Muito dinheiro, pouco volume: quanto vale uma nota de 500

Em três meses foram transacionadas 334 mil destas notas. A sua saída de circulação é benéfica para o combate ao crime

Nos primeiros três meses deste ano saíram dos cofres do Banco de Portugal 334 mil notas de 500 euros, num valor correspondente a mais de 63 milhões de euros. No total do ano passado foram 635 milhões (1,3 milhões de notas). Uma realidade que vai mudar - o Banco Central Europeu (BCE) anunciou que vai deixar de produzir estas notas, definitivamente, em 2018. Apesar disso, e ao contrário do que apontavam as primeiras declarações dos responsáveis europeus, as notas que estão no mercado continuarão a poder ser usadas, e sem limite de validade.

A decisão do BCE não merece uma interpretação consensual entre os economistas, nem sequer quanto aos objetivos pretendidos. Vai criar uma situação "perversa", diz Avelino de Jesus, professor do ISEG (Instituto Superior de Economia e Gestão), defendendo que o alcance desta medida está longe de ser o combate à criminalidade (ver entrevista ao lado).

"A maior parte das pessoas nunca viu uma nota de 500 euros. Eu nunca vi. Mas 30% da circulação [de notas] é precisamente de notas de 500 euros. Há aqui um problema", diz por seu lado Nuno Teles, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, e especialista em questões financeiras. Mas não é a única explicação avançada. Para este economista a decisão do BCE surge nesta altura "não apenas pela questão da criminalidade", mas para dar um empurrão à política monetária de Mario Draghi. Ou seja, para "tornar mais caro aos bancos o entesouramento em espécie" - leia-se guardar as notas nos seus cofres, a versão bancária do dinheiro debaixo do colchão - em vez de o depositar no BCE, onde as taxas são agora negativas (ou seja, os bancos têm de pagar para pôr lá o dinheiro).

Fonte da PJ com experiência no combate ao crime financeiro admite que a saída destas notas de circulação tem um efeito positivo, na medida em que dificulta a deslocação de dinheiro vivo . "Se eu tiver 100 notas de 500 euros tenho muito dinheiro e pouco volume", sublinha, admitindo que esta é uma alternativa para os criminosos face a um sistema financeiro cada vez mais "policiado". "Hoje as regras são muito mais apertadas e torna-se difícil colocar grandes quantidades de dinheiro. Notas de grande valor transportam-se no bolso da carteira", sublinha a mesma fonte.
A má fama das notas de 500 euros enquanto instrumento privilegiado de atividades ilícitas já lhes valeu o cognome de Bin Laden"s. No início deste ano, quando os responsáveis do BCE apontavam mesmo para a eliminação da nota, um dos membros do Banco Central, o francês Benoit Coeuré, sublinhava que cerca de um quinto das notas em circulação está fora da zona euro, com destaque para a Europa de Leste e Rússia. Este responsável deu então uma garantia: "Não se trata de acabar com as notas em geral."

Atualmente haverá cerca de 614 milhões de notas de 500 euros em circulação. Curiosamente, nenhuma é produzida em Portugal - é a única nota que o BdP não produz.

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