"Aos 62 anos e com 40 no exército afegão, vi muitas mudanças. Tenho essas memórias"

Portugal acolheu 251 afegãos através do corredor de emergência aberto após a ocupação dos talibãs. A maioria está em dois centros de acolhimento de Lisboa. Outros estão em cidades como Cascais, onde começam uma nova vida como mais uma família.

Uma toalha posta, com o imprescindível chá (e leite), acompanhado de bolos, fruta e doces. Assim nos recebe a família Malik na sua casa em Portugal, para onde fugiram depois de os talibãs ocuparem o Afeganistão. Seis pessoas acolhidas pela Câmara de Cascais a 21 de setembro, no mesmo dia dos Naibkhail, um agregado de quatro pessoas e que teve de deixar o filho do meio para trás.

Os técnicos que os acompanham começaram por se questionar. "Se nos acontecesse o mesmo, o que gostaríamos de encontrar?" Concluíram que quereriam "uma casa com todas as condições para uma vida nova."
As duas famílias viviam em Cabul e, agora, vivem num bairro da autarquia de Cascais, onde também há habitação privada. Os homens pertenciam às forças armadas do Afeganistão, o que parece ser uma constante entre os 251 afegãos que Portugal recebeu desde 27 de agosto, no quadro do "corredor de emergência humanitária". A prioridade é apoiar quem trabalhou com as forças armadas nacionais no Afeganistão. Como o coronel Abdul Malik, de 62 anos, e o tenente Farhadullah Naibkhail (25).

Portugal acolheu 159 afegãos nos últimos anos e à margem da emergência humanitária


"É sempre assim que nos recebem, com uma mesa cheia", observa Neuza Gonçalves, da Direção de Intervenção Social da Câmara Municipal de Cascais. Com Umera Assanali, da mesma equipa, acompanha diretamente as duas famílias, a que se juntam Gonçalo Alves e Elsa Ferreira, da Cascais Envolvente (habitação social). As visitas têm sido praticamente diárias. A instalação e a escolaridade dos mais novos foi imediata, mas adivinham-se dificuldades com os ingressos ao nível do ensino superior.


As duas famílias viviam em Cabul e fugiram da guerra e agora vivem numa zona agradável, em apartamentos preparados e mobilados para os receber - com móveis e têxteis novos e usados - e o recurso a mão-de-obra de sem-abrigo, numa colaboração da autarquia com instituições de solidariedade locais. Os técnicos contam que praticamente mudaram-se para o bairro quando souberam que iam acolher duas família, tiveram uma semana para preparar a receção. É a primeira vez que recebem refugiados, o que até pode ser uma vantagem: todos querem ajudar. E o concelho está habituado a gentes de outras paragens: tem residentes de 132 nacionalidades.

Maioria ficou em Lisboa

Cascais recebeu dez pessoas, uma pequena parte deste acolhimento de emergência humanitária. A maioria dos refugiados (190) vive em dois centros de acolhimento de Lisboa; os restantes em Leiria (seis), Felgueiras (seis), Fundão (quatro), Sintra (11), Oeiras e Miranda do Corvo. Agregados familiares, compostos por 109 pessoas do sexo masculino e 142 do feminino, entre os quais 99 menores de idade. As idades vão dos 3 meses aos 75 anos de idade e já nasceu um bebé em Portugal (em Leiria).
Filipa Batista é a coordenadora do Centro para as Migrações da Câmara Municipal do Fundão. Receberam uma família monoparental de quatro mulheres, a mãe e três filhas, de 11, 15 e 22 anos, respetivamente. É a de 15 anos, jogadora da seleção de futebol do Afeganistão (chegou num grupo de 26 atletas), a cabeça do processo de requerente de asilo. Ficaram alojadas num apartamento da bolsa de casas da autarquia.
"É a primeira vez que recebemos uma família de refugiados e menores, o que vai implicar a colaboração com as escolas. O primeiro passo é instalar a família e comprar os bens essenciais. É o início do processo de integração", explica Filipa. Sublinha que a principal preocupação é com a educação, já que trabalho não falta no concelho e toda a mão-de-obra é bem-vinda.
A autarquia tem uma boa experiência com refugiados mas a maioria são cidadãos isolados e ficam no centro numa fase inicial.
Os refugiados são apoiados durante 18 meses com o recurso a verbas europeias, cerca de 7 mil euros por pessoa entregues à instituição de acolhimento. No caso destes refugiados afegãos ainda não foi estabelecido um protocolo.

"Comemos pão com tudo"

Abdul Malik e a família viviam na capital do Afeganistão. O homem frisa que Cabul era menos tradicional nos costumes, embora o seu casamento com Shafiqa, 52 anos, professora de Matemática, tenha sido combinado pelos pais de ambos. Já não seguiu essa prática com a filha mais velha, Pakiza, de 27 anos, dentista no hospital e com consultório. O segundo filho é um rapaz, Aria, de 19, frequentava o 1.º ano de Engenharia Civil. Tem mais duas filhas: Jelwa (15), e Dewa (11).
Reformou-se há um ano do serviço militar, toda uma vida em que Abdul acompanhou de perto várias guerras. "Tenho 62 anos, 40 no exército, vi muitas mudanças no Afeganistão. Ingressei nas forças armadas pouco antes da invasão do russos [1979], tinha 20 anos. Tenho todas essas memórias na minha cabeça", diz para explicar a forma como está a viver toda a situação. Com o sonho de um dia regressar. "Claro, é o meu país", diz.

As primeiras diligências quando estes refugiados chegaram a Portugal foi o rastreio de saúde pública. Uma das pessoas testou positivo à covid-19 e tiveram de cumprir a quarentena. Entretanto, já levaram a primeira dose da vacina, mesmo quem tinha iniciado o processo de vacinação no Afeganistão.

Jelwa e Dewa frequentam o agrupamento de escolas de Alcabideche. "Formalmente, estão no 7.º e 10. º ano, mas a nossa preocupação e da direção escolar foi manter as duas juntas e com a mesma carga horária. O principal objetivo é aprenderem português, mas também inglês, artes, técnicas de informática e adquirirem competências. Conforme vão integrando estes conhecimentos, introduzimos novas matérias", explicam Neuza e Umera. A direção escolar disponibilizou livros e outro material didático, uma psicóloga para acompanhar as duas alunas e mobilizaram os colegas para estarem com elas nos intervalos.

As despesas com o alojamento são suportadas pela autarquia de Cascais e cada membro da família tem cerca de cem euros mensais da Segurança Social para a alimentação e necessidades básicas. Receberam um cartão para andar nos transportes públicos, gratuitos no concelho e foram acompanhados pelos técnicos nos primeiros dias. Agora, já é o pai que leva e vai buscar as filhas à escola.
Malik fez questão de ver as faturas dos bens que lhes compraram para perceber o custo de vida em Portugal. Teve, também, a preocupação de saber qual é a prática para com as mulheres. No Afeganistão, devem seguir atrás do homem, não dão a mão ao marido e não devem mostrar o rosto a desconhecidos, por exemplo.

"Em Cabul não há tantas tradições como nas cidades do interior, mas somos povos diferentes, temos outros hábitos e costumes, também a religião [são muçulmanos]", justifica. As quatro mulheres da família usam o shayla (lenço retangular islâmico) e Shafiqa, a mãe, esconde o rosto para a fotografia. Pela mesma razão, Farhadullah não tirou fotos com a mulher.
Aria joga futebol, defesa direito, e começou a treinar uma semana depois de chegar a Cascais na equipa de formação do Estoril-Praia. "Treinamos todos os dias de manhã, apanho o M 13, às vezes vou a pé até Cascais, aproveito para conhecer. Isto aqui é muito bonito e tem o mar", conta o jovem. Inicia as aulas de português e de inglês.

Viver junto ao mar era impensável para a família há poucos meses. "Quando os americanos tomaram a decisão de sair, ninguém pensou no que podia acontecer, não sabíamos de nada. Foi de repente, fomo-nos apercebendo da situação à medida que víamos as imagens na televisão", conta Abdul.

Aria quer continuar a estudar engenharia civil, para já, a autarquia não o consegue ajudar. "Não há um programa específico para estes estudantes como aconteceu com os refugiados sírios [integrados no ensino superior português através da Fundação Jorge Sampaio] e pelo sistema geral vai ser muito difícil", lamenta Neuza. Pela mesma razão, será muito difícil que Pakiza consiga o reconhecimento das habilitações como dentista. Entretanto, vai vai aprender português e inglês.

"O que mais desejo é continuar com minha profissão, até porque as formas de trabalho, os equipamos serão muito idênticos", confessa a médica. Aliás, foi o facto de trabalhar que a obrigou a fugir do domínio dos talibãs: "É impossível exercer a profissão no Afeganistão."
As amigas, as colegas, fugiram ou estão escondidas. Pakiza recorda Mahjabin Hakimi, jogadora de voleibol que foi decapitada . E Zarifa Ghafari, cujo pai, militar, foi assassinado e era o maior amigo de Abdul Malik. Zarifa era a mais jovem presidente de câmara no Afeganistão e fugiu em agosto para a Alemanha. Esteve há um mês em Portugal para participar em iniciativas no âmbito dos direitos humanos.

As diferenças do dia-a-dia vão sendo geridas pela família. Uma das consequências de o país de origem não ser banhado pelo mar é a escassez de peixe, que é pequeno e só se consome em dias festivos. Ficaram impressionados com as bancas de peixe. Também não esperavam que só houvesse pacotes de um quilo de farinha nos supermercados ao contrário dos 20 quilos a que estavam habituados. Também a fruta e os legumes são abundantes e baratos no Afeganistão, compram fruta aos sacos de dez quilos. "Fui comprar seis pães e a senhora olhou para mim admirada, deve ter pensado para que queria tanto pão. Mas era só para um dia, um para cada um, comemos pão com tudo", brinca Aria. Fazem o próprio pão na maioria das vezes e consomem só carne halal (abate islâmico), que compram em Odivelas, onde há matadouros específicos.

Obrigado a deixar um filho

Abdul Malik mora ao lado de Farhadullah Naibkhail, de quem foi comandante. Um tenente que tenta brincar com a situação, responde às perguntas com piadas. Vivia com a sua família na província de Nangarhar, fugiram para Cabul quando a aldeia foi ocupada pelos talibãs. Estavam há seis meses na capital afegã em casa de um irmão, quando tudo se precipitou.


Fugiram para o aeroporto, a 80 quilómetros de distância de onde viviam. Farhadullah conseguiu reunir a mulher, Nazia, de 26 anos, o filho Huzaifa, de 7, e a bebé, Selma, de 2. No meio da confusão e das dificuldades de acesso, deixou para trás o filho Saad, de 5 anos. "Tivemos de decidir ali: esperar para juntar todos e poderia não sair ninguém ou entrar no avião? Estamos a fazer tudo para juntar os cinco em Portugal."

O menino está com o irmão de Farhadullah e as autoridades portuguesas desenvolvem esforços para o trazerem, tal como elementos de outras famílias e outras pessoas. "Portugal mantém-se empenhado nos esforços para o acolhimento de cidadãos afegãos, nomeadamente aqueles em especial situação de vulnerabilidade e que precisam de proteção humanitária internacional", responde a assessoria do Ministério do Estado e da Presidência, que gere este dossiê com os Negócios Estrangeiros e a Administração Interna.

No último fim de semana, o primo de Farhadullah veio até Cascais com a família, juntando-se as três famílias. É Abdul Naibkhail, 35 anos, major, que vive num centro de acolhimento temporário em Lisboa. Viajou para Portugal com a mulher e os cinco filhos. Conta que aprendeu tudo com o coronel aposentado. "Entrei para o exército em 2006, Abdul Malik é o papa das forças armadas, aprendi tudo com ele, estivemos em campos de treino na Jordânia. Tenho um grande admiração por ele, vim também, por respeito ao meu comandante."

Abdul Naibkhail faz questão de sublinhar no momento da despedida. "Fomos nós que escolhemos vir para Portugal, poderíamos ter ido para os EUA ou outro país da Europa. Viemos para aqui porque éramos das forças especiais e trabalhámos com as tropas portugueses. Gostámos muito de trabalhar com os militares portugueses".

ceuneves@dn.pt

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