Diário de uma viagem. Ainda por Paris.

A viagem das três equipas que participam no desafio Climes to Go continua e o DN acompanha aqui as aventuras que enfrenta a equipa Energia na viagem até Glasgow, onde de 31 de outubro a 12 de novembro terá lugar a Cimeira do Clima. Neste diário conta-se a passagem por Paris.

Mais um dia na capital francesa. Vou com o Tiago à padaria portuguesa, não é french nem franchising, é mesmo uma padaria com um lusitano de T-shirt branca a tirar um pão com chouriço do forno enquanto diz ao fornecedor, também português, para chegar a carrinha à frente. Ao mesmo tempo, a sua mulher põe ordem na casa.

Nas paredes anunciam-se noites de Fado, porém o nosso destino é outro. Seguimos para a cidade universitária que fica tão perto, depois de pequeno-almoço tomado e roupa estendida. A ideia é simples, ouvir aqueles que se encontram dentro deste espaço e gravar os seus testemunhos.

Ligamos os microfones à câmara que a Mariana e a Sara arranjaram, estamos prontos para começar. Abordo as primeiras jovens que encontro, reparo que são alemãs e iniciamos uma pequena conversa na língua de Goethe. Simpatizam e aceitam falar para a câmara, com timidez mas muito convictas.

As duas são de Heidelberg, da área das ciências, e sabem do que falam. Reforçam a importância de valorizarmos os estudos científicos e de a sociedade agir como um todo. O discurso não é vazio ou somente coloquial, percebe-se que é fruto de estudo e de interesse.

Seguem-se diferentes nacionalidades da Bélgica ao Camboja, com 4 simpáticos estudantes que ainda se ambientavam ao campus a explicarem como sentem que serão afetados pelas alterações climáticas e em que patamar ficarão países menos desenvolvidos. Às vezes confundimos o nosso mundo com o planeta terra, não obstante a profundeza da mentalidade do ocidente somos por norma ignorantes em grande parte dos assuntos que concernem a continentes como o asiático, que curiosamente alberga grande parte da população mundial.

Por fim, temos a sorte de conhecer mais dois jovens inspiradores, uma estudante de desenvolvimento internacional, originária das Filipinas, e um doutorando em Física do estreito Chile. Os dois contagiam-nos pelo seu conhecimento e paixão, estando bem a par dos assuntos abordados na COP. Ambos consideram que todos podemos fazer mais pela sustentabilidade não só com comportamentos menos lesivos para o ambiente, mas igualmente com a retenção de informação e conhecimento que nos podem auxiliar no escrutínio da atividade política.

Almoçamos por um bom preço nesta faculdade, onde a sapiência ciranda pela tradição do edifício e os seus pilares e pela moderna internacionalidade que hoje se sedimenta. Apressadamente dirigimo-nos para o centro de saúde para fazer o teste COVID, marcado na véspera. No meio da burocracia percebemos que tínhamos que ter um número de telemóvel francês para receber o teste. Mais um problema? Novamente temos o salvador Arlindo de Gentilly a quem acorremos e nos cede o seu gentilmente.

Não podemos seguir logo para o centro, temos detalhes para acertar dos próximos dias de viagem. Não é difícil, mas é complexo e alguns sites não ajudam. Somos uma agência de viagens a apagar fogos e a gerir um orçamento que se prova de sustentabilidade. É nessa altura que começo a receber mensagens de Portugal, o orçamento não foi aprovado, o do Estado. A notícia espalha-se pelo mundo, até as alemãs que reencontro no hostel já sabiam.

Em Portugal, a equipa do meu projeto encontra-se preocupada e com incertezas quanto ao nosso futuro, sinto que não calhou bem estar fora do país. Já na Torre Eiffel reafirmo que há obras que não fazem sentido serem deitadas abaixo, um projeto que se compromete nomeadamente a entrevistar Os 230 deputados tem também que ser pragmático e saber-se adaptar.

Vem me à cabeça a COP e a capacidade de compromisso que diferentes partes terão que encaixar. Estando-me a especializar em Direito Internacional sei bem que alcançar uma vinculação de Estados é bastante desafiante, o sistema de Vestefália marca muito um olhar anacrónico.

É então que encontramos o meu amigo francês Morgan de uma associação que fiz parte chamada ELSA, que tem a visão de "um mundo justo em que haja respeito pela dignidade humana e diversidade cultural". Talvez devesse ser essa a ambição da comunidade global, uma família assente em valores que agisse no respeito pelo princípio da subsidiariedade.

O Morgan mostra-nos quase todo o centro em tempo recorde, havendo minutos suficientes para fazermos uma menção ao caminho de Paris, da COP 21, a Glasgow, da COP 26. Em plena praça Concorde, fazemos um apelo para que a discordância não comprometa o compromisso, depois de observarmos a Notre Dame, menina e moça de Paris que lembra o Carmo e que recorda que tudo o que se constrói e se desenvolve em séculos pode desaparecer em segundos. É assim noutra escala com o nosso planeta.

Equipa Energia em representação das equipas participantes no Climes to Go

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