Diário de uma Viagem. Por terras de sua majestade adoecida, já com sotaque escocês

A viagem das três equipas que participam no desafio Climes to Go continua e o DN acompanha aqui as aventuras que enfrenta a equipa Energia na viagem até Glasgow, onde de 31 de outubro a 12 de novembro terá lugar a Cimeira do Clima. Neste diário conta-se a chegada ao Reino Unido.

Chegamos a terras de sua majestade adoecida. É mais complexo ser passageiro num barco pensado para camiões e carros, mas lá encaixámos na dinâmica. Pés em terra firme, o Tomás lança mão às colunas e recupera a nostalgia lusitana a lembrar aqueles Karaokes intemporais. Ai o que eu passei...a cantar.

Caminhamos assim animados e cansados do porto de Dover à estação. Este dia passados juntos serviu para ouvirmos as suas histórias e aventuras que os diferentes trajetos lhes trouxeram. A equipa Água apanhou voluntariamente lixo de uma praia de Bilbao, antes de se dirigir a Bordéus, onde visitaram o Darwin project, lugar do maior Bistro da Europa, com produtos locais e todo um conceito de sustentabilidade. Não se cansam de falar dessa experiência, parece que viveram à grande e à Francesa, querem claramente voltar.

Já a equipa Produção e Consumo chegou a ter água nos olhos com algo único que deram voz. A Koopera é um projeto que trabalha arduamente para a inclusão social criando postos de trabalho e dando formação para preparar pessoas desfavorecidas para o mercado laboral. Cada venda, cada produção conta nesta entidade altruísta sem fins lucrativos. Conheceram ainda o Sr. José, um castiço talhante basco numa loja centenária, que promove o conceito do Km 0. Tudo neste Talho é de produtores locais, os preços são mais elevados, o lucro menor, mas a paixão que emprega é muita. Uma forma perfeita de mostrar que a sustentabilidade não está só na dieta, mas também na forma como os alimentos são produzidos e distribuídos.

Apanhamos o comboio para Londres com um pica hilariante, que acrescenta alegria ao seu trabalho e à viagem dos utentes. Chegámos tarde, nas ruas londrinas muitos estão mascarados pelo Halloween, a covid já não traz tantas máscaras, já vão noutra fase. Ao ar livre também se sente o peso do álcool que derruba tantos. Hoje já não temos energia para brindes, recolhemos ao apertado quarto do nosso espaçoso hostel, onde somos recebidos por um rececionista de Minas Gerais, digo-lhe "pão de queijo", mas não reservo o pequeno-almoço.

Para o dia seguinte está agendada uma atividade importante. Somos recebidos calorosamente pela Louisa no escritório da Gulbenkian, que nos explica a intensa atividade da Fundação no Reino Unido e nos apresenta o projeto que apoiam e que fará parte da nossa ação de voluntariado. A One Less é um projeto inovador que com muitas sinergias convenceu o mayor de Londres a investir na criação de fontes em vários pontos da cidade. O objetivo é reduzir drasticamente o consumo de plástico não reutilizável. A carteira e o Oceano agradecem.

Este projeto sensibiliza ainda para a ligação da cidade ao Oceano. Muito do que fazemos toca os oceanos, que sendo dois terços do nosso planeta influenciará a nossa qualidade de vida, até pela produção de oxigénio e todas as questões associadas ao carbono azul. Vamos então à luta, mais vale ser uma gota no Oceano do que um pedaço tóxico de plástico na boca de um peixe-espada.

Desenhamos uns cartazes, agarramos nas garrafas e iniciamos o roteiro na Liverpool Station. Ob-la-di, ob-la-da, a vida segue e a nossa busca pelas fontes também, tentando que sejam inspiração para quem nos cruzamos. Com sentindo de humor promovemos algumas interações desde estilosos condutores de trotinetes que se concentram todas as últimas sextas-feiras do mês, skaters a vapor num espaço bem enquadrado, transeuntes que observavam mensagens sobre a crise climática nas paredes do Tate, e americanos de volta à mesa sem necessidade de chapéus vermelhos, pois aqui chove bom senso. Gostam do que lhe apresentamos e no meio surge uma voz "ah mas vocês são portugueses, a minha família é de perto de Fátima, sou emigrante em New Jersey." Há sempre alguém que veste a nossa camisola.

Somos bons a ligarmo-nos a diferentes culturas, é então que seguimos para a Chinatown. Londres tem um multiculturalismo especial, bem cuidado e pouco segregado, como uma boa capa de um manual de língua inglesa. O cosmopolitismo pode ser decisivo para consensos globais, sem desprimor para a diversidade cultural. A era das nações não tem que ter um fim com a cooperação global, os compromissos não comprometem o papel relevante dos Estados, até o salientam.

A noite termina num Pub em que as equipas se voltam a juntar para brindar às boas memórias que estamos a viver, apagam-se dúvidas deste desafio num mar de cerveja. Estamos a chegar ao último dia deste trajeto, mas recordo de fio a pavio a música do primeiro. Mais um dia em Londres, mais um dia de ação.

Vamos a isto? Yes, weekend. As ruas da capital britânica carregam vida, todo o tipo de manifestações projetam a sua voz, uns contra o passe sanitário, outros contra a sanidade dos discursos da crise climática. Há para todos os gostos. Neste país dos Queen há muito gaga no meio dos moderados súbditos.

Em frente ao palácio da Rainha, aparece-nos a Lia montada na sua bicicleta. É minha colega e do Tiago no Lidera, uma comunidade sóbria de jovens que pretende contribuir com soluções para a transição sustentável que se exige. Alguns minutos depois, à Lia juntam-se a Léa e o William, meus amigos da ELSA.

Houve tempo para encontrar mais algumas fontes e falar com mais pessoas. Só uma conversa não correu bem, tive a pouca inteligência de perguntar a um fervoroso adepto dos Spurs quanto tinha ficado o jogo com o United. De rosto cerrado responde-me 3-0, ao que tenho ainda a lata de perguntar se o Ronaldo marcou. Não sou o melhor do mundo em noção.

Ainda vivos apanhamos diferentes autocarros em direção ao destino final. Nós temos a sorte de ir com um motorista e artista de stand-up que assertivamente indica as regras do autocarro. "Se eu vir meias, essa pessoa vai borda fora", afirma antes de gritar com outro condutor. Já não é humor britânico, é escocês.

Amanhã há mais! Não há Salvadores em Glasgow, mas estou expectante para ver o que acontece. Pode ser que não seja só a paisagem escocesa que seja verde.

Equipa da Energia (em representação das 3 equipas no Climes to Go)

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