Exclusivo "Pobreza é estrutural também porque o elevador social não funciona "

A Fundação Francisco Manuel dos Santos vai apresentar neste ano os resultados de dois grandes estudos, um sobre a pobreza em Portugal e outro sobre os impactos económicos, políticos e sociais da covid-1, revela Gonçalo Saraiva Matias, diretor de estudos da FFMS.

Entre os projetos que a fundação tem para 2021 há dois grandes estudos - um sobre a pobreza em Portugal e outro sobre o impacto da covid-19. Neste momento, eles não são praticamente a mesma coisa? A covid-19 não vai influenciar decisivamente a pobreza em Portugal?
Sim. Há claramente uma relação entre o problema da covid e da pandemia e a pobreza, embora estes estudos tenham âmbitos muito diversos. O estudo da pobreza cobre o problema da pobreza em Portugal mesmo antes da covid-19. Infelizmente, o problema da pobreza em Portugal não é um problema recente, não começa com a covid-19, muito longe disso. Esse estudo é feito ainda antes da pandemia e vai estudar - é por isso que ele é muito interessante e é isso que traz de inovação em relação a outros estudos sobre este tema - trajetos de pobreza. Portanto, ele vai olhar para pessoas, vai olhar para famílias, e vai perceber como é que essas famílias estão em pobreza, como é que evoluíram na sua situação de pobreza e como é que algumas puderam sair dela, ou não, e outras entraram na pobreza. Nós vamos olhar para percursos e projetos específicos de pessoas e perceber como é que elas evoluíram nessa situação. No seguimento que faremos do estudo, vamos olhar para esses perfis no contexto da pandemia e perceber como é que a pandemia influenciou esses perfis. Agora, infelizmente, temos de concluir - e a área da pobreza e da desigualdade é uma área a que a fundação se tem sempre dedicado muito -, temos de reconhecer que as questões de pobreza e de desigualdade são muito radicadas em Portugal e que só podem ter agravado com a pandemia. O estudo da pandemia, nesse aspeto, vai olhar para as consequências económicas e familiares da pandemia.

Olhando para o estudo da pobreza, quando diz que estudaram percursos de indivíduos ou de famílias, consegue antecipar se a pobreza em Portugal é muito transmitida geracionalmente? É possível dizer que o elevador social em Portugal funciona mal?
Exatamente. Podemos dizer que temos em Portugal uma pobreza endémica, uma pobreza que é estrutural. É estrutural, em parte, também por isso, porque o elevador social não funciona. Nós vemos nesses perfis, nesses percursos de pobreza, uma enorme dificuldade de as novas gerações saírem da pobreza. Algo que, há algumas décadas, estava a funcionar melhor, também porque nós partimos de um patamar mais baixo e a educação tinha um efeito multiplicador na saída da pobreza e no acesso aos bens económicos. Hoje, vemos que esse elevador social é muito mais difícil de funcionar - alguns dizem até que ele está avariado.

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