Bebé do Ano Novo, o oráculo do século XX que nasceu das mãos de um ilustrador

Os Estados Unidos da América do início do século XX atarefavam-se em sintetizar em imagens a sua identidade nacional. Um dos obreiros do período de ouro da ilustração foi Joseph Leyendecker que, por mais de três décadas, pôs os olhos dos norte-americanos no nascimento do Bebé do Ano Novo, oráculo para os meses que se sucederiam.

Um de janeiro de 1916. Nas páginas do semanário norte-americano Saturday Evening Post, o escritor britânico H.G.Wells pronunciava-se sobre o ano que principiava. No extenso artigo "What is Coming", o então autor de títulos literários de êxito mundial, como A Máquina do Tempo, palmilhava o ano que antecederia aquele que assinalaria a entrada dos Estados Unidos no primeiro conflito à escala global.

Wells, sagaz, sublinhava a sua preocupação face ao conflito mundial que se desenrolava e à fundação de uma paz global: "há muito mais pessoas e muito mais inteligência concentradas no fabrico de cigarros e ganchos para o cabelo do que no estabelecimento de uma paz mundial permanente (...) enquanto isso, uma minoria de pessoas - militaristas, reis e estadistas ambiciosos, empreiteiros da guerra, agiotas e jornalistas sensacionalistas - prosseguem com os seus interesses e mantêm o conflito", arquitetava em palavras o homem que ficcionara em 1898, no livro A Guerra dos Mundos, uma batalha global opondo humanos a alienígenas.

No artigo (consultável no Internet Arquive) à boleia das páginas da revista publicada ininterruptamente entre 1821 e 1969, Wells enfatizava o potencial humano que se perdia nos palcos das batalhas. Mortandade entre os jovens que comprometeria, segundo o escritor, o desenvolvimento futuro das nações.

Um porvir que o autor desejava ver preenchido de aparato tecnológico: "com um nível de certeza muito alto, existem coisas que os homens provavelmente farão, como melhores aviões em 1950, ou uma ligação ferroviária entre Constantinopla [atual Istambul, na Turquia] e Bombaim [Índia]". A propósito do avião, Wells não continha o seu elogio a Clément Ader, engenheiro francês, precursor das viagens aéreas, mas também do pneu de borracha para bicicletas e do teatrófono (ver caixa). A 9 de outubro de 1890, o Éole, protótipo de avião desenvolvido por Ader, augurou percorrer uma distância de 50 metros, elevando as suas asas 20 centímetros acima do solo.

Na sua previsão para o ano de 1916, Herbert George Wells seguia uma prática que a Saturday Evening Post manteria ao longo de várias décadas, a de antever na sua primeira edição do ano os 365 dias ulteriores. Análises anuais com chamadas de capa e respetivas ilustrações entregues, ao longo de 36 anos, a Joseph Christian Leyendecker. Nascido na Alemanha em 1874, emigrado com a família para os Estados Unidos em 1882, Leyendecker estereotipou em imagem uma representação com origens indefinidas, a do Bebé do Ano Novo como recebedor do testemunho do Pai Tempo, materialização do ano findo.

Entre 1896 e 1950, Leyendecker pintou mais de 400 capas editoriais numa época em que a fotografia ainda titubeava nas páginas das publicações. Em dezembro de 1906, o artista comercial recebeu a primeira encomenda para fixar em ilustração a passagem do ano velho para o novo ano. Em resposta, Leyendecker apresentou o esboço de um querubim sentado no polo de um globo terrestre de caneta em punho, pronto a escrever as páginas em branco do ano de 1907. A 29 de dezembro de 1906, a ilustração fazia capa da revista que, a partir de 1910, passou a utilizar a imagem do ano como oráculo para o que aguardaria os norte-americanos. Leyendecker recuperava para o século XX referências do passado, nomeadamente da Grécia Antiga, do século V a.C. Anualmente, era celebrado o deus Dioniso, entidade tutelar do vinho e dos ciclos vitais. Então, um bebé era exibido em público aconchegado num cesto.

A construção em imagem da identidade americana

A tradução em imagem de um bebé rechonchudo, misto de inocência e sapiência, ganharia na edição de 1911 do Post a companhia de outra figura tutelar, o Pai Tempo, personificação do passado, corporizada num homem idoso, de barba robusta, por vezes alado, ornado de foice e ampulheta, ou outro artefacto capaz de traduzir visualmente a passagem do tempo.

Uma associação visual ao tempo velho e seus artefactos com origens muito anteriores aquela que animou a veia criativa de Leyendecker. O tempo passado vira-se representado na pintura, entre outros, dos franceses Nicolas Poussin (século XVII) e François Le Moyne (século XVIII) e do espanhol Francisco de Goya (século XVIII). Na centúria de XIX, o tempo velho enformou a escultura do norte-americano John Flanagan e a escrita de Edgar Allan Poe e de Lyman Frank Baum, respetivamente nos contos O Poço e o Pêndulo e a A Captura do Pai Tempo.

Leyendecker marcou uma nova era para o Bebé do Ano Novo e para o Pai Tempo, ao associá-los a uma representação imediata da identidade americana, sintetizada numa ilustração comercial, área em que o artista plástico revelou particular vocação. Em 1905, uma campanha criativa impulsionada pela nova-iorquina Cluett Peabody & Co tornou-se num sucesso de milhões de dólares. A empresa, produtora de colarinhos para camisas, encomendou a Leyendecker as maquetas que serviriam de suporte ao anúncio de uma nova peça de vestuário. Nos anos seguintes, o homem americano rendia-se aos colarinhos em flecha, golas destacáveis de camisa que Leyendecker tratou de fixar numa imagem padrão da elegância masculina.

Em 1914, o mesmo artista reinventou os estereótipos associados ao Dia da Mãe, então reconhecido como feriado nacional pelo Congresso dos Estados Unidos e proclamado pelo presidente Woodrow Wilson. Nas páginas da revista que o tinha tornado uma estrela, Leyendecker publicou uma ilustração icónica, a de um rapaz a entregar um ramo de flores. Mais do que o valor de mil palavras, a ilustração significou um impulso económico para o setor norte-americano do cultivo de flores, ao associá-las a uma nova demonstração de afeto.

Na época, Joseph Christian Leyendecker mantinha o seu rumo anual para o Bebé do Ano Novo, incumbido de sintetizar o fascínio e as preocupações do seu tempo. Se em 1910 se afirmava o interesse pelo avião e seu potencial, em 1912 uma bebé marchava solidária com o movimento sufragista norte-americano, ao empunhar um cartaz onde se lia "Votes for Women" e "Equality". Em 1914, ano em que eclodiria a Primeira Guerra Mundial na Europa, Leyendecker resumia os meses que se seguiriam numa ilustração que antevia a inauguração, em agosto, da obra de engenharia que estreitaria a navegação entre os oceanos Atlântico e Pacífico. A abertura do Canal do Panamá culminava uma obra iniciada pela mão dos franceses uma década antes.

Um bebé receoso com a guerra

Em 1915, um querubim atarefado varria a esfera terrestre, afadigando-se em limpá-la de capacetes militares para, volvidos cinco anos, se deter na Lei Seca, a proibição que, entre 1920 e 1933, procurou banir dos Estados Unidos o fabrico, transporte e a venda de bebidas alcoólicas para consumo. O Bebé do Ano Novo de faces coradas, envergava uma cartola, mimetizando um personagem ficcionado na época, Mr. Dry. A criança arrastava um brinquedo construído em madeira, um camelo símbolo do deserto alcoólico que aguardava os Estados Unidos. A entrada nas duas décadas seguintes não sossegou o bebé de Leyendecker.

Mil novecentos e trinta trazia as angústias associadas à Grande Depressão, sintetizadas numa ilustração de um bebé paraquedista com pouso incerto. A década de 1940 confirmava o segundo conflito mundial e uma capa tomada pela incerteza: a criança transportava os seus pertences numa mala, envergava uma máscara de gás e segurava um guarda-chuva, este numa alusão ao Primeiro-Ministro britânico Neville Chamberlain que, em 1938, assinara o Tratado de Munique com o alemão Adolf Hitler, o francês Édouard Daladier e o italiano Benito Mussolini. Tratado que não evitaria o conflito mundial que eclodiria em setembro de 1939.

Em 1943, Joseph Christian Leyendecker assinava a sua última capa no Post, pondo termo à série iniciada em 1906. Na época, os Estados Unidos viam-se há dois anos a braços com a Segunda Guerra Mundial. Receoso, o Bebé do Ano Novo defendia-se dos símbolos das Potências do Eixo, a Alemanha, Itália e o Japão.

Leyendecker, que viria a influenciar outro construtor da imagética americana, o pintor Norman Rockwell, fixou para a posteridade a imagem de um bebé roliço com a responsabilidade de augurar um novo ano. Revistas como a The Country Gentleman, publicada entre 1852 e 1955, com ênfase no mundo rural, "adotaram" o bebé e a figura experiente do Pai Tempo que, na capa de 1 de janeiro de 1955, zurze na criança, num quadro que o século XXI apelidaria de politicamente incorreto. "Começar bem o novo ano", escrevia-se na capa da referida publicação, a par com um destaque mais mundano: o preço da terra nos estados norte-americanos do denominado "cinturão do milho".

dnot@dn.pt

Mais Notícias

Outras Notícias GMG