Diário de uma viagem. O adeus a Paris

O desafio Climes to Go, que envolve três equipas num total de 12 jovens, está a caminhar em direção à COP26. Um dos membros da equipa Energia conta-nos tudo.

Chegou a altura de deixar Paris e o hostel que nos hospedou durante 3 noites. Tinha um conceito próprio engraçado. Na receção aconteciam sempre coisas, desde de DJs a bombar música brasileira até mercados biológicos que juntavam produtores locais, encurtando a distância do prado ao prato.

Vamos para a Gare du Nord, que no dia anterior tinha sido evacuada por precaução, certamente um mochileiro como nós abandonou a mala. É tempo de deixar a cidade de Lupin e das dezenas de personagens que nos cruzámos. Na plataforma encontramos a equipa Produção e Consumo, animada para um horário tão madrugador. No comboio está ainda a equipa Água. Todos juntos partimos para Glasgow.

Mas não era suposto cada um seguir o seu caminho e estarmos em modo competição? Há causas e valores maiores que se levantam. Desde o nosso primeiro encontro na quinta do Pisão surgiu a ideia de passarmos em Calais, para compreender melhor a situação que se viveu e ainda vive neste último ponto antes do Reino Unido. Combinámos então ir todos juntos experienciar esta realidade e aprender com o trabalho de organizações que apoiam migrantes.

Chegados a Calais vamos a pé ao encontro da primeira organização. Trata- se da Secours Catholique- Caritas France. No portão encontra se uma carrinha que vai abastecer o espaço de alimentos. Percebemos logo que a azáfama é grande. É então que conhecemos o Antoine, que mesmo com muito trabalho oferece-se para nos mostrar as suas instalações e explicar a missão que a organização tem.

Pousamos as malas e começamos o tour nas instalações dos que auxiliam seres humanos como nós no último grande ponto da sua rota. O Antonie dá-nos uma lição de Calais 101 elucidando-nos sobre o porquê da concentração ali, a sua evolução desde os tempos da selva de Calais, em que milhares de pessoas se agruparam em condições pouco dignas.

A realidade hoje é outra, mas continua a ser preocupante. A presença dos migrantes apesar de menos mediática ainda é significativa, em todo o lado conseguimos ver os seus rostos de desalento, até debaixo das pontes. As cicatrizes de quem deixou tudo para trás em busca de algo melhor, e que tanto já perdeu na viagem, o nosso olho imberbe não consegue captar.


Não interessa a todos que esta realidade seja exposta. Nas palavras do Antoine nem lhes é permitido alimentar pessoas na rua, correm o risco de ser multados. Falta estrutura e estratégia, é sempre assim nas causas sociais em todo o lado. Uns não têm noção do terreno, outros não têm estômago e coragem suficiente para apurar o seu sentimento de justiça.

Realidade triste, mas que é preciso conhecer e dar voz. Vamos então ter com outras organizações que dão o melhor de si para fazer a diferença. A dezenas de minutos do centro encontramo-nos num grande armazém, com uma mensagem assertiva: Solidariedade, não caridade. São duas coisas bem distintas e definem a abordagem que se fazem a estas problemáticas.

Aparece o Willian, do L'Auberge des Migrants, jovem de 22 anos com maturidade de 30. Há 3 anos passou 3 meses em Calais e decidiu que queria voltar. Terminou o curso de Gestão e voltou o ano passado. "O que te faz ficar?", perguntou o Guilherme. Diz que é a camaradagem que se sente e a vontade de tentar alguma mudança mesmo que muito, muito pequena.

Já os migrantes não querem ficar, sonham chegar à ilha utopia. Mas porquê terras de sua majestade? O clima é pior, a comida também, o sul da Europa será mais agradável e a Alemanha tem uma pujança económica invejável. Tanto o Antoine como o Willian procuraram dar-nos conta desta complexidade. A língua que muitos dominam, as comunidades e famílias que estão do outro lado, os incentivos e o mercado de trabalham pesam nesta arriscada decisão.

Os ciclos de migração vão variando. De momento a maior parte vem do Sudão, numa viagem de meses ou anos. Muitos não são elegíveis para pedidos de asilo, grande parte traídos pela convenção de Dublin, ficando dependentes de países sobrecarregados onde chegam pela primeira vez a solo europeu. As suas impressões digitais já constam da Eurodac e não há muito que possam fazer.

Ficam então entregues à sorte da natureza e da empatia de outros tantos seres da mesma espécie. Nós não temos esse problema, a geografia definiu atribuir-nos um diferente valor, os nossos direitos humanos, supostamente universais, são mais valiosos que todo o seu universo. Basta-nos um passaporte que não nos hipoteca a vida. A nossa viagem de ferry é tranquila, a deles não saberemos.

Equipa da Energia (em representação das 3 equipas no Climes to Go)

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