"Conhecia toda a tripulação do vaivém Challenger"

Astronauta. Piloto de guerra no Vietname, quatro missões da Space Shuttle, primeiro afro-americano a liderar a NASA. Charles Bolden fala com o DN sobre o seu invulgar percurso e o futuro da exploração espacial

Antigo administrador e astronauta da NASA, major-general da Marinha dos EUA na reforma, veterano do Vietname e do Kuwait, veio a Portugal a convite do think tank Future Trends Forum, da Fundação Inovação Bankinter, do qual é um dos patronos.

Foi piloto no Vietname, Laos e Cambodja. Entrou na NASA, em 1980, pilotando o spaceshuttle em quatro missões. Regressou à Marinha e esteve no Kuwait. Foi nomeado por Obama administrador da NASA, o primeiro afro-americano no cargo. É justo dizer que a sua vida daria um excelente argumento cienamatográfico?

Não sei. Não tenho a certeza do que constitui um grande argumento cinematográfico. Espero que dê um bom livro...para crianças, porque estou a tentar escrever um. Estou a apontar para miúdos do ensino médio [equivalente ao terceiro ciclo], não demasiado novos mas ainda não no secundário, porque os mais velhos não querem lê-lo.

Não foi fácil começar a sua carreira, desde logo entrar na Academia Naval. Nasceu na Carolina do Sul, numa época em que a segregação racial ainda era muito marcada. Como conseguiu ultrapassar todos os obstáculos?

Tive a sorte de ter como primeiros - e eternos - exemplos e mentores a minha mãe e o meu pai. Eles eram professores. E sempre nos ensinaram, a mim e ao meu irmão, que poderíamos ser o que quiséssemos desde que estivéssemos dispostos a estudar muito, a trabalhar, a ser persistentes. O meu pai era o meu treinador de futebol no liceu. E o seu provérbio preferido era: "[O que importa] não é o tamanho do cão na luta mas o tamanho da luta no cão". Cresci com todos esses pequenos exemplos de sabedoria. E, com a exceção do programa espacial, penso que não houve nada que tenha acreditado que não conseguiria fazer.

Houve uma altura em que acreditou que não entraria no programa espacial?

Nem sequer o considerava como hipótese. Não era uma das coisas que quisesse fazer quando estava a crescer. Planeava muito mal. Quando terminei o liceu, e finalmente tive uma oportunidade de ir para a Academia Naval, tinha decidido ir para lá, no sétimo ano, inspirado por uma série da televisão. E consegui finalmente que me concedessem uma entrevista - na verdade através do Presidente dos Estados Unidos e de um congressista de Chicago, Illinois, já que não o conseguia através do meu estado Natal da Carolina do Sul. Mas, quando deixei o liceu, as duas únicas coisas que sabia eram negativas: sabia que não ia ser um Marine, porque achava que eles eram doidos, e sabia que não iria pilotar aviões, porque era muito perigoso.

Como imaginava a sua carreira?

Queria ser um mergulhador [frog man]. Na altura eram chamados de Equipa de Demolições Subaquática, a UDT. Mas quando cheguei à Academia Naval fui informado pelo superintendente, que viria a tornar-se meu amigo, o contra-almirante Draper Kaufmann, que não poderia graduar-me entrando nessa equipa. Fiquei devastado. Era o que queria fazer. Tive de pensar: "OK, qual é o meu plano B?". E não tinha um. O meu primeiro oficial de companhia era um major da Marinha, veterano do Vietname, incrivelmente motivador e inspirador. Lembrava-me muito do meu pai. No final docurso, apesar de ele se ter ido embora no fim do primeiro ano, tinha decidido que iria ser como ele: um Marine, um oficial de infantaria. Mas ao fim de seis meses do que a Marinha chama a escola básica, aprendendo a ser comandante de pelotão, percebi que não gostava mesmo de andar a rastejar na lama...

Teve de rever outra vez os planos?

Tive de procurar outras opções. Tinha-me casado logo no final da Academia Naval. E a minha mulher também não estava enamorada com a perspetiva de eu ir para o Vietname como um oficial no terreno. Passava a vida a dizer-me: "Porque é que não vamos para Pensacola [na Florida]?" E eu respondia: "Porque é aí que estão os aviões e eu não quero pilotar aviões". Mas ela tinha razão e finalmente conseguiu convencer-me. Por isso fui para a escola de pilotos. Apaixonei-me por voar na primeira vez que entrei num avião e levantei voo. E a partir daí fui continuando...

...até chegar à Nasa, em 1980, onde viria a pilotar três vaivéns diferentes: o Columbia, o Discovery e o Atlantis. As tragédias, nomeadamente a do Columbia, em 2003, terão sido um duro golpe para toda a gente na NASA. Mas imagino que para si tenham sido particularmente difíceis de gerir.

Na verdade, o golpe mais duro para mim foi perder o Challenger. Perdemos o Challenger em janeiro de 1986, dez dias depois de eu ter aterrado da minha primeira missão no spaceshuttle. Conhecia toda a gente na tripulação. Tinha praticado boxe na Academia Naval com Mike Smith, o piloto. O Ron McNair era a minha inspiração.Lembra-se de lhe ter dito que a única coisa que nunca tinha sonhado fazer era ir para o espaço? Conheci o Ron quando eu era um piloto de testes, num sítio chamado Pax River [base aérea, no estado de Maryland] e foi ele que criou o primeiro grupo de pessoas selecionadas para serem astronautas do spaceshuttle, em 1978, 1979. Tal como eu, era um afro-americano. Mas, ao contrário de mim, ele sempre tinha aspirado a ser astronauta. E traçou o seu percurso para fazer exatamente isso. Diplomou-se de uma escola secundária segregada, tal como eu. Foi para a A&T em Greensboro, Carolina do Norte, onde se graduou com honras, foi para o MIT, doutorando-se em Física de lasers, eventualmente tornando-se numa autoridade mundial. Era quinto dan de karaté e um excecional saxofonista de jazz. Poderia ter feito qualquer coisa na vida. Quis ser astronauta e tornou-se num.

Foi ele que o motivou para ser astronauta?

Ele veio a Pax River para uma reunião com alguns pilotos da marinha e dos Marine Corps. Conversámos todo o fim-de-semana. Eu estava enamorado com tudo o que ele estava a fazer mas ainda sem interesse em tornar-me num astronauta. Quando ele se preparava para ir embora, para pegar no seu avião e regressar a Houston, perguntou-me: "Vais te candidatar ao programa espacial?". E eu respondi: "Não na tua vida". Ele olhou para mim de uma forma estranha e perguntou: "Porque não?". E eu disse: "Porque nunca me vão escolher". E ele disse-me: "Essa é a coisa mais parva que já ouvi. Como sabes, se não perguntas?". Mais do que tudo o resto, senti-me embaraçado, porque tinha tomado uma atitude que estava em contraste com tudo o que a minha mãe e o meu pai me tinham ensinado sobre poder fazer tudo o que queria fazer...

Portanto, basicamente foi a primeira pessoa no mundo a tornar-se astronauta a contragosto?

Não fui o primeiro, nem o único. Mas nessa altura decidi que ia candidatar-me.Tive uma oportunidade, porque fui nomeado pelos Marine Corps para a NASA. Depois convidaram-me para vir a Houston, para uma entrevista e fui subsequentemente selecionado no segundo grupo de astronautas do Spaceshuttle, em 1980. Foi assim que entrei. E acabei por passar catorze anos emprestado pela Marinha à NASA. O meu primeiro voo foi no Columbia, que para mim tinha uma ligação sentimental, porque tinha sido nascido e criado em Columbia, Carolina do Sul. O vaivém não tinha sido batizado em homenagem à Carolina do Sul, mas as pessoas de lá...

...sentiam a ligação?

Sentiam. Tinham uma ligação muito especial a esse veículo e a esse voo.

O facto de ter sido pilotado por si deve ter tido um grande impacto na Carolina do Sul.

Exatamente. E dez dias depois de termos aterrado, perdemos a Challenger e o Ron Mcnair, como membro da tripulação. Para mim foi bastante devastador. Levou-me a pensar, durante um mero nanosegundo, se queria ou não continuar no programa. Mas não foi difícil de decidir. Disse para mim: "Não vim aqui para me ir embora. E o Ron e a sua equipa ficariam verdadeiramente....

...desiludidos?

A palavra que usei para mim foi "lixados". "Ficariam lixados se me fosse embora agora." E fiquei.

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