Médicos de cuidados primários preocupados com novas regras para a testagem

Médicos de família aguardam que DGS diga quem vai fazer os testes em instituições, se forem eles "não há capacidade". A Saúde Pública diz que é mais uma estratégia sem recursos.

A Direção-Geral da Saúde (DGS) emitiu novas normas para a testagem e rastreio à covid-19 há poucos dias. A atualização dos critérios foi pedida publicamente pela ministra da Saúde, Marta Temido, na terça-feira, dia 9, após a reunião do Governo com peritos no Infarmed. E, horas depois, a DGS estava a divulgar os novos critérios, para terem efeito imediato, a partir das zero horas de quarta-feira.

O documento, que foi designado como a nova estratégia para testagem, impõe assim uma testagem rápida em setores com grande mobilidade social, escolas, lares, fábricas e construção e mais alargada - ou seja, a todos os contactos, de maior ou menor risco. Por outro lado, estipula também que estes contactos sejam feitos, idealmente, nas 24 horas seguintes à identificação do caso positivo, o que só será possível "se houver um número reduzido de casos e não os que se registaram no início do ano", salienta de imediato o presidente da Associação Portuguesa de Médicos de Saúde (APMSP), Ricardo Mexia.

A nova estratégia resume-se em testar, testar, testar para se identificar o maior número de casos assintomáticos, mais rapidamente os infetados e assim conseguir-se travar mais cedo as cadeias de transmissão. No fundo, uma estratégia que tem sido defendida desde o início da pandemia por muitos especialistas nacionais. Mas, segundo explica a DGS na norma, tal estratégia surge agora porque o contexto epidemiológico do país o exige. A estratégia está lançada, mas há situações a definir. A diretora-geral da Saúde já disse que os laboratórios do país rem capacidade para responder a 100 mil testes por dia, falta saber é se a nova estratégia foi adequada aos recursos existentes, sobretudo nos cuidados primários.

Uma das grandes preocupações dos médicos de família tem a ver com o facto de ainda não se saber quem são os profissionais que vão ter de fazer testagens regulares em lares, escolas e outras instituições, como está definido na nova norma. "Se esta tarefa for atribuída aos profissionais dos centros de saúde a capacidade será muito reduzida", desabafou ao DN o atual presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF). Nuno Jacinto, médico no distrito de Évora, começa por dizer que "é positivo haver uma estratégia de maior testagem e de identificação rápida dos casos, porque é importante que tal aconteça para se quebrar as cadeias de transmissão". Só que a questão, "deixa-me preocupado, porque os recursos humanos dos centros de saúde são os mesmos e o nosso tempo é finito. Não conseguimos dar resposta a tudo em simultâneo".

O presidente da APMGF relembra que os médicos de família já estão no rastreio à covid-19, através do acompanhamento dos doentes infetados que não têm necessidade de internamento, que são a grande maioria, já estão no rastreio através dos contactos de vigilância, já estão nas equipas de vacinação, que é um processo que está a aumentar, e se ainda vão ser recrutados para os testes regulares "ficamos sem capacidade para mais nada". Especificando: "Uma coisa é encaminharmos os doentes para os locais convencionados com a prescrição para realizarem os testes, outra é levar os profissionais dos cuidados primários para mais essa tarefa. Voltamos à mesma questão, se tivermos mais esta tarefa faremos menos tarefas não covid. Portanto, aguardamos algumas explicações para se perceber como vai ser feita essa testagem regular".

"Houve alturas em que algumas unidades chegaram a ter 700 e 800 doentes para cinco ou seis médicos, que não conseguiam telefonar a todos num só dia".

Até agora, a identificação de doentes infetados e dos contactos mais próximos para os colocar em isolamento tem sido uma das funções da Saúde Pública. Os médicos de família têm tido, entre outras, a função de prescrever os testes de rastreio a doentes suspeitos e de os acompanhar na doença, para ver se há agravamento ou não.

Uns e outros têm reivindicado mais recursos, tanto humanos como de equipamento, chegaram a pedir mais linhas de telefone e mais telefones para poderem fazer o seu trabalho, chegando ao ponto de admitir que não estavam a conseguir travar as cadeias de transmissão, pois havia mais de 50 mil inquéritos epidemiológicos em atraso, e que não estavam a ligar diariamente a todos os doentes infetados. Nuno Jacinto contou ao DN que

Neste momento, tanto Nuno Jacinto como Ricardo Mexia assumem que há menos inquéritos em atraso, mas alertam: "A situação é como se fosse um harmónio, com menos casos temos a possibilidade de realizar mais tarefas, mais casos há hipótese de estarmos em várias áreas ao mesmo tempo".

Para Ricardo Mexia, a nova estratégia - sobre a qual diz que "não é nova porque desde novembro que estava previsto desenvolver-se esta testagem, se não foi aplicada é outra coisa - é, mais uma vez, uma medida em que se corre atrás do prejuízo, "lança-se e depois logo se vê. Tem sido assim o combate à pandemia desde o início".Para Nuno Jacinto a preocupação é outra: "O que se vai fazer a seguir, como vamos desconfinar e de que forma vamos garantir um nível de casos aceitável para que os centros de saúde possam trabalhar de forma mais organizada e não estar só a reagir ao que acontece. É preciso voltarmos a fazer o que devemos fazer e não sermos só profissionais da pandemia. Temos de dar atenção a todos os outros doentes".

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