Os homens que nos garantem a luz em tempos obscuros

Lidam com os perigos da eletricidade e agora com o risco de contágio da covid-19. Ao equipamento que já usavam para mexer em cabos e instalações elétricas, as equipas de piquete da E-Redes juntaram as máscaras de proteção individual.

Uma avaria no cabo 1048, junto ao mercado de Benfica, em Lisboa, leva mais uma equipa da E-Redes, antiga EDP Distribuição, para a rua. Estes homens não podem ficar em casa, mesmo em tempo de confinamento, para que haja eletricidade em todo o lado. José Cascais, 56 anos, e Luís Delgado, 48, entram em campo, manhã cedo, já depois de outra equipa ter reparado o cabo subterrâneo durante a noite. Vão confirmar se há condições para voltar a injetar tensão.

José Cascais sai da carrinha apetrechado com um busca-polos com mais de um metro e com umas luvas especiais, que o protegem da corrente elétrica, e com a máscara, que o protege do SARS-CoV-2. Entre o perigo de mexer em redes elétricas e o risco de contágio da covid-19 continua a ter mais medo da eletricidade. "É bastante perigoso", constata. "Mas se trabalharmos em segurança e com as ferramentas todas, não falha", garante. "Eu não a vejo. O vírus também não vejo - aí tem uma semelhança - mas eu sei que ela está ali. O vírus, não sei onde ele está", compara, já baralhado entre o risco das duas ameaças com que lida diariamente.

O busca-polos dá sinal sonoro da presença de corrente elétrica no posto de transformação. Luís Delgado confirma os dados da leitura. O problema está resolvido e informam o centro de comando, na Palhavã, de que vão normalizar o cabo. Segue-se uma auditoria ao posto de transformação da Torre do Tombo, para verificar se está tudo em condições. "Pelo aspeto geral está em bom estado de exploração, não vai ser preciso brevemente nenhum tipo de intervenção da nossa parte", conclui Luís Delgado.

Esta equipa passa o dia entre intervenções urgentes e trabalhos programados. A subestação norte, situada no centro de Lisboa, é a base de onde saem para cobrir a área de Lisboa, Amadora, Oeiras e Cascais. É também esta subestação que alimenta uma parte substancial da cidade de Lisboa com energia elétrica. "É aqui que recebemos a tensão que vem do transformador de 60 quilovolts, é transformado para 10 quilovolts e daqui é distribuído para os postos de transformação que estão na área envolvente para depois irem então transformar estes 10 quilovolts para 230 volts que é aquilo que as pessoas têm casa quando ligam o interruptor e acendem a luz", explica Nuno Quintela, organizador de trabalhos da área de manutenção de Lisboa da E-Redes. "Estamos sempre a descer o nível de tensão", diz.

"Temos quatro subestações injetoras, maiores. Essas quatro passam para 30 como esta e, dessas 30, passam para cerca de dez mil postos de transformação. E é destes que vai para as nossas casas", esquematiza. "Está a ver a infraestrutura que temos ali fora?", pergunta referindo-se ao posto de transformação que ocupa uma boa área do exterior. "Não podemos ter aquilo dentro de um bairro. Temos de ter uma coisa mais pequena. E quanto mais baixo é o nível de tensão mais pequena é a infraestrutura que temos de ter".

Uma realidade que se multiplica pelo país inteiro e que forma uma complexa rede que, tal como nas autoestradas, precisa de manutenção e, às vezes, de intervenções urgentes. "As avarias têm a ver com várias situações distintas. Podem ser por atos intrusivos, por obras nas proximidades que mexam na nossa infraestrutura, podem também ter a ver com temporais...", enumera Nuno Quintela. "Nesta área podemos ter menos avarias porque a rede é basicamente subterrânea. A rede subterrânea não tem tantos problemas com intempéries, por exemplo, como em rede aérea. Em Lisboa não vê postes de eletricidade, só vê os candeeiros a saírem do chão, porque os cabos são todos subterrâneos. Em zonas mais rurais, tem de ser tudo em rede aérea. São distâncias mais longas e não era exequível, a nível monetário, fazer redes subterrâneas para todos os lados", explica.

Modernização da rede

O investimento feito nos últimos anos na renovação da rede elétrica e em novas tecnologias também justifica a redução de apagões. Que o diga José Cascais, que já trabalha com eletricidade há quase 40 anos. "Foi uma evolução muito grande. Isto agora tem muito a parte digital e quando comecei era diferente, as coisas demoravam mais. Numa avaria demorava-se mais tempo. Agora é tudo muito mais rápido", compara. Ao fim de tantos anos, continua a gostar muito daquilo que faz. "É um trabalho gratificante. Tem aquela adrenalina de dar energia aos clientes o mais rápido possível com a segurança devida."

Mas nem sempre são bem recebidos pelos clientes, queixa-se Luís Delgado. "Há situações em que mal chegamos nos dizem "Então? Liga lá isso, nunca mais temos luz". Isso é desagradável porque temos a preocupação de irmos o mais rápido possível e, sermos recebidos com três pedras na mão, dá é vontade de vir embora", conta.

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