"Com as alterações climáticas, há o risco de a febre da dengue se transmitir na Europa"

Quis estudar genética mas não para trabalhar com tubinhos e microscópios. Gosta de encontrar padrões nos grandes números e assim descobrir aquele mundo misterioso que o genoma tem para contar, quer na genealogia quer na resistência a doenças. Mas há coisas que não quer mesmo saber.

As alterações climáticas estão a abrir a porta dos países não tropicais ao mosquito da febre da dengue. Que relação há entre este facto e o trabalho de uma cientista portuguesa nascida numa aldeia da Régua em 1974? Luísa Pereira é investigadora em genética populacional no Ipatimup - Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto, e estuda o genoma das populações de África e América Central que adquiriram resistência àquela doença, o que poderá permitir a criação, finalmente, de um medicamento. Doutorou-se com uma investigação sobre o mapa genético dos portugueses: somos mais misturados do que os povos do resto da Europa. Teve de vencer a timidez para se integrar numa comunidade - os geneticistas populacionais - que trabalha em colaboração com outras áreas do saber, como a antropologia, a arqueologia, a história.

O seu campo de investigação é um dos que mais rapidamente evoluíram nos últimos anos?

No início do século XXI, os métodos de sequenciação deram um salto enorme e radical. Hoje conseguimos conhecer todo o genoma e uma pessoa pode chegar lá por pouco mais de mil dólares.

E que utilidade tem para uma pessoa conhecer o genoma completo?

Depende muito do interesse de cada um. Na maior parte dos casos, as pessoas querem saber mais sobre as suas origens. Para povos que sofreram mistura, por exemplo os afro-americanos que querem saber mais sobre as suas origens africanas, os seus antepassados, ou os povos judeus que andaram em diásporas pelo mundo, é muito importante saber mais sobre a genealogia. A genética veio contribuir com muita informação que complementa os documentos oficiais.

Nós, portugueses, temos uma grande mistura?

Somos mais misturados do que os povos do resto da Europa, devido à nossa proximidade a África e por estarmos no Grande Mediterrâneo, uma zona imensa de migrações ao longo do tempo - fenícios, gregos, romanos. E há também o papel de Portugal nos Descobrimentos, que fez entrar linhagens da África subsaariana.

Mas há muitas outras informações no genoma, além da genealogia.

Por exemplo, há quem tenha interesse em saber se tem os marcadores de suscetibilidade a certas doenças. E isso é problemático, principalmente para doenças complexas sobre as quais se sabe ainda pouco. Sabemos que determinado marcador genético está associado a uma doença complexa e se uma pessoa o encontrar pode ficar inutilmente assustada. A verdade é que pode não vir a ter a doença.

Não é forçoso que venha a ter?

Não é garantia, porque essas doenças complexas são codificadas por muitos genes e é o intercâmbio entre essas variáveis, interagindo com o ambiente, que pode levar a que venha a tê-la. Esta é uma das grandes discussões éticas de hoje. As empresas estão a fornecer este teste e algumas até vão ao ponto de informar a pessoa sempre que é publicado um artigo em que aquele marcador é associado a uma determinada doença. E isso é terrível. Muitas são doenças neurodegenerativas que poderão aparecer ou não depois dos 50 ou 60. Como é que uma pessoa lida com esta informação? Discute-se muito eticamente se a pessoa pode comprar diretamente este teste ou se deve haver a mediação de um médico para gerir a informação e a maneira como é transmitida.

É possível fazer esses testes diretamente?

No estrangeiro é possível. Em Portugal temos uma lei que diz que deve haver a intervenção de um médico, tem de ser o médico a pedir o exame, mas estão disponíveis na internet.

Fez o seu teste?

Fiz o meu teste apenas para a linhagem mitocondrial, não fiz o genoma completo. Não quero ter informação desses marcadores.

Teria algumas razões para ter medo ou é uma questão de princípio?

Tenho casos na família de uma doença neurodegenerativa e não quero saber, não quero ter de lidar com essa informação neste momento. Se tivesse os dados ficaria tentada a espreitar.

Mas essa precaução de que fala aplica-se apenas a algumas doenças, não?

Há certos marcadores que vale a pena testar, por exemplo o BRCA1, muito associado a cancro da mama familiar. Aí é possível prevenir. Se souber que é portadora daquela variante, pode ser seguida muito mais cedo. Para certas situações é importante, mas para isso é suficiente estudar aquela doença, não as doenças degenerativas.

Há a possibilidade de perceber se tem tendência para a longevidade?

Há marcadores associados à longevidade mas é uma característica extremamente complexa. É muito importante a alimentação, se a pessoa fuma ou não. É um mundo novo em que os desenvolvimentos tecnológicos permitiram entrar. Antigamente só falávamos de doenças causadas por um único gene, os síndromes. Eram realmente fáceis: um gene e uma variante que provoca aquela doença. Estou a falar de doenças genéticas muito graves.

Por exemplo?

Por exemplo, a fenilcetonúria, identificada no teste do pezinho. Por isso foi introduzido esse teste genético que permite identificar a variante que causa a doença. Os bebés afetados não conseguem processar um aminoácido presente em muitos alimentos e, se os comessem, teriam uma grave deficiência cognitiva. Por isso é feito tão precocemente. Ao identificá-la, eles vão ter uma alimentação especial. Ficam muito pequenos porque não podem comer proteínas, mas têm um desenvolvimento cognitivo normal.

O essencial dos genes vem pela linha materna?

Não. O que leu no meu livro - O património genético português [Gradiva, 2009] - baseava-se mais na parte da herança transmitida pela mãe, o ADN mitocondrial, porque foi isso que investiguei para o meu doutoramento. Era essa a parte do genoma que podia dar mais informação com a capacidade tecnológica que tínhamos na altura. Hoje isso já mudou. Pode-se estudar outros marcadores genéticos transmitidos por ambos os progenitores.

Que não têm que ver com a genealogia?

Também têm, mas são transmitidos por ambos os progenitores, pelos seus pais, pelos seus avós, tem a informação de todos eles. Não os estudávamos porque esta informação é toda misturada dentro das células. É muito difícil seguir e reconstituir a evolução. Mas claro que, em ciência, quanto mais informação tivermos melhor. O ADN mitocondrial só conta a história do lado materno. Agora, por exemplo, aplicam-se técnicas de chip em que se classifica em laboratório cerca de 500 mil variantes ao mesmo tempo, ou mesmo um ou dois milhões. Mete-se a nossa amostra no chipzinho, vai para uma máquina e aquilo sai tudo. E usa-se essa informação como se fosse um GPS genético. Aquela informação genética tem capacidade - e isso foi testado na Europa - de nos dizer que nós somos de Portugal, comparando com a base de dados europeia. Mesmo a nível da Europa que é, apesar de tudo, um continente bastante heterogéneo.

O que investiga neste momento?

Nós estudávamos o genoma para inferir a evolução e para melhor estudar o que é normal, o que não causa doença. Porque as doenças contam uma parte limitada da evolução humana, portanto estudávamos aquilo a que chamamos diversidade neutra.

Uma doença é uma mutação?

Sim, são mutações patogénicas, e são uma parte muito limitada da variabilidade que existe em nós. Continuamos a ter como primeiro objetivo categorizar as populações, classificá-las, ver quão semelhantes elas são, como migraram, como se originaram. Mas estamos a ver que essa informação também é muito importante para entender a suscetibilidade a algumas doenças. Estou a ir um bocadinho por aí.

Pode dar um exemplo?

Estou incluída no I3S (Instituto de nNvestigação e Inovação em Saúde) e para nós as doenças são importantes. Interessa-me estudar doenças que são mais frequentes num determinado grupo populacional, ou a que um determinado grupo populacional é mais resistente.

Algum grupo em concreto?

Estamos a trabalhar sobre a genética humana na suscetibilidade à febre da dengue. É uma febre muito frequente em países tropicais e subtropicais - sudeste asiático, América do Sul. Mas na Madeira houve um primeiro surto. O vírus é transmitido por picada do mosquito e devido às alterações climáticas o mosquito está a vir para latitudes mais a norte. Há o risco de a Europa, muito em breve, vir a ter transmissão autóctone da febre da dengue. Tanto o vírus como o mosquito existem em África mas os africanos quase não sofrem dessa febre.

Estão imunizados?

Houve um surto em Angola e a maior parte das pessoas que ficaram doentes foram portugueses e outros estrangeiros que vivem lá. Pensa-se que as populações africanas tenham resistência à febre da dengue, que é semelhante a outras que existem em África, por exemplo a febre amarela. Já adquiriram uma resistência genética a doenças relacionadas que as protege também contra a febre da dengue. Então, fomos explorar essa diferença.

E como faz esse estudo?

Fomos estudar a população de Cuba, com colaborações em Havana, porque Cuba é uma população altamente misturada, com os escravos que foram introduzidos e com os europeus, especialmente espanhóis. Os médicos em Cuba também observaram que as pessoas que adoecem são as que têm pele mais clara, enquanto os cubanos com pele mais escura não sofrem tanto da dengue, principalmente a forma mais grave, a hemorrágica. Aplicámos lá os novos testes genéticos e provámos que os indivíduos cubanos com maior ancestralidade africana têm maior resistência. Conseguimos identificar alguns genes que podem explicar essa caraterística, genes muito relacionados com o metabolismo dos lípidos. Os lípidos são muito importantes para o vírus entrar nas células, para se replicar.

O que é que isso permite?

Permite-nos identificar genes que estão a contribuir para a resistência em indivíduos que têm muita componente africana. Agora vamos fazer testes funcionais e tentar identificar o que esses genes codificam, qual é a parte do metabolismo em que interagem que pode explicar ou não esta resistência à doença.

E isso pode contribuir para no futuro criar uma vacina?

Para a vacina não, mas pode contribuir para desenvolvermos algum medicamento. Até agora não há nenhum medicamento para a febre da dengue.

O que se faz?

Tem de se acompanhar, tentar controlar as hemorragias e a perda de líquidos mas não há tratamento.

Morre-se de dengue?

Geralmente, se for identificada cedo, é possível controlar de modo a não entrar em choque, o que leva à morte. Mas ainda se morre. E uma coisa estranha de que nunca me tinha apercebido - e só fazendo parte do consórcio europeu é que me apercebi porque tinha pessoas da Tailândia, do Vietname, do Camboja - nessas zonas é tão endémico que hoje os adultos são resistentes, são os que não morreram. Nessas zonas só as crianças têm dengue. Nunca tinha pensado nisso.

A ciência feita em rede permite chegar a conclusões que sozinha...

... não chegava lá. Não se pode estar isolado.

Como é o seu dia a dia de trabalho?

Considero-me uma pessoa tímida mas tenho de fazer muitos contactos. Como estudo populações, preciso de amostras genéticas de continentes por vezes complicados. Dou a volta a isso estabelecendo colaboração, por exemplo, com antropólogos. Colaboro com um antropólogo checo, que passou muitos anos em África e tem imensas amostras de várias populações. Ele adora o contacto e está interessado na parte antropológica clássica, ver os indivíduos e a cultura, fotografá-los. Ao mesmo tempo colhe a amostra de saliva e colaboramos com ele nos estudos genéticos.

Trabalha numa secretária com um computador?

Sim, basicamente. Nunca tive um microscópio. Um laboratório de biologia molecular, de genética, baseia-se muito numa técnica que foi revolucionária nos anos 1980 e que nos permite estudar o ADN. Esta técnica permite multiplicar milhões de vezes, num tubinho, a região do genoma que queremos estudar, com uma quantidade mínima de amostra de ADN - até um cabelo, como é usado na forense, é suficiente. Sabemos a sequência do genoma todo, mas só queremos estudar uma zona, e dizemos-lhe: quero que copies só esta zona. Trabalhamos com tubinhos mínimos e as técnicas estão cada vez mais automatizadas, para diminuir erros, trocas de amostra. Passamos a maior parte do tempo em frente a um computador a analisar dados e a interpretá-los.

Era isso que pensava que ia acontecer? O que a trouxe para a biologia?

Eu tinha a certeza de que tinha de ser algo ligado à biologia, sabia desde cedo que queria ciências. Sempre tirei boas notas a matemática mas não me considero um génio matemático. Não gostava de física, podia seguir química mas biologia era o que mais me interessava. Durante o curso na faculdade ficou claro, quando tive genética, que era aquilo. Tem uma grande componente teórica, o que me interessa. Nunca me interessou o laboratório, mexer em tubos e placas, ir para o microscópio. Gosto mais de pegar em dados em bruto, ver padrões e tirar sentido do que lá está. A genética populacional tem muita matemática e muita teoria.

E foi para uma área que está em enorme desenvolvimento.

Quando comecei o doutoramento, tive a sorte de ser o momento da investigação no mitocondrial. E o Ipatimup era já independente tecnicamente. O Ipatimup abriu em outubro de 1996, comecei a vir no ano seguinte, estava a acabar o meu mestrado. Fiz aqui o doutoramento e fiquei cá. Visitava investigadores noutras partes do mundo para aprender as técnicas de análise estatística para processar os dados. Foi aí que comecei a estabelecer colaborações - o meio não é muito grande a acabamos por nos conhecer a todos. A ciência é especial para mim nesse sentido. Está-se em conexão com vários países, e isso é o que temos de mais positivo. Não se ganha muito, tem-se uma vida muito instável, dependente de bolsas até bastante tarde. Eu por acaso consegui escapar a isso mas fui das últimas.

É mesmo do Ipatimup?

Sou contratada pelo Ipatimup. Mas depois de mim não mais houve contratações. A possibilidade de conhecer pessoas de vários pontos do mundo e de contactar com culturas, religiões de todo o lado é muito enriquecedora.

A religião tem peso no momento em que estão a fazer ciência?

Tentamos abstrair, e tentamos que não influencie os resultados, mas tem um peso no que se vai estudar. Já perdi um bom amigo por causa de um artigo, não gostou do resultado que publicámos.

Mas sendo um cientista pode-se não gostar de um resultado?

Ai pode, pode. Somos humanos, lutamos uns com os outros muitas vezes.

Por motivos religiosos?

Neste caso... O judaísmo foi tão perseguido que demonstrar que são originários do Médio Oriente é muito importante para eles. No nosso artigo mostrámos que os judeus ashkenazi vieram do Próximo Oriente para a Europa, entraram provavelmente pela Itália, depois foram para o Reno e mais para Leste - Alemanha, Polónia, República Checa. Quando estudamos as linhagens mitocondriais, com grande poder de resolução, mostrámos que eram europeias. Achamos que vieram homens do Médio Oriente e juntaram-se a muitas mulheres europeias. Isto tem um grande impacto dentro de Israel. A partir de um certo momento histórico, consideram que é a mulher que transmite a religião. Foi muito complicado quando o meu amigo viu o resultado do estudo.

A sua área de investigação é muito especializada mas tem ligações transversais à história, à antropologia...

É muito desafiante trabalhar em conjunto. São linguagens e ritmos muito diferentes, por vezes é complicado. A nossa área teve um grande desenvolvimento em Inglaterra porque lá a arqueologia é muito forte e está muito avançada, aceita métodos quantitativos, usa a química para medir o tempo e as particularidades dos sítios que estão a explorar. Procuram mais o intercâmbio com outras ciências. Em Portugal ainda é muito complicado. Os casos da equipa de Cláudio Torres em Mértola e de João Zilhão são exceções, correm bem. Mastambém é difícil noutros países. A França é muito forte em antropologia clássica mas não deu o salto para incluir a genética. Quase não há estudos de genética em França. Estudam as ex-colónias mas não se estudam a eles próprios. Quando comecei o meu doutoramento fui a um congresso em Inglaterra onde havia metade arqueólogos, metade geneticistas. Conheci toda a gente da área, foi fantástico. Os meus horizontes alargaram-se entretanto e comecei a interessar-me por África, porque é rica em diversidade genética e temos facilidade na relação com as ex-colónias.

Como chegou à investigação científica?

Eu achava que ia ser professora do secundário, como a minha irmã. Era o mais óbvio, o mais seguro. Quando comecei o curso, não tínhamos contacto com a ciência. A universidade tinha os senhores professores e os alunos não tinham a noção do que era a investigação científica. No primeiro ano estuda-se tudo - matemática, química, geologia, áreas importantes para a nossa formação. O segundo ano era uma seca - decorar as plantinhas, os bichinhos, as caraterísticas. No terceiro comecei a ter genética e fisiologia, interessei-me mais. E no quarto ano tínhamos estágios prolongados no laboratório.

Foi fazendo as suas próprias pontes?

Sim. Hoje é mais fácil os alunos conheceram a realidade da investigação científica e ser professor do secundário é muito difícil. Por mais instável que seja a vida científica, é mais fácil obter uma bolsa do que um lugar como professor. É ridículo. Foi muito importante a ciência começar a ser feita em institutos de investigação. Deixou de estar sob a alçada única das faculdades que tinham uma componente pública e hierárquica muito pesada, o que torna a ciência lenta. Os institutos têm autonomia, o que permitiu dar o verdadeiro salto.

A ligação às questões da saúde abriu-lhe novas possibilidades?

Pode parecer um lugar-comum, mas não é: quanto mais multidisciplinar um sítio é, melhor. O facto de entrarmos para o I3S ainda foi melhor. Somos 800 pessoas, a fazer coisas muito diferentes.

Sabem o que os outros estão a fazer?

O sucesso do Instituto resulta das colaborações que as pessoas dos grupos estão a fazer. Houve a visão para fazer o instituto, para juntar, mas não há uma visão organizadora de cima. Estamos organizados em três grandes linhas, em três programas - cancro; neurobiologia e doença neurológica; interação com o hospedeiro e resposta (é sempre um nome complicado, é basicamente infeção e bioengenharia de próteses). Temos seminários dos group leaders uma vez por semana e há convidados que vêm cá. Mas o que funciona mesmo é a conversa de corredor: tu fazes isto e isso interessa-me, vou ter contigo e vamos ver o que dá.

Foi assim no caso do dengue?

Um grupo do Instituto Pasteur precisava de alguém que soubesse de genética populacional, que fosse mulher e de um país europeu mais pobre.

Porquê esses requisitos?

Os grandes consórcios europeus têm um número mínimo de países para serem financiados. Geralmente quem os lidera são franceses, alemães, italianos e ingleses e têm que ir buscar pessoas de outros países.

E ser mulher fazia diferença?

Por causa das quotas.

Beneficiou de oportunidades relacionadas com o momento histórico.

Não se pode deixar passar. A ciência é muito dinâmica, se não se acompanhar fica-se para trás. Na década de 1990 a genética populacional teve imensos avanços e respostas e começou a comunicar para o público em geral. Estamos sempre a lidar com prazos, o que é muito focante e cansativo, mas é a nossa realidade. Fazer um abstract para aquele congresso, acabar aquela tese de mestrado, submeter aquele artigo, é sempre isto. A FCT lembra-se de abrir um concurso de projetos e durante um mês há que escrever o projeto. Nos Estados Unidos sabe-se quando abrem os concursos, aqui não. Vivemos na incerteza de ter que reagir.

Além da febre da dengue, tem outros projetos de investigação?

Estudo cancros ligados a infeção. Interessa-me a diferença de respostas das populações aos agentes infecciosos. Umas já contactaram com aquele agente patogénico e adquiriram resistência, e daí a variabilidade genética. A minha abordagem é a mesma: genética, grandes números. Cada vez dependo mais da análise bioinformática.

Nasceu numa aldeia da Régua, o que fazem os seus pais?

O meu pai já faleceu, era mecânico. A minha mãe era doméstica e agora herdou as vinhas, é vitivinicultora. Tinham pouco mais do que a escola primária, tiveram a visão de nos dar estudos. Foi isso que fez a diferença em Portugal, a geração de 1960 e 1970 que deu o salto educativo. Nasci em 1974 e ainda tive na escola primária da aldeia colegas com 14 anos a quem davam-lhes o diploma, quer soubessem quer não. Foi o salto de uma geração, foi imediato, e a entrada na União Europeia veio fazer toda a diferença. Estávamos fechados, não havia autoestrada. Para chegar ao Porto demorava-se séculos.

Quanto tempo demora agora?

Uma hora. Antes, nem me lembro, sei que era horrível, vomitava sempre durante a viagem. O carro do meu pai - era mecânico mas era um bocado "em casa de ferreiro espeto de pau" - era péssimo, estava sempre avariado, passávamos humilhações. Havia três carros na minha aldeia.

Viaja quantas vezes por ano?

Este ano estou muito paradinha mas em setembro vou a três sítios. Vou a um congresso em Coimbra, vou ser arguente de uma tese em Liège [Bélgica]e depois provavelmente vou ser júri do concurso dos jovens cientistas europeus na Estónia. É um concurso em todos os países para os miúdos do ensino secundário trabalharem num projeto de ciência. Os países escolhem representantes que vão ao concurso europeu. É muito giro ver miúdos tão novos interessados por ciência. Alguns até nos envergonham porque são génios.

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