Dolly foi há 20 anos e, afinal, não há clones humanos

Extintas as tempestades mediáticas e os delírios apocalípticos, a clonagem permitiu avanços na investigação em células estaminais e regeneração de tecidos. E não acabará aqui

Invocaram-se exércitos de clones e cenários apocalípticos de humanos feitos à medida para tudo e mais alguma coisa - extração de órgãos sem limites nem culpas, soldados sem pátria, filhos à imagem dos progenitores... -, mas passados 20 anos sobre o nascimento da ovelha Dolly, a realidade desmentiu todos os delírios. Quanto às promessas daquela técnica para a medicina, elas estão longe de cumpridas, mas fez-se uma caminhada e, essa, ainda não terminou.

Apesar da Dolly, e de todos os seres que nestas duas décadas já foram clonados - uma lista razoável, que inclui cães e porcos, ratos, coelhos, cavalos, lobos, veados, macacos ... -, a clonagem não era (e não é), afinal, um procedimento tão simples que desse para fazer exércitos em série e prontos para tudo.

Naqueles tempos da pioneira ovelha, os procedimentos laboratoriais da clonagem nuclear desenvolvida por Ian Wilmut e a sua equipa no Instituto Roslin, na Escócia, eram mais coroados de erros do que de êxitos. Para que Dolly nascesse foram necessárias 277 tentativas, que deram origem a 29 embriões e, destes, só um vingou. Mas o feito dos cientistas britânicos pôs o mundo a discutir novas possibilidades - mais exigentes do ponto de vista ético -, e abriu portas a novidades como a reprogramação celular que ainda tem muito para dar no campo da biomedicina.

Primeiro mamífero clonado

A técnica que Ian Wilmut e a sua equipa utilizaram para fazer nascer a ovelha mais famosa do mundo - Dolly nasceu a 6 de julho de 1996, mas isso só foi anunciado em fevereiro do ano seguinte, na revista Nature -, a chamada clonagem nuclear, era algo novo na época.

O que os cientistas britânicos fizeram foi retirar o ADN de uma célula mamária de uma ovelha adulta e introduzi-lo num óvulo (de ovelha) previamente despojado do seu próprio material genético. Depois, com uma descarga elétrica, conseguiram que esse óvulo evoluísse para um embrião (um dos tais 29 em 277 tentativas), que a seguir foi implantado noutra ovelha. Nasceu assim a Dolly, o primeiro mamífero clonado por este processo, sem intervenção de um gâmeta masculino, que foi apresentada ao mundo aos 7 meses. E então estourou a polémica.

O próprio anúncio da existência da Dolly teve a sua faceta rocambolesca. Por ser tão fora do que até se considerava possível, houve um jornal britânico, o The Observer, que furou o embargo, antecipando em 24 horas a notícia do nascimento da ovelha, obrigando a Nature a levantar o embargo.

Na passagem dos dez anos sobre esses acontecimentos, os editores, à época, daquela revista científica publicaram um texto, confessando como foram apanhados completamente de surpresa pela tempestade que a notícia da existência sobre a ovelha clonada acabou por causar na opinião pública.

Desde então, a par da investigação que prosseguiu na área, sucederam-se também os equívocos. A seita raeliana, por exemplo, chegou a anunciar em 2002 que tinha clonado o primeiro bebé humano. E não foi a única. O especialista italiano em fertilidade Severino Antinori, que foi preso recentemente, acusado de retirar óvulos a uma colaboradora sem o seu consentimento, também fez reivindicações idênticas, mas até hoje, por qualquer motivo, nenhum desses "bebés" apareceu.

Aparte estes casos extemporâneos nunca comprovados, a tão temida clonagem reprodutiva nunca avançou, desde logo pelos riscos da técnica, mas também pelos problemas éticos que suscitaria e porque as atuais técnicas de reprodução medicamente assistida utilizadas por todo o mundo são eficazes, comprovadas e eticamente pacíficas. E, portanto, preferíveis.

Ultrapassada essa questão, o que se pode então esperar da clonagem terapêutica, expressão que devolve a esta técnica a possibilidade de ser encarada com tranquilidade?

Apesar de a medicina personalizada que ela parecia prometer não se ter concretizado - ficou célebre o caso do cientista sul-coreano Woo Hwang, que anunciou ter clonado embriões humanos compatíveis com os respetivos dadores de células, mas que em 2006 se descobriu ser uma fraude -, a investigação sobre as células estaminais que a clonagem permitiu estudar, fez avançar novas possibilidades de aplicação na regeneração de tecidos e de órgãos.

A reprogramação de células adultas para a fase de células estaminais, que podem ser transformadas noutras, de outros tecidos, foi outra das heranças da clonagem cujo futuro está também cheio de promessas.

Quanto a Dolly, morreu seis anos depois de ter nascido (a espécie vive em média o dobro), cheia de reumático e doente dos pulmões. Os seus criadores decidiram aplicar--lhe a eutanásia para lhe poupar sofrimentos inúteis.

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