Numa visita a 126 talhos, de rua e de grandes superfícies, a Deco - Associação de Defesa do Consumidor concluiu que em 30% das mais de 700 peças de carne que comprou não existia essa informação.

A Federação Nacional das Associações de Comerciantes de Carne defende que a legislação está ultrapassada e que a falta de informação prejudica consumidores e comerciantes, ao criar concorrência desleal. A Deco inspecionou o rótulo de 729 peças de carne, 288 das quais de vaca, em busca da indicação da origem obrigatória por lei. Para isso compraram carne em 126 talhos e supermercados em junho deste ano. "Em 60% das peças de carne que observámos, a rotulagem estava em conformidade com a legislação. Em 28% dos casos, não encontrámos qualquer referência à origem ou a outras menções que permitam determinar a origem e, em 12% das amostras, detetámos algumas falhas na rotulagem."

A associação alerta que os problemas eram ainda maiores quando analisaram apenas a carne de vaca. "Foi na carne de bovino que detetámos mais problemas na rotulagem, com dois terços da amostra em incumprimento: 44% da carne nos talhos de rua ou supermercado não tinham qualquer referência à origem e, em 24% dos casos, a rotulagem apresentava falhas ou omissões, como o local de desmancha."

Desde 2000, altura do surto da doença das vacas loucas, que é obrigatório conhecer a origem da carne de vaca. A lei foi entretanto alargada em abril deste ano às carnes de porco, ovino, borrego, cabrito e aves de capoeira. A Deco refere que no caso das aves, ovinos e caprinos faltava sobretudo informação do local de abate. Na carne de vaca faltava o local de desmancho. "Os talhos, tanto de rua como de hipermercado, têm de melhorar a rotulagem da carne para se saber detalhadamente todo o percurso. Se faltam informações relevantes, o sistema de rastreabilidade cai por terra. Torna-se impossível chegar à origem e atuar quando surgem irregularidades que ponham em causa a segurança dos consumidores", alerta.

Legislação está ultrapassada

Marinela Lourenço, da Federação Nacional das Associações de Comerciantes de Carne, afirma que no caso das carnes nacionais, todas são entregues aos comerciantes com os dados da origem do animal e data de nascimento, já que é obrigatório que este bilhete de identidade esteja colocado na vitrina ou nas câmaras frigorificas. "Nas grandes superfícies não se encontra a origem da carne. Nos talhos de proximidade, encontro na maioria. A falta de informação prejudica o consumidor e o pequeno comerciante, que tenta impor-se pela qualidade mas depois não consegue combater os baixos preços. Cria concorrência desleal", aponta, referindo que "a legislação está ultrapassada".

Além deste problema, diz Marinela Lourenço, há um outro. "A nossa carne passa por um controlo rigoroso e a que importamos não. Em Espanha, por exemplo, é possível dar anfetaminas aos animais. Em Portugal não. Isto cria uma diferença substancial na qualidade e no preço. Não encontro nas grandes superfícies carne nacional de novilho e de porco", diz a responsável.

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