Constantino Sakellarides:"São os números da inércia"

Porque é que há tão poucos testamentos vitais?

Há várias explicações. A primeira é que neste momento a maioria dos portugueses não tomou contacto com a ideia da antecipação de vontade. O conceito do testamento vital é a antecipação da vontade, sermos capazes de antecipar o futuro de forma a dizermos o que não queremos que nos façam. Não gostamos muito de pensar nesse futuro e não fomos convidados a pensar nisso. Temos um projeto de literacia em saúde que tem uma biblioteca eletrónica de referência para a literacia e os conteúdos, neste momento, estão muito associados à vida ativa e, de certa forma, a antecipação de vontade faz parte disso. De pensar o presente e o futuro. Dentro desta literacia não basta disponibilizar os conhecimentos, mas fazê-los chegar a locais onde os mediadores possam ativar estes comportamentos. A segunda questão é que se for a um centro de saúde vai ver que não é fácil fazer um testamento vital. A terceira medida necessária tem a ver com a qualificação do pessoal dos centros de saúde para que seja fácil de fazer. Estes são os números da inércia.

As pessoas não compreendem ainda que podem tomar decisões sobre a sua saúde?

É. Por isso, nós no mesmo projeto refletimos sobre a ideia da multimorbilidade, que são os vários problemas que nos afetam, e aí queremos criar um plano individual de saúde, com uma negociação entre o profissional e o doente para decidir os cuidados que este está disposto a ter no sentido de melhorar a sua condição. Isto através do sistema informático de saúde. A ideia é levar as pessoas a discutir com os profissionais os problemas e sobre o que cada um pode fazer para melhorar a sua condição. Esta negociação estimula a ativação, leva as pessoas a pensar a sua saúde e o que querem. Por exemplo, a questão da prevenção de quedas nos mais idosos, para fazer que os idosos as evitem, é preciso que eles pensem que elas acontecem e que se protejam e isso pode ser um dos aspetos que o utente se propõe a fazer nesse plano.

Quais as vantagens de fazer o testamento vital?

As vantagens só se percebem se as pessoas valorizarem a antecipação de vontade. Se eu considerar importante que quando não puder decidir algumas coisas não aconteçam, então o testamento vital é vantajoso. Tenho é de pensar nelas antes e fazer por mim agora. É preciso que as pessoas pensem que isto é importante. Não é só aconselhar e esperar que a pessoa faça. Não é mecânico, isto tem de entrar na sua narrativa de vida.

Uma campanha de divulgação pode ajudar?

A campanha de sensibilização é um começo, mas, se não tiver os outros instrumentos a seguir, acaba em si própria. Tem de se inserir instrumentos que lhe deem continuidade.

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