Parkinson. Controlar a doença com dois elétrodos no cérebro

Intervenção cirúrgica para estimulação cerebral profunda faz-se em Portugal desde 2002. No Dia Mundial da Doença de Parkinson, o DN conta a história de um destes doentes

Tudo começou em 2001 com um ligeiro tremor nos dedos e uma sensação de formigueiro na mão esquerda, que ia pelo braço acima. António Anastácio, então com 55 anos e já reformado da profissão de mecânico, decidiu ir ao médico, e o diagnóstico não se fez esperar. Era Parkinson, uma doença neurodegenerativa de progressão lenta e sem cura, que afeta os músculos e os movimentos, e que a prazo se torna muito incapacitante. Foi assim com ele, apesar dos medicamentos e da "sua força de vontade", como lembra Olga Anastácio, a mulher. Há dois anos, uma neurocirurgia de implante de dois micro-eléctrodos para tratamento por estimulação cerebral profunda devolveu-lhe a qualidade de vida. A doença não se foi embora - o Parkinson não tem cura - mas ele praticamente já não tem sintomas. "Já não tremo, como e faço tudo sozinho, conduzo, lavo o carro, ajudo a minha mulher nas tarefas da casa, e durmo sem problemas", conta, satisfeito. "É uma diferença como o dia da noite", garante.

António passou pelas fases todas. O aumento dos tremores, os movimentos involuntários constantes, que punham as pessoas a voltar a cabeça na sua direção quando saia à rua, os bloqueios que muitas vezes o impediam de caminhar, a rigidez nos músculos do pescoço que durante a noite lhe causavam dores terríveis e lhe sabotavam o sono.

Em 2016, 15 anos depois do diagnóstico, o seu dia-a-dia tinha-se tornado numa penosa jornada, cheia de obstáculos, apesar da quantidade de medicamentos que nessa altura já tomava.

Coisas banais como comer, vestir-se ou tomar banho tornaram-se-lhe tarefas pesadas e difíceis, para as quais precisava da ajuda da mulher. Ela lembra-se bem disso. "Há três anos, ele tomava 18 comprimidos por dia, entre as sete da manhã e as dez da noite tinha de ter o telemóvel com alarme ligado de duas em duas horas para a medicação", conta Olga Anastácio. Mas os medicamentos "já não estavam a fazer efeito", explica. Foi então que o médico que o seguia no Hospital de Santa Maria lhe propôs a hipótese da neurocirurgia para a estimulação cerebral profunda.

Sem problemas cognitivos nem sintomas de demência, que afetam uma parte destes doentes, e quase a atingir o limite de idade para a operação, que é aos 70 anos - ele tinha na altura 69 -, António podia beneficiar muito da intervenção. Acabou por ser operado no Hospital Cuf Infante Santo, no que foi a primeira cirurgia deste tipo num hospital privado no país. A equipa de neurocirurgiões foi uma parte da mesma que em 2005 iniciou estas intervenções em Santa Maria e que, desde então as realiza regularmente, por rotina, naquele hospital público.

"Não sabíamos quando haveria vaga em Santa Maria, na Cuf podia ser logo, optámos por essa hipótese", conta Olga Anastácio.

Desde então, a equipa já realizou mais duas destas intervenções no hospital privado, para além das três que faz em média todos os meses no serviço de neurocirurgia em Santa Maria, como explica uma das neurocirurgiãs, Maria Begoña Cattoni. "Esta é uma neurocirurgia standard, perfeitamente estabelecida para estes casos, deve ser comparticipada pelas seguradoras e pelos subsistemas de saúde", defende a médica. Foi assim que aconteceu, de resto, nos três casos operados na Cuf, adianta Maria Begoña Cattoni, sublinhando que "esta possibilidade que pode ajudar a vazão aos doentes que têm de esperar pela cirurgia".

Dos cerca de 20 mil doentes de Parkinson que há em Portugal, só cerca de 5% são elegíveis para esta intervenção - "os critérios são muito apertados", explica a médica. Mas os doentes recuperam na esmagadora maioria em mais de 80%.

O primeiro hospital que fez esta cirurgia em Portugal foi o São João, no Porto, em 2002. Seguiu-se Santa Maria, em 2005, que já fez desde então, cerca de 350 no total. Mas as potencialidades deste tipo de intervenção - que "comporta riscos e que é muito complexa", sublinha a médica - "tem um horizonte mais vasto". Pode ser aplicada também "em doenças neuropsiquiátricas, como a depressão profunda, a neurose obsessiva-compulsiva e outras, mudando o alvo a estimular, e isso já se está a fazer", garante Maria Begoña Cattoni.

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